“Eu sou de cima”

“Eu sou de cima” (João 8:23).

Esta afirmação é muitas vezes usada para ensinar que Jesus estava no céu antes de vir para a terra. O contexto do verso, no entanto, mostra que essa interpretação é incorreta. Jesus declarou aos judeus: “Vós sois de baixo: eu sou de cima“, então, na explicação, ele continuou: “. Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo” Cristo era “de cima” e “não é deste mundo”, porque Deus era seu Pai, e ele se manifestou em sabedoria e características que eram celestiais, isto é, vindas de Deus.

Se Jesus realmente quer dizer que  em sua encarnação Ele literalmente desceu “de cima” porque preexistia no céu, então, para que tratemos desta  antítese de forma consistente, que em sendo esses judeus incrédulos, “de baixo“, deve significar que eles literalmente preexistiam no inferno (localizado “abaixo”, dentro da terra), o que é um absurdo.

Nas palavras, “Vós sois de baixo, eu sou de cima; vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo”, Jesus está querendo dizer o seguinte aos judeus: “Vocês pertencem ao que está embaixo, eu pertenço ao que está acima”. Assim, Jesus está afirmando que seus adversários estão abaixo em um sentido espiritual, ou seja, seus valores refletem  que eles são do mundo e, portanto, sem Deus na sua vida. Em contraste, Jesus é espiritualmente “de cima” no sentido de que seus valores têm origem em Deus e, portanto, vem do céu.  Jesus não ser deste mundo, significa que Ele não pertence a este mundo, porque Ele não vive de acordo com os seus padrões. Assim, Jesus não se refere aqui que Ele literalmente veio do céu no momento de uma encarnação, mas que, eticamente, ele é das coisas do céu.

É o mesmo com os onze apóstolos. Jesus orou ao Pai sobre eles, dizendo: “Como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo 17,18; cf 1,6). Se Deus enviar Jesus ao mundo significa que  Jesus literalmente vivia antes disso no céu, confirmando assim a clássica encarnação, então, para ser consistente, o envio por  Jesus de Seus discípulos ao mundo, deve implicar a  preexistência e encarnação dos mesmos. Ora,  se Jesus “não é deste mundo“, e como um ser preexistia no céu, então, para que sejamos justos e coerentes, devemos entender que na oração pelos discípulos, “Eles não são do mundo, assim como eu não sou do mundo” (Jo 17,16), que eles também são seres pré-existentes que encarnaram. Esse não é o sentido em que as palavras de Cristo devem ser entendidas. Ele “não era deste mundo” no mesmo sentido que João exortou os crentes a ser “não deste mundo” (1 João 2:15). O seguidor de Cristo deve olhar para além das coisas da terra – deste mundo. Ele deve olhar  para a glória ainda a ser revelada, e tornar-se mentalmente e moralmente alterado pela influência que é “de cima”.

Um homem que “ama o mundo” é “de baixo”, ou da “terra”, mas alguém que tem “o amor do Pai” habitando nele é “de cima” (1 João 2:15). Jesus disse a Nicodemos que uma pessoa deve “nascer do alto” (João 3:3) se ele quer herdar o reino de Deus. Esse tal é gerado pela palavra de Deus (I Pedro 1:23 e 1 João 3:9-10), por uma “sabedoria que vem do alto” (Tiago 3:15-18). O personagem que ele vai desenvolver é  moldado pela Palavra que habita nele (João 17:17), para que ele possa reivindicar ser “de cima”, embora ele nunca foi, literalmente, do céu.

Outra característica única do Evangelho de João é quando freqüentemente contrasta metáforas e antíteses. Por exemplo, João (geralmente citando Jesus) contrasta a luz com as trevas (Jo 1,5-9; 3,19-21; 8,12; 9,4-5; 12,35-36, 46), a vida com a morte (Jo 1,4; 5,21-26,54; 8,51-52; 11,25), a liberdade com a escravidão (Jo 8,32-38), que tem a ver com a cegueira (Jo 9,39-41). O mesmo é  verdade das expressões que envolvem Jesus e os judeus incrédulos neste contexto, como “os debaixo e os de cima”. Os termos não estão falando de origens literais,  mas como indicador de uma realidade espiritual.

Esta interpretação metafórica de Jo 8:23 serve como uma explicação de Jo 3:31 e Jo 6:25-65. Ou seja, todas as três passagens significam que o ministério de Jesus é espiritualmente, não literalmente, “de cima”, ou seja, do céu, tem origem em Deus. Portanto, assim se conclui a  linguagem de subida/descida em João 3:31, para interpretar a obra salvadora de Deus em Jesus. Certamente a Bíblia não fala do modelo da descida de uma Segunda Pessoa da Trindade ao mundo, o que só serviu para confundir a cristandade eliminando o conceito real, que é a presença interior de Deus em Cristo através do Espírito Santo. Isso tudo pode ser chamado de “Deus em Cristo reconciliando consigo o mundo”, como atesta o apóstolo Paulo em II Cor 5:19.

“Ele é antes de mim”

João Batista declara em João 1:15, 30: “… Este é o de quem eu disse: o que vem depois de mim tem, contudo, a primazia, porquanto já existia antes de mimÉ este a favor de quem eu disse: após mim vem um varão que tem a primazia, porque já existia antes de mim”.

O significado pode mudar drasticamente se atentarmos para a redação dos mesmos textos, mas em outras versões.

Verso 15: “João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu”.

Verso 30: “Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem que é antes de mim, porque foi primeiro do que eu”.

O evangelista Marcos dentro do mesmo contexto coloca o versículo da seguinte forma: “E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das sandálias”, Marcos 1:7.

Note o leitor que João simplesmente estava querendo dizer que, “o que vem depois de mim é [superior] antes de mim”. O significado é óbvio; Jesus tem um maior grau de autoridade no reino de Deus do que João Batista.

Traduções tendenciosas e trinitarianas registram João Batista “afirmando” que Jesus já existia antes dele. Uma vez que João Batista nasceu seis meses antes de Jesus (Lc 1:24-31), esta cláusula independente exigiria a preexistência do Messias. No entanto, a AV e a RSV traduzem esta segunda cláusula diferente: “ele foi antes de mim”. Algumas traduções em português, como a ARC de 1995, traduzem como, “Ele foi primeiro do que eu“. Outras, como visto nas primeiras citações, associam as duas frases, “O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu”.

Este tipo de tradução não é sobre a preexistência, mas representa uma reiteração da cláusula primeira, isto é, que Jesus supera João Batista. Por isso João disse em outro verso,”Importa que Ele cresça e que eu diminua”, João 3:30.

Deus seja louvado

“Pai, glorifica-me com aquela glória”

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Agora, Pai, glorifica-me junto de ti mesmo, com aquela glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse”, João 17:5

Na superfície, pode-se facilmente levar as palavras de Jesus como se referindo a algo que ele já teve e não tem mais. Os trinitarianos imaginam que Jesus está falando de um “tempo” quando ele estava com o Pai na eternidade, quando então ele compartilhou essa glória com Ele.

Este é um dos versos preferidos dos patrocinadores da doutrina do Messias preexistente. Alguém já imaginou um Messias preexistente? Algo poderia soar mais confuso do que isto? Pode haver uma doutrina mais confusa do que aquela que afirma ter existido no céu alguém que a Bíblia garante que seria “semente da mulher”, descendente de Abraão e Davi?

Para muitos, se um Jesus preexistente tinha desistido de sua glória quando ele desceu do céu para ser encarnado, e ele está pedindo para que esta glória seja devolvida a ele, seria de se esperar que ele dissesse: “Agora, Pai, glorifica-me junto de ti mesmo , com a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse”. Compare isso com 2 Timóteo 1:9, que diz: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos”.

Não poderíamos fazer uma oração semelhante como a que Jesus fez em João capítulo 17 e dizer: “Eu te agradeço Pai pela graça que tive contigo antes do mundo existir?” Será que esta oração nos faz preexistentes porque tivemos graça aos olhos de Deus antes do mundo ser criado?

E quanto a Tito 1: 2? “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos”. Será que poderíamos orar como Jesus aqui também, dizendo: “Pai, glorifica-me com a vida eterna que tive contigo antes do mundo existir?” Esse tipo de oração nos faz preexistir na eternidade passada? Evidente que não. Como recebemos a PROMESSA dada a nós – desde antes dos tempos eternos – Cristo também recebeu a Glória PROMETIDA desde antes da fundação do mundo por suportar a cruz. Logo, em João 17:5, é evidente que Jesus estava simplesmente pedindo a glória que lhe foi prometida pelo Pai antes que o mundo existisse, e não que ele estava lá como um Filho preexistente.

Em João 17:22 Jesus diz: “E eu lhes dei a glória que tu me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um”. E aqui, podemos fazer o mesmo, orando, “glorifica-me Jesus com a glória que tive contigo antes de ir para a cruz?” Ora, nós não vivíamos no tempo em que Jesus sofreu e morreu na cruz. Além disso, temos aqui uma promessa para ser ainda recebida no futuro, após a ressurreição e estabelecimento do reino de Deus.

Obviamente, Jesus, em João 17:5, está clamando pela promessa de Deus, que Deus prometeu em seu plano antes que o mundo existisse, que foi glorificá-lo com sua própria glória, para que o Filho do homem se tornasse o Filho Eterno de Deus na nova criação feita na perfeita imagem de Deus em justiça e imortalidade. Este é o real significado de João 17: 5, que não prova de forma alguma que Jesus preexistiu com Deus ao seu lado como uma pessoa divina na eternidade passada.

A palavra “eu tinha”, em “a Glória que tinha contigo antes do mundo existir”, é a palavra grega “eichon” , que significa manter, guardar como posse como uma condição. Em outras palavras, Jesus está pedindo ao Pai para glorificá-lo com a glória que Deus prometeu e estava reservando para ele. Como nós não temos realmente, ou possuímos a vida eterna em nós ainda, mas este previlégio é colocado diante de nós como uma PROMESSA certa sendo reservada no céu esperando por nós, assim foi com Cristo na expectativa da sua oração pela glória que lhe era devida.

O léxico de Thayer, do grego para inglês, define essa palavra “eichon” de forma semelhante, que a grosso modo significa, “ter guardado”, no sentido de algo que está retido. Assim, João 17;5 poderia ser traduzido com muita facilidade da seguinte forma: “Glorifica-me com aquela glória que eu tenho guardada e reservada contigo antes do mundo existir”.

Quando Jesus foi glorificado

Jesus não foi glorificado até que Deus o ressuscitou dentre os mortos: “E isto disse ele do Espírito, que aqueles que acreditavam Nele estavam para receber, porque o Espírito Santo ainda não fora dado, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado”, João 7:39.

Porventura não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?”, Lucas 24:26.

“… Os seus discípulos, porém, não entenderam isto no princípio; mas, quando Jesus foi glorificado, então se lembraram de que isto estava escrito dele, e que isto lhe fizeram”, João 12:16.

Portanto, quando chegou o momento, ele disse: “agora, Pai, glorifica-me …”, João 17:5.

A verdade da questão torna-se muito clara. Jesus estava ciente de que tinha sido amado por Deus antes que o mundo existisse. Pedro ensinou que o Senhor foi “conhecido antes da fundação do mundo, mas foi manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” (1 Pedro 1:20). João descreve-o como “o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Ap 13:8).

Jesus foi “morto desde a fundação do mundo?” Normalmente, sim, nos sacrifícios fornecidos, mas literalmente, não. Embora ele mesmo ainda não, no momento da oração, tivesse sido glorificado, as Escrituras enfatizam que Jesus obteve essa glória, prometida desde a fundação do mundo, ao completar na cruz a sua vitória sobre o pecado. O escritor aos Hebreus confirma: “Vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem” (Hebreus 2:9)

Em Atos 3:13, referindo-se a ressurreição e ascensão de Jesus ao céu, Pedro diz: “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a quem vós traístes e negastes perante Pilatos, quando este havia decidido soltá-lo“.

Na sua primeira epístola, Pedro diz novamente que Deus “o ressuscitou [Jesus] dentre os mortos e lhe deu glória...” (1 Pedro 1:21).

O próprio Jesus, falando com dois discípulos no caminho de Emaús enfatiza que a sua glorificação era posterior aos seus sofrimentos dizendo: “Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?” (Lucas 24:26; ver também João 7:39, João 12:16).

As passagens anteriores demonstram que Jesus não pode ter literalmente usufruído de glória antes do seu nascimento, porque somente podia recebê-la depois de ter terminado o seu ministério com êxito. Tanto a existência de Jesus antes que o mundo existisse, como a sua glorificação, somente podem ter existido de forma antecipada na mente e propósito de Deus. Este propósito foi aos poucos revelado aos profetas. Falando do que ia acontecer, o Senhor disse. “O Filho do Homem vai, como está escrito a seu respeito…” (Mateus 26:24).

Os versículos que são citados para apoiar a ideia da suposta “preexistência” de Jesus Cristo não indicam que ele realmente viveu no céu antes de nascer. Simplesmente enfatizam em linguagem figurada o fato que a aparição do Senhor Jesus na terra não foi uma coisa do acaso, mas um acontecimento que foi determinado e autorizado pelo seu Pai celestial desde antes da criação do mundo. Portanto, quando Jesus pediu ao pai para dar-lhe a glória que ele tinha com ele antes que o mundo começou, Ele não estava falando de uma época em que Ele viveu em um corpo de carne divina celestial ao lado do Pai, como segunda pessoa da trindade. A glória de que Jesus falou era a glória que Ele, como um homem, teria no cumprimento do plano de Deus preordenado para redenção da humanidade. Jesus olhou para a frente, e orou pedindo ao Pai para dar a Ele, para que Ele pudesse compartilhar com todos os crentes, “A glória que Tu me deste, eu lhes dei” (João 17:22).

Os seguidores de Cristo possuem esta glória agora? Não! Eles estão apenas “na esperança” dessa glória, “pelo qual também obtemos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus”, Rom 5:2.

Como Cristo pode, então, afirmar ter dado a eles essa glória? Apenas no sentido de que ele prometeu, conhecendo de antemão que a quem é dada em promessa cumprirá as condições para recebê-lo, finalmente, na realidade. Assim, um seguidor que aceita a vinda de Cristo poderia falar como o Senhor, quando ele mesmo orou ao Pai:

Glorifica-me com a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse“.

Deus conhece o propósito concluído, e sabendo que Ele quer trazê-lo para a consumação, é capaz de “chamar as coisas que não são como se elas fossem” (Rm 4:17). Observe também, que a Escritura fala de outros preexistentes, bem como Cristo. Considere o seguinte:

Dos crentes, Paulo escreveu: “Os que dantes conheceu“, (Rom. 8:29).

Ele já dantes preparou os {observe o verbo no passado} para a glória“, (Rm 9:23 cf. 2 Tm. 1:9).

Ele também nos elegeu nele antes da fundação do mundo“, (Ef 1:4).

De Jeremias, o Senhor disse: “Antes que eu te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei, e te dei por profeta para as nações“, (Jeremias 1:5).

Mas quem iria disputar a preexistência de Jeremias e de outros crentes? Assim, a linguagem de João 17:5 deve ser entendida de uma maneira consistente com todo o contexto sobre ter sido Jesus a semente da mulher e não um ser preexistente. Certamente o contexto de João não deve ser usado para ensinar a preexistência de Jesus, pois se assim for, haverá sérios conflitos com muitas outras referências que falam dele como o filho de Davi que nasceu há mais de 20 séculos.

Por outro lado, Paulo, em Gálatas 1:15 afirma que quando Cristo voltar, aos seus seguidores será concedida uma glória “semelhante” a que foi concedida ao Filho. Eles vão ser “conformes à imagem do Filho de Deus, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29).

Sua responsabilidade

É muito difícil livrar nossas mentes de preconceitos, mas é necessário se quisermos encontrar a verdade. No entanto, para milhões de cristãos não há problema algum em crer que um anjo, ou um ser preexistente, deve tornar-se um bebê, e ser obrigado a aprender de novo todas aquelas coisas que uma vez ele sabia.

Não, a verdade é simples e clara. O Espírito de Deus causou o nascimento de seu filho, e o fortaleceu em sua peregrinação diária para a vitória sobre o pecado. Ao fazê-lo, foi revelado o meio de vitória para cada um de nós: ajuda e força (Filipenses 4:13) divina. Um exame cuidadoso da Escritura vai mostrar que a doutrina da preexistência é tanto ilógica como falsa.

“Antes que Abraão existisse, Eu sou”

Abraao

A chamada Ortodoxia Cristã defende ter sido Jesus divino e Deus quando esteve neste mundo; afirmam que o grego ego eimi, “eu sou”, é uma técnica de linguagem intencional implementado por Jesus para invocar o nome divino e identificar-se como (um) Deus. Quando Jesus disse: “Eu sou”, neste contexto [João 8:58], deve ser entendido para ser uma citação de referência a Deus para Si mesmo como EU SOU em Êxodo 3:14.

Nesse versículo, segundo os trinitarianos e segundo a maioria de nossas versões modernas, quando Moisés perguntou o nome de Deus, Deus teria respondido: “EU SOU O QUE EU SOU” e, em seguida, disse, É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês“.

A Septuaginta foi uma tradução do Velho Testamento em hebraico para o idioma grego. Como ela verteu a passagem de Êxodo 3:14? A expressão hebraica “Ehye asher ehye” de Êxodo 3:14 foi traduzida em grego na septuaginta por: ἐγώ εἰμί ὁ ὤν (Ego Eimi Ho On). Em português essa expressão seria algo próximo de “Eu sou (ego eimi) aquele que é (Ho On)”.

O texto todo de Êxodo 3:14, segundo a Septuaginta fica dessa forma: “E disse Deus a Moisés: Egō eimi ho ōn (Eu sou aquele que é). Assim dirás aos filhos de Israel: Ho ōn apestalken me pros hymas (Aquele que é me enviou a vós).”

O que Deus disse para Moisés, que Ele era o “Eu Sou” (ego eimi) ou Ele disse que era “Aquele que é” (Ho on)?

Deus não estava dizendo “Eu sou Eu sou.” A frase “Eu sou o que sou”, literalmente, significa “Eu sou aquele que é“. Deus estava dizendo a Moisés que o nome que ele deveria dar aos filhos de Israel é “Aquele que é“, e não “eu sou o que sou“. A frase “eu sou”, simplesmente é inserida no texto para identificação de quem é nomeado. Ou seja, é como se um enviado perguntasse a autoridade que o envia, o seu nome para identificação posterior. Seria uma construção textual semelhante a essa: “como eu poderia identificá-lo ao me encontrar com as pessoas que devem receber vossa mensagem?” O indagado simplesmente responde: “Eu sou Carlos, diga-lhes que Carlos o enviou“. O mensageiro jamais poderia chegar aos endereçados e dizer que “EU SOU Carlos me enviou a vós“, mas apenas dizer que Carlos o enviou. O verso tem a expressão “Eu sou”, mas ela não identifica o nome de Deus. A expressão só é usada para Deus complementar dizendo que era HO ON. Deus diz que é “Ho on”, não que ele é “Ego eimi”.

E mais uma vez: No grego da Septuaginta está escrito egō eimi ho ōn (“Eu sou Aquele que é/o Ser”) e não egō eimi ho egō eimi (“Eu sou o que Eu Sou”). Deus pede a Moisés para identificá-lo como ho on (“Aquele que é/o Ser”). Nem sequer volta a aparecer ego eimi nesta cláusula.

Deus, em Ex 3.14 não disse ser um certo “Ego Eimi” (eu sou), ele disse ser “Aquele que é” (ho On), a ideia foi dizer “Eu sou AQUELE QUE É”, tanto é que quando Moisés perguntou o que diria quando fosse indagado sobre quem o enviou, Deus manda Moisés responder “HO ON (AQUELE QUE É) me enviou a vós”, Ele não disse “Ego Eimi” me enviou a vós”.

Portanto, Jesus não reivindicou este título. Observem o texto: “Disse lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão fosse eu sou”. Se Jesus quisesse fazer alusão ao “ὁ ὤν” (ho On) de Ex. 3.14, teria usado a idêntica construção, e não precisaria tomar por base a existência de Abraão.

“O problema é que há traduções que verteram HO ON como “AQUELE QUE É” na primeira ocorrência e o mesmo HO ON como “Eu Sou” na ocorrência seguinte. A expressão HO ON não está em Jo. 8.58. Todos os livros e comentários que você já leu, digo com simplicidade e sem medo de errar, estão equivocados quando tentam comparar João 8.58 com Ex. 3.14 dizendo que Jesus é o EU SOU do Antigo Testamento, porque simplesmente as construções são diferentes. Se considerarmos o hebraico, que é a língua em que originalmente foi escrito o livro de Êxodo ai é que se descarta mesmo, porque a construção verbal do hebraico, daquela passagem, é causativa e em João é, seguramente, grego no presente do indicativo ativo. Se for os dois em grego, um é particípio e o outro presente do indicativo ativo.

Vamos, para ficar didaticamente mais visível, dividir o verso de Êxodo em duas partes: A + B.

A) “καὶ (e) εἶπεν (disse) ὁ θεὸς (Deus) πρὸς (a) μωυσῆν (Moisés) ἐγώ (eu) εἰμι (sou) ὁ ὤν (AQUELE QUE É).

Pergunto o seguinte: Deus em “A” disse ser “ego eimi” ou Deus disse ser “HO ON”?

B) καὶ (e/também) εἶπεν (disse:) οὕτως (assim) ἐρεῖς (dirás) τοῖς (aos) υἱοῖς (filhos [de]) ισραηλ (Israel) ὁ ὢν(AQUELE QUE É [aqui, desuniformemente as Bíblias vertem para EU SOU, donde decorre a associação com Jo.8.58]) ἀπέσταλκέν με (enviou-me) πρὸς (a) ὑμᾶς (vós).

A pergunta que faço agora é a seguinte: Moisés identificou Deus, em “B”, como “ego eimi” ou como “HO ON”?

Onde está a expressão “ego eimi” na parte “B” para os tradutores verterem “EU SOU” ao invés de “AQUELE QUE É”? Percebamos que não existe um “ego eimi” nessa parte e que estranhamente, praticamente todos os tradutores colocam nessa parte “B” a tradução como “Eu sou me enviou a vós”? E a Bíblia de Jerusalém ainda faz mais e coloca em maiúsculo “EU SOU me enviou a vós?” Quando o procedimento uniforme seria “AQUELE QUE É me enviou a vós”.

Ora, se “ego eimi” significa “eu sou” e “HO ON” significa “eu sou” exatamente com a mesma semântica, então, a parte “A” deveria ser traduzida por “Disse Deus a Moisés: Eu sou Eu sou” (ego eimi ho on[?]), e ai teríamos, ao menos, uniformemente na segunda com “Eu sou me enviou a vós”. Mas se HO ON é traduzida por “AQUELE QUE É” na parte “A” não há razão para não ser, também, na parte “B” pela mesma expressão, a não ser que haja a intenção de criar a associação que os trinitários hoje defendem” (1).

Portanto, esse teoria trinitariana de que Jesus disse “Eu Sou” para identificar-se como Deus não tem fundamento nem mesmo nas Escrituras. Provavelmente Jesus não falava o grego, e muito menos estava falando em grego para os fariseus.

A afirmação de Jesus, “eu sou”, foi construída em grego. A declaração do Senhor em Êxodo 3:14 foi em hebraico. As duas línguas não são apenas muito diferentes umas das outras, mas as duas declarações também não são as mesmas. “Eu sou” não é o mesmo que o terrivelmente mal traduzido “eu sou o que eu sou”.

Vamos analisar os versículos anteriores a este: “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu o, e alegrou se“, v. 56. Os judeus estavam distorcendo as palavras de Jesus: “Disseram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão?” Jesus não disse isso. Foi o contrário: Abraão viu Jesus e não Jesus viu Abraão. Então, vem o verso chave: : “Disse lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão fosse eu sou”, João 8:58. Se traduzimos a última parte do versículo como “Eu sou antes de Abraão” podemos ter um significado completamente oposto ao da nossa envelhecida ortodoxia cristã. Nesse caso, o texto não diz que Jesus era preexistente, e muito menos diz que ele usou uma técnica de linguagem intencional para se igualar ao Deus de Israel.

São dois sentidos aqui. O primeiro, ao Jesus dizer que “antes de Abraão existir Eu sou”, pode significar que ele foi conhecido antes da fundação do mundo como o cordeiro que foi morto nos propósitos de Deus como também foi profetizado em Gênesis 3:15 e nas palavras de 1 Pedro 1:20. Pedro diz: “Ele foi conhecido antes da fundação do mundo, mas manifestado nesses últimos tempos por amor de vós”. Ele foi predestinado a vir desde antes da criação do universo. Era o Messias anunciado e predestinado a vir desde sempre, portanto antes de Abraão. O outro significado vai ser exposto mais adiante.

Um título ou um verbo?

Os trinitarianos dizem que os Judeus entenderam perfeitamente que Jesus estava afirmando ser Deus quando ele usou as palavras “ego eimí”, porque eles imediatamente pegaram pedras para matá-lo. Mas os trinitarianos não consideram que os Judeus já haviam decidido matar o Senhor Jesus antes desse impasse em João 8:58. Leia João 7:1, 25.

Além disso, a expressão em grego “ego eimí” em João 8:58 utiliza o pronome pessoal acompanhado de um verbo, que é o verbo “ser”. “Eu sou” NÃO É UM TÍTULO. De forma semelhante, o “eu sou” (“ego eimí”) em Êxodo 3:14 não constitui um título. O título usado por Deus nesse texto é “Ho On” (“Aquele que é”). O “sou” de “eu sou” é apenas um verbo e não um nome divino.

Alguém escreveu sobre isso com muita sabedoria: “Se em João 8:58 Jesus tivesse dito: “Eu sou o EU SOU”, ou “Eu sou o Ser”, ou ainda “Eu Sou Aquele que é ”, seria diferente. Mas ele fez um uso simples e comum na língua grega, do verbo ser. É muito arriscado divinizar uma expressão grega, mesmo quando sai da boca do Mestre.

Por que transformar uma expressão de uso corriqueiro num carregado título teológico? Todo esse conjunto de teorias recaem, como sempre, na esfera da incerteza, porque não seguem a regra bíblica de ‘não ir além do que está escrito’. E tais teorias gozam de grande credibilidade entre muitos cristãos, e estimulam declarações pouco analisadas e ponderadas, transformando algo que é duvidoso em algo “inquestionável”. Para muitas pessoas que formam os rebanhos das igrejas, é muito comum o pensamento: “Se os doutores, teólogos e filósofos acreditam assim, quem sou eu para discordar?” No entanto, uma simples leitura atenta é suficiente para desmontar uma teoria humana, ou, pelo menos, para mostrar que a coisa não é tão sólida quanto alguns pensam ” (2).

Para que você entenda melhor, basta dizer que a frase “Eu sou” deveria estar posicionada no início da sentença, não no final.

O professor de Estudos Religiosos, Jason David BeDuhn, da Universidade do Norte do Arizona, em seu livro “Precisão na tradução e Preconceito do Novo Testamento” compara algumas traduções inglesas principais e as relaciona da seguinte forma no capítulo dez de seu livro onde ele lida exclusivamente com João 8:58:

KJV “before Abraham was, I am”

“antes que Abraão existisse, eu sou”

NASB “before Abraham was born, I am”

“antes de Abraão nascer, eu sou”

NAB “before Abraham came to be, I am”

“antes de Abraão vir a ser, eu sou”

NW “before Abraham came into existence, I have been”

“antes que Abraão existisse, eu tenho sido”

O Dr Duhn conclui: “O que está acontecendo aqui? Você pode pensar que há uma cláusula grega particularmente difícil ou complicada por trás dessa bagunça em inglês. Mas esse não é o caso. O grego lê “prin Abraham genesthai ego eimi”. Ele pode ser traduzido diretamente para o inglês, fazendo o que os tradutores sempre fazem com o grego, ou seja, reorganizando a palavra na ordem normal do inglês, e ajustando as coisas com o tempo verbal complementar para a expressão apropriada… a KJV tem influenciado os seus tradutores colocando o verbo impropriamente no final da sentença”.

Assim, o “eu sou” de João 8:58 deveria estar no início da sentença, deixando o versículo como segue: “Eu sou antes de Abraão”.

Eu sou, Eu sou e Eu sou

Se “ἐγώ εἰμι” era o título sagrado de Deus o Todo Poderoso, porque somente no versículo 58 os judeus tentam apedrejar Jesus? Porque não tentaram apedrejá-lo depois dele dizer no versículo 24 do mesmo capítulo: “se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados”? Não seria uma ótima oportunidade para os Judeus acusarem Jesus de blasfêmia por aplicar a si mesmo o título de Deus? Isso mostra que ἐγώ εἰμι não foi o fator determinante para provocar essas reações ambíguas. O problema foi com Abraão.

Veja com mais detalhes dentro do mesmo contexto: “Vocês são daqui de baixo; eu sou lá de cima. Vocês são deste mundo; eu não sou deste mundo. Eu disse que vocês morrerão em seus pecados. Se vocês não crerem que EU SOU, de fato morrerão em seus pecados. Diziam-lhe então, quem és tú”, João 8:23,24.

Os judeus não acharam que Jesus estava dizendo que era o Deus de Israel. Ao contrário de Êxodo 3:14, a expressão eu sou não está sendo usada com função de nome identificador, tanto é que não causou reação nos judeus. É tão evidente que esse não era o caso, que quando Jesus disse eu sou, os seus opositores perguntaram em seguida, quem és tu?

Se falar eu sou significasse uma auto identificação não haveria necessidade dessa pergunta, e os judeus já teriam corrido para pegar pedras e atirar em Jesus. E não podemos ignorar também o verso 28, que enfatiza de forma clara a reclamação trinitariana de Jesus como EU SOU. Veja o texto: “Então Jesus disse: Quando vocês levantarem o Filho do homem saberão que EU SOU, e que nada faço de mim mesmo, mas falo exatamente o que o Pai me ensinou”. A construção textual é incrivelmente provocadora, mas os trinitarianos a abandonaram. Por qual motivo? Talvez porque não houve ameaça de apedrejamento. Não se vê nenhuma reação dos judeus.

Na sensível mente deles, não houve rejeição ao que Jesus falou. Pelo contrário, o versículo seguinte relata que muitos JUDEUS creram nele: “Tendo dito essas coisas, muitos creram nele”. Depois disso o relato prossegue de forma contínua. Mas, em determinado momento algo muda em João 8:57,58: “Disseram-lhe, então, os judeus: Não tens ainda cinquenta anos e viste Abraão? Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade, vos digo: antes que Abraão existisse, EU SOU. Então apanharam pedras para atirar nele”.

Os Judeus constantemente corrompiam as palavras de Jesus. Isto é, eles as entendiam de forma equivocada (João 3:3,4). E se comportaram da mesma maneira no contexto de João 8:58. Possívelmente eles entenderam que ele estava alegando superioridade a Abraão. Se considerarmos que Jesus usou as palavras “Eu sou antes de Abraão”, ou “Eu tenho sido antes de Abraão”, ele pode ter causado um rebuliço total na mente dos judeus levando-os a acreditar que ele declarou ser maior do que Abraão.

Lembre-se que Jesus se declarou mais importante – maior – que o templo em Mateus 12:6, “aqui está quem é maior que o templo”. E também maior do que Salomão: “A rainha do Sul se levantará, no Juízo, com esta geração e a condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão”.

“Jesus estava sendo ameaçado de apedrejamento pelo que ele teria dito sobre Abraão. Dizer que “Sou antes” (entendido pelos judeus como “mais importante”, “superior”, “maior”, acréscimos meus) de Abraão seria considerado injúria, visto que os Judeus encaravam tal ancestral como o “Pai” da nação (Ver João 8:39). Além disso, o significado de blasfêmia na bíblia vai muito além do que apenas dizer algo contra Deus. Era considerado blasfêmia algo que ofendesse algum maioral da nação (Ver Êxodo 22:28)” (3).

No contexto de uma perseguição anterior a Jesus ficou claro “para os judeus” que Ele era um blasfemo e se faz igual a Deus, isto é, fazendo-se igual a Deus porque se declarava Filho de Deus (João 5:18), o que, obviamente, não o fazia igual a Deus apenas por chamar Deus de seu Pai. Seria, portanto, razoável concluir que para a maioria dos ouvintes, as palavras de Jesus em “Eu sou antes de Abraão” não eram algo totalmente inesperado, mas confirmavam sua suspeita e até a convicção de que Jesus era mesmo um blasfemo. Para eles era uma teologia sacrílega; e é claro que Jesus conhecia suas expectativas e medos sinistros quando pronunciou intencionalmente aquelas palavras absolutamente provocativas. Isto é, foi uma “blasfêmia” intencional de sua parte, a fim de revelar sua identidade, não sua divindade.

Observe que quando Jesus disse “antes que Abraão existisse, eu sou” ele estava respondendo aos judeus duas perguntas que foram feitas em dois versos anteriores. A primeira está no versículo 53: “Porventura és tu maior do que nosso pai Abraão…?” A outra está no verso 57: “Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?”

Podemos, como já disse, ter dois significados nas palavras de Jesus em João 8:58 quando ele alega, “Eu sou antes de Abraão“: O primeiro é que ele era o Messias que havia de vir e estava nos planos de Deus antes mesmo de existir de fato: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste ANTES da fundação do mundo“, João 17:24.

Observem, mais uma vez, que o “Cordeiro de Deus” tinha sido “crucificado antes da fundação do mundo” (Ap 13:8, NVI), sendo que, evidentemente, o que ocorreu de forma não literal, pois Jesus foi crucificado em 33 dC sob o governo de Pôncio Pilatos, mas no plano de Deus desde antes da fundação do mundo. Desta forma também Jesus “era” antes de Abraão. Assim Abraão podia olhar para frente, para a vinda do Messias e seu Reino. O Messias e seu reino, portanto, “preexistiam” no sentido de que eles foram “vistos” por Abraão através dos olhos da fé. Antes que Abraão nascesse Jesus tinha sido “conhecido” (cf. 1 Ped. 1:20). Jesus aqui faz a afirmação estupenda do seu significado absoluto no propósito [plano] de Deus. E o segundo significado é que ele pode ter dito também que é superior a Abraão. Portanto, não foi o EU SOU de Êxodo 3:14 que provocou a ira dos judeus. Jesus não está alegando que existiu – literalmente – antes de Abraão e nem que é Deus, em João 8:58.

Será que Jesus confundiu tudo depois, dizendo por um lado que somente o Pai é o “único Deus verdadeiro” (17:3, 5:44) e que ele mesmo não era Deus, mas o Filho de Deus (João 10: 36), e por outro lado, que ele, Jesus, é também um ser incriado? Será que ele quis definir seu status dentro das categorias reconhecíveis do Antigo Testamento (João 10:36, Sl 82:6; 2:7), apenas para representar um enigma insolúvel dizendo que ele estava vivo antes do nascimento de Abraão? Se Jesus realmente quisesse falar de sua preexistência e divindade usando a mesma construção textual ele poderia fazê-lo em outros contextos e ter declarado “EU SOU antes de Adão”, ou, “Eu sou antes da humanidade”, não ANTES de Abraão. Não seria mais sensato ler João 8:58 à luz da declaração de Jesus em João 10: 32,33 e 36 e no resto da Escritura?

É um fato bem conhecido que as conversas entre Jesus e os judeus foram muitas vezes de forma contraditória. Em João 8:57 Jesus não tinha, de fato, dito como os judeus pareciam pensar, que ele tinha visto Abraão, mas que Abraão exultou por ver o dia do Messias (v. 56). O patriarca estava esperando surgir na ressurreição no último dia (João 11:24; Mat 8:11) e tomar parte no reino messiânico. Jesus estava afirmando superioridade a Abraão, mas não no sentido que os judeus entenderam.

Uma leitura honesta de “eu sou” em João 8:58 simplifica o entendimento, revelando positivamente que o significado não é “eu sou Deus.” E, também não é, como tantas vezes alegado, o nome divino de Êxodo 3:14, onde o Senhor declarou, “Eu sou o ser” ou “Eu sou o aquele que é” (EGO EIMI HO ON, que é traduzido para o Inglês como “Eu sou o Ser”). Jesus aqui em João não defendeu nenhum título.

Além disso, na ocasião da sarça no monte Sinai é registrado que um anjo falava com Moisés do arbusto que ardia em chamas, não o próprio Senhor.

Êxodo 3: 2, afirma: “E apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo do meio duma sarça; e olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia”. Estêvão, nos registros do NT, em Atos 7:30, declara: “E, completados quarenta anos, apareceu-lhe o anjo do Senhor no deserto do monte Sinai, numa chama de fogo no meio de uma sarça”. Ele confirma a mesma coisa quando diz aos judeus em Atos 7:53, “vocês, que receberam a Lei por intermédio de anjos, mas não lhe obedeceram”.

Isso torna evidente que era um anjo do Senhor que falava com Moisés como representante de Deus, falando e agindo em nome de Deus na ocasião do Sinai, e não o próprio Deus. Deus estava falando e revelando Sua glória a Moisés, mas o fez através de um anjo.

Apesar de todos os argumentos apresentados aqui contra a alegação trinitariana, ainda assim, para eles, esse teria sido um dos momentos mais importantes do Novo Testamento, pois em João 8:58, Jesus teria decidido revelar sua verdadeira divindade, e alegou ser o “EU SOU” de Êxodo 3:14, a Segunda Pessoa da Trindade, o Deus Filho eterno do Velho Testamento, O ser preexistente. Mas, que, inexplicavelmente, depois de fazer essa estupenda revelação para o povo de Deus, os judeus guardiões da Palavra, ele teve que fugir porque estes queriam matá-lo!

É fato caro leitor que isso tudo aconteceu logo depois que Jesus supostamente deu sua última declaração sobre sua verdadeira divindade! Mas, espere! Os judeus não creram? No Velho Testamento não fala do Jesus preexistente, Deus conosco, Pai eterno e títulos semelhantes? Os Judeus não creram, e até hoje ainda não creem na trindade por qual motivo? É evidente que Jesus nunca deu tal declaração (o EU SOU de Êxodo 3:14).

O que dizer de João 1:1-3?

Nesse momento da leitura é muito comum aos teólogos da nossa ortodoxia convencional se agarrar no prólogo do Quarto Evangelho para invalidar os argumentos desse pequeno artigo. No entanto caro amigo leitor, o prólogo de João está fazendo referência a algo tão simples, tão contrário a interpretação popular, que vai surpreender até os céticos e ateístas. João não está falando do princípio de Gênesis em “no princípio era o verbo…”.

Talvez a maioria argumente que o contexto realmente fala sobre Jesus no princípio da criação do mundo, pois os dois versículos imediatamente posteriores dizem que “Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez“, João:1:2,3.

A referência é a Nova Criação, não a velha. Veja meu artigo “TUDO foi criado por Ele“. E não se engane com Hebreus 1:1,2 quando diz que Jesus fez o mundo. Não é uma referência a Gênesis 1:

Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo“, Hebreus:1:2. Isto é, o mundo vindouro, a era por vir, como confirmado pelo mesmo escritor apenas alguns versículos depois: “Porque não foi aos anjos que Deus sujeitou o mundo vindouro, sobre o qual estamos falando“, Hebreus:2:5.

Portanto, quando a Escritura revela que Jesus é o princípio de toda a criação significa que ele é o primeiro da nova criação de Deus: “Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus“, Apocalipse:3:14.

De fato, temos aqui mais uma referência apontando para a nova criação inaugurada pela ressurreição de Cristo. Por esse motivo as Escrituras fazem referência aos cristãos como novas criaturas. Assim, Jesus é o primogênito e as primícias de uma nova criação – chamado de um “novo e vivo caminho” em Hebreus 10:20. Tudo foi feito por ele e por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez (João 1:3).

Eu vou apresentar aqui parte do meu artigo sobre João 1:1-3 que ainda está em construção.

Há duas possibilidades interpretativas para o prólogo do Quarto Evangelho. A primeira é que o verbo seja o próprio Deus (“o verbo era Deus”). A segunda possibilidade é que o verbo represente o Filho de Deus, Cristo, conectado com o termo Palavra. E é com essa segunda posição que vou trabalhar aqui apesar de não abandonar a hipótese de que o verbo seja o Pai.

É necessário observar que a narrativa do Evangelho supostamente cita uma referência da criação de Gênesis em sua abertura e no mesmo fôlego salta para o ministério de João Batista. Além disso, dizer que o verbo (Jesus) se fez carne (Jo 1:14) num tempo de João Batista já adulto nos convida a sérios questionamentos. Não seria mais coerente dizer que o verbo se fez carne em Belém quando Jesus nasceu?

O registro diz que o verbo se fez carne três versículos após dizer que os seus o rejeitaram: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam“, João:1:11. Agora veja o verso 14: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai“. Se é uma sequência, então temos um problema enorme aqui.

Portanto, é preciso prestar atenção no verbo usado, “era”, em “no princípio era a palavra“, que pode estar fazendo referência a fatos ocorridos no início de algo, e ocorridos em terra, não no espaço, no princípio da criação narrado em Gênesis 1.

Eu explico; o significado de “no princípio” em João 1:1 está falando do princípio do Evangelho de Jesus (o novo princípio), o princípio do seu ministério, na Palavra que começou a ser anunciada pelas terras de Israel quando do aparecimento do Messias. Por isso o escritor começa a sua narrativa em tom poético: “No princípio era a Palavra“, a palavra da pregação; a promessa que estava para ser revelada; o anúncio; a chegada dele sendo proclamada – são expressões que podem traduzir o termo grego logos, usado aqui para “palavra”.

João 1: 1-3 não é uma declaração sobre a criação original do mundo. O escritor do Quarto Evangelho pode ter adotado a linguagem do primeiro “começo” para falar de um novo “começo” nas coisas que aconteceram na vida de Jesus – o princípio da nova criação. Desse modo, o resultado da atividade da Palavra não era que o mundo material existisse, mas que as pessoas recebessem a vida; e esta vida foi a luz que as trevas vistas na história do Evangelho não conseguiram superar. A leitura de João 1: 1-5 é uma sinopse preliminar da história do Evangelho.

E preste atenção também em João Batista envolvido no texto. Ele é “a voz do que clama no deserto“. Ele veio preparar o caminho do Senhor anunciando a palavra “no princípio” quando Deus voltou a falar ao seu povo depois de quatro séculos de silêncio.

O Evangelho de Marcos também usa – confirmando João – o mesmo termo no mesmo tempo em “o princípio”, que é uma referência ao princípio das boas novas. Veja: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus“, Marcos:1:1, e ele passa imediatamente para João Batista, como no quarto Evangelho.

Observe que o escritor do Quarto Evangelho sai do relato sobre o verbo e dá um salto tremendo para o ministério de João Batista. Em Marcos 1:1-5 o salto aparece de forma bem explícita. Porém, o mais interessante é que Marcos esclareceu João. João diz, “no princípio era Palavra“. Marcos diz: “princípio das boas novas“, ou “princípio do Evangelho“. Isso deveria estabelecer e acabar com qualquer disputa sobre o significado de João 1: 1. Claramente, o texto significa o início da mensagem do evangelho de Jesus Cristo, começando com a mensagem de arrependimento pregada pela primeira vez por João Batista, um precursor do Messias.

Lucas usa “no princípio” como referência para a mensagem do Evangelho, mas também incluí relatos do nascimento e infância do Senhor Jesus.

“Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelentíssimo Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio“, Lucas 1:1-3.

É o mesmo princípio citado em João 1:1.

O escritor de 1 João:1:1 usa “o principo” de forma semelhante: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida“.

Mas, se o verbo citado em João 1:1 era Jesus, então, indiscutivelmente, você poderia argumentar que ele seria mesmo Deus, pois a parte final do versículo 1 de João 1, diz que “o verbo era Deus”. As coisas não são tão simples assim. Observe a sequência e perceba como e fácil interpretar o texto sem necessidade de colocar Jesus na eternidade passada.

No princípio era a palavra (a palavra sobre a chegada do Messias sendo anunciada por todas as partes), e a Palavra estava com Deus (Jesus como Mediador – O termo grego permite essa interpretação), e a Palavra era Deus“. De fato, a Palavra era Deus, pois quem vê o filho, vê o Pai, ou como disse Jesus: “Eu e Pai somos um”. Nada mais justo do que dizer aqui – ainda mais nessa tonalidade incrivelmente poética – que o “verbo era Deus”.

Se conectamos o sentido na confissão de Tomé, “meu Senhor e meu Deus”, e em outras passagens que confessam que “quem vê o filho, vê o Pai” e “Eu e o Pai somos um”podemos achar o significado pretendido pelo autor do Quarto Evangelho. Estes são sentidos similares de “o verbo era Deus”.

Vamos fazer uma pequena análise no episódio de Tomé. Ao dizer “meu Senhor e meu Deus” (João 20:28) , o INCRÉDULO Tomé passou a crer que Deus estava em Jesus. Ou seja, que ele era realmente o Messias enviado; que Jesus era o Filho de Deus; que ver Jesus era o mesmo que ver o Pai e não que Jesus era (um) Deus.

Veja o que Jesus respondeu ao próprio Tomé alguns capítulos antes: “Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais e como podemos saber o caminho? Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.

Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis e o tendes visto.

Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta. Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” João 14:5-9.

A confissão de Tomé reforça a última parte do verso 1 em João 1 esclarecendo porque o “verbo era Deus”. Jesus respondeu de forma perfeita: “Quem me vê a mim vê o Pai“.

Jesus nãoestava com Deus

É necessário esclarecer que Jesus não estava presente no ato da criação. Fosse assim, Deus não teria dito que criou tudo SOZINHO: “Assim diz o SENHOR, que te redime, o mesmo que te formou desde o ventre materno: Eu sou o SENHOR, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra”, Isaias 44:24.

A tradução da Almeida Corrigida e Fiel enfatiza mais ainda: “Assim diz o SENHOR, teu redentor, e que te formou desde o ventre: Eu sou o SENHOR que faço tudo, que sozinho estendo os céus, e espraio a terra por mim mesmo”.

É importante lembrar aqui que foi o próprio Cristo quem descreveu a criação original como sendo trabalho de Deus, não dele: “Porque naqueles dias haverá uma aflição tal, qual nunca houve desde o princípio da criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá”, Marcos 13:19. Compare com Hebreus 4:4, onde Deus, não Jesus, descansou da obra da criação, “Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia”.

Jesus não existia antes de nascer em Belém. Observe que a genealogia dele vista por Mateus parte de Abraão e chega até Maria: “Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mateus 1:1). Depois de passar por toda a descendência do Senhor o escritor alcança a mãe deste: “E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo” (Mateus 1:16). Aqui Jesus passa a existir.

No Evangelho de Lucas ele traça a genealogia de Jesus de volta a Adão. “E o mesmo Jesus começava a ser de quase trinta anos, sendo (como se cuidava) filho de José, e José de Heli” (Lucas 3:23). Depois de tratar de todos os descendentes deste, alcança o próprio Deus. E note que na ascendência de Adão ele é listado como “filho de Deus”, e entre ele e Deus ninguém é citado. Veja pela tradução da King James Atualizada quando apresenta o relato da genealogia aproximando-se do Criador: “… filho de Enos, filho de Sete, filho de Adão, filho de Deus“, Lucas 3:38.

Jesus está ausente do texto próximo a Deus e depois de Deus porque ele não existia. O único citado como filho direto de Deus – bem próximo da criação – é Adão.

Jesus não viveu antes – ele passou a existir somente depois que nasceu de uma mulher (Gálatas 4:4). Ou seja, quem possui árvore genealógica não pode ter existido antes dos seus ancestrais. E de fato, Jesus foi prometido como a semente da mulher: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”, Gên 3:15. Isso mostrou que o Messias seria um descendente da mulher e, por definição, deve ser aquele que vem a existir após a existência do seu ancestral. Além disso, a inimizade não existia entre o Messias e a semente da serpente, mas era para ser uma hostilidade futura.

Isaías atesta claramente que a origem do Messias teve início no ventre de sua mãe:

“E agora diz o Senhor, que me formou desde o ventre para ser seu servo…”, (Isaías 49:5).

DESDE O VENTRE !!!

Foi uma boa oportunidade para o escritor revelar que Jesus teria sido formado DESDE A ETERNIDADE. Não o fez por que?

Todos tem conhecimento de que o Salmo 22 é uma profecia sobre o Messias como provado por suas citações nos Evangelhos. O versículo dez mostra enfaticamente que o Senhor Jesus tinha Deus como Pai somente após seu nascimento. Sendo assim, ele jamais poderia ter sido Filho Unigênito antes do tempo,

“Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe”.

Quando ocorreu o nascimento do Senhor Jesus? Aconteceu em 4 dC sob o governo do Rei Herodes,

Mat 2:1 “E, TENDO nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém“.

O Filho de Deus veio à existência quando foi gerado no útero de sua mãe. Observe novamente a ênfase no relato do milagre da concepção em Lucas 1:35 “E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus”.

A filiação divina – ou seja, filiação com o Pai – de Jesus é explicitamente estabelecida por seu nascimento milagroso. Por isso o nascimento virginal de Cristo está em contradição irreconciliável com a cristologia da encarnação do Filho preexistente de Deus.

Na verdade, o anjo anunciou no nascimento que Jesus “é o Filho de Deus”, não por causa de uma preexistência ontológica, mas por causa da sua concepção sobrenatural. Este milagre apenas sinalizou que ele iria ter uma relação especial com Deus. Assim, com efeito, a concepção de Jesus sendo realizado pelo Espírito de Deus é a base para identificá-lo como Filho de Deus, O Filho do Altíssimo, por causa da salvação que ele realizaria na história, não por causa de sua natureza intrínseca.

Logicamente, o nascimento virginal não indica que Jesus é Deus simplesmente por causa de sua natureza milagrosa. O Milagre só aponta para uma origem sobrenatural. Deus fez um milagre causando a concepção virginal, mas isso não indica que o milagre em si é Deus. Fica evidente então, que o momento da concepção de Jesus foi a causa dele tornar-se Filho de Deus. Portanto, Jesus não era o Filho de Deus em qualquer momento antes de seu nascimento simplesmente porque Jesus veio à existência como o Filho somente após ter sido concebido no ventre de Maria. Assim, ele não poderia ter existência como o Filho de Deus antes disso, como Gabriel afirma:

Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo” (Lucas 1:32)

Não havia nenhuma pessoa distinta chamada “Filho” – “Filho” só surge no NT. A terminologia “Filho” e “Pai” surgiu apenas depois da manifestação de Jesus para descrever a relação entre a existência de Deus além da humanidade, e como um ser humano foi concebido pelo poder do Espírito Santo – parece que não havia nenhuma pessoa distinta do Pai no Antigo Testamento (Hb 6:3).

Quero lhe dizer que não sou ignorante sobre as tantas passagens que parecem reivindicar uma pré-existência de Jesus no céu antes de sua chegada a terra. Mas te garanto, nenhuma delas dá suporte à teoria se forem devidamente interpretadas. E para aqueles que acreditam que estou sozinho nessa empreitada, sugiro que prestem atenção nas palavras do famoso expositor Metodista Adam Clark:

A doutrina da filiação eterna de Cristo, é em minha opinião, ante-escritural e altamente perigosa. Eu não tenho sido capaz de encontrar qualquer declaração expressa disto nas Escrituras”. (Comentário de Lucas 1: 35).

A cristologia ortodoxa baseia sua visão nas decisões dos concílios do que propriamente na palavra de Deus. A Igreja Evangélica, que se diz “contrária” ao posicionamento da igreja Católica Romana, também tem baseado seus ensinamentos sobre a divindade e humanidade de Jesus segundo o que declara estes concílios.

A velha tradição determinou a qualquer custo a igualdade de Jesus com Deus em essência, isso pelo fato dessa tradição ortodoxa extrema não permitir a Jesus uma personalidade humana PLENA, o que patenteou aquilo que mais ouvimos nos últimos 15 séculos: Jesus foi “homem” sem ser de fato “um homem” – Divino e Humano ao mesmo tempo. Essa doutrina foi desenvolvida justamente para preservar o conceito de que ele tinha preexistido como Segundo Membro da Trindade.

Outro problema enorme, e que muitos não consideram, é que essa conclusão de que Jesus era um ser pré-existente afeta de maneira drástica toda a teologia que gira em torno do sacrifício substitutivo causando também um conflito direto com outras reivindicações bíblicas que Jesus era um HOMEM REAL.

Se iniciarmos uma leitura honesta de todos os textos, vamos descobrir formas bastantes diferentes comparados à interpretação convencional, o que pode causar espanto em muitos daqueles que começam a partir de uma posição de “preconcebida preexistência”. O importante em considerar aqui é que, se Jesus é um homem de verdade, então Ele começou sua vida em Seu nascimento, assim como todo o resto de nós.

Observe a contribuição valiosa de Moisés para nosso contexto em discussão. Moisés, legislador e líder de Israel, que tipificava a vinda de outro Legislador (Jesus Cristo) disse à nação judaica:

O Senhor teu Deus suscitará a ti um profeta do meio de ti, de TEUS IRMÃOS, semelhante a mim, a ele ouvireis” (Deuteronômio 18:5).

No Novo Testamento Pedro citou essas mesmas palavras e aplicou-as a Jesus Cristo (Atos 3:22, 7:37), e Paulo ensinou: “Por isso convinha que ele fosse feito semelhante a seus irmãos…” (Hebreus 2:17).

Podem as palavras de Moisés acima se aplicarem a um anjo ou a um ser preexistente? Poderia tal pessoa ser verdadeiramente descrita como “levantou do meio de ti”, “de teus irmãos, como Moisés?”

Não há nessas referências uma pitada sequer de algo que nos dirija o pensamento para a crença de que Jesus foi formado de um estoque angelical, ou mesmo que era um ser preexistente. Mas, em vez disso aprendemos que ele foi alguém que teve origem entre os humanos. Deus disse a Moisés claramente, “… suscitarei um profeta do meio de seus irmãos!”

O Filho de Deus não existia antes desse tempo. Hebreus 1:1 afirma: “HAVENDO Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho”.

João declara que Jesus veio em carne (I Jo 4:2; II Jo 7). Ou seja, sua origem é deste mundo. O significado é estarrecedor se optarmos pela tradução da BLH em João 4:2, que diz: “É assim que vocês poderão saber se, de fato, o espírito é de Deus: quem afirma que Jesus Cristo veio como um ser humano tem o Espírito que vem de Deus”. Jesus veio a esse mundo com a natureza dos nascidos em Adão porque ele é nascido de mulher! É o que Atos 17:26 esclarece quando afirma que Deus “… de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra…”. Jesus foi um homem e não uma criatura de outro mundo, um ser imortal ou uma divindade cósmica, como atesta Pedro em Atos 2:22, : “Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus“.

Jesus era o filho de Davi, e a Davi foi dito: “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho…”. (2 Sam. 7:12-14).

Observe que o texto afirma categoricamente que Jesus veio da descendência de Davi, negando enfaticamente ter sido ele um ser preexistente. Veja na expressão “o qual sairá das tuas entranhas” que a real origem do Messias é deste mundo.

A profecia relaciona-se com Cristo, como o comentário do Novo Testamento sobre ele deixa claro (ver Lucas 1:32-33, Hebreus 1:5), e com isso claramente estabelecido, observe bem o tempo futuro usado em relação a ele. Deus diz: “Eu serei seu pai,” ele “SERÁ meu filho”. Se Jesus já existia, não deveria Deus ter dito: “Eu sou seu pai”, “ele é meu filho?”

Lembre-se que o Anjo disse a Maria: “Ele deve ser (não é!) Grande, e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi, e reinará eternamente sobre a casa de Jacó para sempre, e seu reino não terá fim” (Lucas 1:32-33).

Estas palavras do anjo Gabriel afirmam que Jesus “será chamado Filho do Altíssimo”, e ele reinará no trono de “Davi, seu pai.” Podem estas expressões se aplicar a alguém preexistente?

Considere também a pregação dos Apóstolos. Será que eles proclamaram a crença em um ser preexistente que havia assumido a forma humana? Eles não fizeram. Ouça a pregação de Pedro:

Davi… sendo um profeta, e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento a ele, que do fruto de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Cristo, para se sentar no seu trono” (Atos 2:30).

A quem Davi acredita que sentaria no seu trono, um anjo ou um ser que já existia? Não, ele acreditava que aquele que reinaria seria “fruto de seus lombos”, isto é, um descendente. O menino que nasceu de Maria era descendente de Davi, não um ser preexistente assumindo a forma humana.

Como visto, a alegação trinitariana de João 1:1-3 não se sustenta se a interpretarmos lançando mão de todo o contexto das Sagradas Escrituras.

Deus seja louvado

(1) FILHO, Valdomiro – Comentário sobre João 8:58

(2) Mentes Bereanas – Resposta ao Leitor – Eu Sou

(3) Autor anônimo – A EXPRESSÃO “EU SOU” PROVA A DIVINDADE DE JESUS?

ELE é desde os tempos eternos

E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. Miquéias 5:2

De acordo com o Anchor Bible Commentary, Miquéias “… descreve o lugar a partir do qual algo sai, o lugar do nascer do sol, sair em uma viagem, uma campanha militar, o que tem aqui neste contexto relacionado ao Messias a conotação de” (saídas) ou (gerações), e referem-se a antiga linhagem de Davi, preservada nas velhas genealogias (Rute 4)”.

Este significado sugere que Miquéias está se referindo às garantias do pacto através da linhagem de Davi, que duraria para sempre, interpretado agora como antigas previsões de um Messias davídico para o tempo do fim  – Lucas 1:32; 2 Sm 7 onde diz, “Serei seu pai, e ele será meu filho“.

Miquéias pode estar fazendo alusão ao Messias passando pelas raízes de Davi, lembrando assim da pequena cidade de Belém-Efrata, de onde vem o clã da antiga dinastia davídica, enfatizando a expressão que aponta para o Senhor Jesus, (cuja origem é de tempos antigos, desde os tempos antigos). Assim, segundo a NTLH, a palavra “origens” em Miquéias 5:2 refere-se a sua (do Messias) descida da antiga família de Davi e não que ele era preexistente desde os tempos eternos,

O SENHOR Deus diz: – Belém-Efrata, você é uma das menores cidades de Judá, mas do seu meio farei sair aquele que será o rei de Israel. Ele será descendente de uma família que começou em tempos antigos, num passado muito distante”.

A NVI reforça ainda mais quando atesta,

 “Mas tu, Belém-Efrata, embora pequena entre os clãs de Judá, de ti virá para mim aquele que será o governante sobre Israel. Suas origens estão no passado distante, em tempos antigos”.

Na sequência apresentada pelas duas versões podemos captar  o verdadeiro sentido aqui em “cuja origem é de longo tempo”. Assim, Miquéias 5:2 refere-se a linha de descendência de Jesus, que, para os leitores judeus de Mateus, capítulo um, remonta a Abraão – O Messias é descrito como o filho de Davi, a descendência de Abraão, mas também como a semente da mulher (Gn 3:15). Portanto, as “saídas antigas” ou” origem num passado distante” do Messias como “a semente da mulher” se refere à sua descendência linear através de Abraão e Davi. Além disso, deve-se aqui incluir as profecias sobre o Messias como vindo através da tribo de Judá (Gênesis 49:10), e ele ser um israelita (Números 24:17-19).

É evidente que quando Miquéias 5: 2 diz do Messias: “Ó Belém …, de ti sairá [o Messias]”, isso só pode significar que, na sua existência única e terrena, ele se originou em Belém !

Nada aqui indica uma pessoa pré-existente.

Deus manifestado na carne

I Timóteo 3: 16

E sem controvérsia grande é o mistério da piedade: Deus foi manifestado na carne, justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido na glória”. I Timóteo 3: 16

Outra tradução  apresenta  o versículo  da seguinte forma,

Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória

Um teólogo cristão, trinitariano confesso, declara que “1 Timóteo 3:16 fala de uma manifestação pessoal de Deus – Deus na segunda pessoa foi manifestado” (O  Impecável Cristo) [1]

Quando as controvérsias cristológicas estavam ocorrendo no século IV, não encontramos a maioria fazendo  referência ao “Deus  manifestado na carne” usando este tipo de versão identificando Jesus como Deus.  A palavra “Deus” começou a aparecer em muitas traduções anos mais tarde. A palavra aparece  pela primeira vez em manuscritos após o dogma trinitário ter sido  desenvolvido e canonizado, o que nos revela que foi  uma alteração óbvia feita depois. Os manuscritos mais antigos e melhores não tem a palavra “Deus” ( theos ) em 1 Timóteo 3:16.

Por outro lado,  se a palavra Deus estava mesmo no original, por que a maioria dos sábios  gregos, que tiveram acesso a numerosos manuscritos, não foram capazes de manter a versão que incluiu o nome de Deus [Theos],  apesar de alguns desejarem que  a palavra  permanecesse no texto? Obviamente eles não aceitaram como autênticos os manuscritos que fazem esta distinção.

Vejamos algumas das traduções mais importantes dessa passagem e observe como ficou a parte principal do texto:

” Ele que foi manifestado na carne “(ASV)

” Ele foi manifestado na carne “(RSV)

” O que foi manifestado na carne “(Douey-Rheims)

” Quem foi manifestado na carne “(NAB)”

As versões em português diferem entre si. A  Revista e atualizada da Imprensa Bíblica diz,

E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória”.

A Tradução na Linguagem de hoje atesta,

“Sem nenhuma dúvida, é grandiosa a verdade revelada da nossa religião. Essa verdade é a seguinte: Ele se tornou um ser humano, foi aprovado pelo Espírito de Deus, foi visto pelos anjos, foi anunciado entre as nações, foi aceito com fé por muitos no mundo inteiro e foi levado para a glória“.

A João Ferreira de Almeida Atualizada diz,

E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória!”

Entre estas encontramos também algumas versões católicas que omitem o nome de Deus no texto

A Ave Maria

Sim, é tão sublime – unanimemente o proclamamos – o mistério da bondade divina: manifestado na carne, justificado no Espírito, visto pelos anjos, anunciado aos povos, acreditado no mundo, exaltado na glória!”

CNBB

De fato, como é grande o mistério da piedade: ele se manifestou na carne, foi justificado no espírito, apareceu aos anjos, foi anunciado aos pagãos, foi acreditado no mundo e exaltado na glória”.

Há uma versão católica chamada a Bíblia Sagrada, versão está mais próxima da  Bíblia de Jerusalém, tão apreciada pelos católicos romanos, que  também apresenta o texto sem a palavra Deus,

De facto, como é grande o mistério da piedade: ele manifestou-se na carne, foi justificado no Espírito, apareceu aos anjos, foi anunciado aos pagãos, foi acreditado no mundo e exaltado na glória!”

A Standard Version, tradução inglesa, também omite o nome de Deus:

Great indeed, we confess, is the mystery of godliness: He was manifested in the flesh, vindicated by the Spirit, seen by angels, proclaimed among the nations, believed on in the world, taken up in glory

Algumas traduções insistem com a frase “Deus foi manifestado na carne“, mas o Códice Alexandrino, um dos primeiros e a maioria dos manuscritos completos da Bíblia,  considerados  por estudiosos como os melhores e mais fiéis aos originais, se lê:  “que foi manifestado na carne“.

Aqui é 1 Timóteo 3:16, no grego:

καὶ ὁμολογουμένως μέγα ἐστὶν τὸ τῆς εὐσεβείας μυστήριον• ὃς ἐφανερώθη ἐν σαρκί, ἐδικαιώθη ἐν πνεύματι, ὤφθη ἀγγέλοις, ἐκηρύχθη ἐν ἔθνεσιν, ἐπιστεύθη ἐν κόσμῳ, ἀνελήμφθη ἐν δόξη.

Esta é a tradução direta do grego de 1 Timóteo 3:16: ” E, confessadamente, grande é o mistério da piedade: Quem foi manifestado em carne …. “

A palavra grega Hos  é a palavra “quem”, “que” “ou aquele que”, que é incorretamente traduzida como “Deus”.

Ho, Hos & Theos

Existem três possibilidades neste texto: ho (“que”), hos (“quem”), e  theos . (“Deus / divindade”). Os dois primeiros são atestados em manuscritos antigos. Assim, deve-se procurar outro lugar para descobrir qual deles foi que  Paulo originalmente usou.

A leitura, “Deus manifestado na carne” (theos ephanerothe en sarki) é encontrada na versão do Rei James, que é baseado no Textus Receptus ou Texto Recebido,  trabalho feito por Desiderius Erasmus e publicado em 1516. A posição padrão nos modernos estudos bíblicos é que o Receptus é um texto inferior, uma vez que é baseado em manuscritos mais tardios de tradição bizantina (século 12 e 13), como o Prof Raymond Brown afirma, “… no final do século 19 finalmente foi vencida  a batalha para substituir o Texto Receptus inferior  por novas edições do NT grego com base em grandes  códices e outras evidências disponíveis desde o tempo de Erasmus… “[2]

 O erudito em grego Michael A Barber resume a situação do TR nos  seguintes termos:

Os tradutores da versão do Rei James da 1611 usaram  o Textus Receptus, Texto Recebido, por sua tradução. Naquela época este texto grego foi tão altamente respeitado que muitos consideraram ser inspirado por Deus. Seu texto é lidoDeus foi manifestado na carne.” No entanto, o valor do Receptus já foi desacreditado por estudiosos e substituído pelos três principais manuscritos (entre outros), todos eles bem mais antigos, e, portanto, mais perto dos escritos originais  inspirados: O Vaticano, manuscrito n º 1209 do século 4, o manuscrito do Sinai também do século 4 (descoberto por Tischendorf em um mosteiro ao pé do Monte Sinai, em 1844) e o manuscrito Alexandrino do século 5 “. [3]

O texto em questão foi provado ter sofrido alteração. Em ambos, o Codex Sinaiticus e o Vaticanus a leitura original era “hos ephanerothe en sarki” com o  relativo pronome “hos” em vez de o substantivo “theos”, como encontrado no Textus Receptus. Qualquer criança pode perceber  a diferença entre um pronome e um substantivo, o que nos deixa a suspeita de que o texto sofreu uma alteração. A questão é:  como  a mudança ocorreu?

Na verdade, temos uma ideia muito provável de como esta corrupção aconteceu. Alguns  escribas utilizavam rotineiramente uma forma contraída da palavra grega para “Deus” chamado de “nomina sacra”, que foi usada em uma data muito cedo na história cristã para nomes sagrados. A palavra grega para “Deus” é theos escrito no alfabeto grego como Θεός. As abreviaturas dos copistas correspondentemente tomou a forma  Θς  ou   θΣ. Agora, a palavra grega para “quem”,  é a palavra hos que está escrito em grego como Oς , ou OΣ. Agora, observe a semelhança entre essas duas palavras: θΣ – OΣ – são praticamente idênticas.  Mas também seria muito fácil para um escriba exagerado supor que ele estava fazendo um favor a Deus e executar uma falsificação aqui mudando o manuscrito. Com um golpe de sua pena mudaria completamente o significado do verso fazendo com que o leitor, ou o copista seguinte pudesse ler  θΣ  ao invés   de OΣ.

Fig 1Observe o quadro ao lado para que você tenha uma ideia das abreviaturas; e repetindo: Hos, [quem, ou, que] na aparência do grego, é OΣ (omicron e sigma), enquanto a abreviatura de theos, que é chamado de nomina sacra, ou seja, nome sagrado, aparece como θΣ (teta e sigma) com uma linha horizontal na parte superior do sigma. Em grego para alterar um sigma a uma omicron basta adicionar uma linha horizontal no meio do O que irá produzir um θ, theta. Assim, o escriba, ou o tradutor da Escritura, ao ver a abreviação de Deus, teve como certa a tradução de  θΣ para Θεός.

Outras evidências  nos manuscritos,

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Evidencia Interna

O contexto imediato e o pensamento paulino

Paulo, aqui no contexto em debate, está falando sobre o mistério que se manifestou. Em 2 Timóteo diz ele, “Deus que nos salvou e nos chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e  a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos (2 Tm 1: 8-9). Isso é quase idêntico ao que ele diz em Romanos: “Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto“(Rm 16:25). E em Efésios, ele diz, “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra“(Ef 1:9-10), e “… demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo“(3:9) e “Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” (5:32). Ainda Paulo: “E por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra com confiança, para fazer notório o mistério do evangelho“(6:19), que  ele também chama de “o mistério de Cristo” (Colossenses 4:3). Quanto ao mistério é o próprio Cristo que se revelou a nós por Deus. Ele nos diz em Colossenses,” a glória deste mistério , que é Cristo em vós , a esperança da glória “(Cl 1:27; veja 1 Coríntios 1:30; 2:7). O mistério de Deus é  Cristo Jesus, seu Filho, que  é a manifestação carnal de seu mistério. Portanto, o versículo faz justiça quando é traduzido  que “grande é o mistério da piedade que se manifestou em carne, foi justificado em espírito …”

Além disso, também não houve sentença final  no texto grego. Se a palavra “que” é a junção adequada, a passagem realmente diz em grego, “grande é o mistério da piedade que se manifestou em carne, foi justificado em espírito …” No entanto, se a palavra “Deus” é usada temos uma pausa abrupta no fluxo da frase, “grande é o mistério da piedade. Deus se manifestou em carne, foi justificado em espírito …” A tradução que usa a palavra “quem” ou “o que” é muito mais suave e natural. Não só isso, é o estilo típico paulino para compor e executar as sentenças.

Deus foi justificado no Espírito?

Outro problema associado com o “Deus” Criador do mundo, o Espírito Eterno, Santo, Imutável e Glorioso, é que se continuamos insistindo na leitura posicionando este Deus dentro do texto, então devemos acreditar que  Deus foi justificado em Espírito. Não faz sentido dizer que Deus foi justificado em Espírito, Deus foi visto por anjos, Deus foi pregado entre os gentios, Deus foi crido no mundo, e Deus foi recebido na glória, tudo isso  quase três mil anos depois da criação de  Deus. Seria preciso criar uma espetacular manobra teológica para dobrar o bom senso de qualquer pessoa neste mundo se tentamos explicar que Deus foi recebido na glória se ele mesmo viveu/vive em glória todo o tempo, ou que foi justificado em Espírito e foi finalmente crido no mundo se centenas de anos antes do advento de Cristo um incontável números de pessoas já haviam acreditado em Deus.

Em Colossenses 1:27, lemos: “a glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória“. O pronome relativo usado aqui é o pronome relativo masculino hos que remete para o substantivo neutro “mistério”. Isto é quase idêntico ao que encontramos em 1 Timóteo 3:16 que termina com a frase “recebido na glória.” Daí podemos ver que hos é o pronome relativo provável para ser usado em 1 Timóteo 3:16.

Então, quando nós revisamos toda a evidência, a solução é fácil de ver. A evidência histórica e textual indica que a palavra “Deus”  não estava no texto original. Todas as objeções com base em razões  gramáticas e teológicas são nada mais que falatórios vãos. Cristo é o mistério em questão, e por esse motivo a passagem deve ser lida da seguinte forma: “grande é o mistério da piedade [quem/o que/aquele que] foi manifestado na carne, justificado no espírito … “. Obviamente depois da leitura profunda e meditativa do texto percebemos o total sentido com o resto das Escrituras, usando uma ou outra palavra, seja “quem” ou “qual” ou “que” ou “aquele que” em vez da palavra “Deus”, que é um erro óbvio ou falsificação. Não importa o tamanho dos protestos ao contrário destes novos apologistas que querem a todo custo que a palavra Deus esteja no texto.

Portanto, obviamente escribas  do século quarto e quinto, os quais estavam tendo uma crise na Igreja a respeito da natureza de Cristo e sua relação com Deus,  negligenciaram a parte principal do texto. Quem os  induziu? Só  uma religião no mundo estaria interessada nestas mudanças extraordinárias.

O que dizem os eruditos do Grego?

Há duas maneiras de abordar esta anomalia na Crítica Textual. Alguns estudiosos afirmam que a mudança foi acidental sem quaisquer motivos teológicos por trás dela, enquanto outro grupo de estudiosos argumentam que ela foi feita intencionalmente com  implicações  óbvias teológicas. James White em seu livro The King James Controvérsia favorece a posição anterior. O principal crítico textual Bruce Metzger em seu texto do Novo Testamento menciona brevemente o erro em 1 Timóteo 3:16 como um item no âmbito da discussão de “alterações não intencionais”, sob a rubrica de “erros decorrentes da VISÃO defeituosa”. Em seu trabalho de 1968 ele favorece a posição de mudança acidental. [4] Em um trabalho posterior (1975), no entanto, ele admite mudança intencional como uma possibilidade  do que aconteceu com o texto. Ele explica isso da seguinte forma:

“… todas as versões antigas pressupõem ὅς, e nenhum escritor patrístico antes do  século quarto testemunha  θεός como  leitura. A leitura θεός surgiu  acidentalmente  através da leitura errada da ος como ΘΣ, ou deliberadamente…  ou  para proporcionar uma maior precisão dogmática. “[5 ]

O  professor Bart Ehrman favorece uma outra opção:

A mudança deve ter sido feita muito cedo, pelo menos durante o terceiro século dado o seu atestado difundido a partir do século IV. Ela pode, portanto, ser melhor explicada como uma anti-corrupção adocionista que enfatiza a divindade de Cristo “. [6]

Outro erudito, Misquoting,  afirma: “Este seria um exemplo de uma…  alteração textual feita para contrariar a alegação de que Jesus era plenamente humano…”. [7]

Andreas Kostenberger e Michael Kruger  concordam que houve uma interrupção do  escriba em 1 Timóteo 3:16 e que a leitura original não é “Deus manifestado na carne”. [8]

A posição de outros doutores do grego,  Keith Elliot e Ian Moire,  dá suporte  a uma tese defendida por muitos,  embora pouco difundida,

Outra razão para a mudança deliberada de ‘quem’ para ‘Deus’ é que a igreja pode ter desejado aqui  enfatizar sua crença na divindade de Jesus …” Deus “foi a leitura preferida de uma geração posterior e a mudança nos manuscritos não era mera leitura errada acidental”. [9]

Depois de elaborar os  relatórios sobre os resultados da crítica textual  sobre o texto, os  estudiosos da Bíblia, e teólogos,  Sir Anthony Buzzard e Charles F. Caça escrevem:

Alguns manuscritos inseriram  a palavra” Deus “para as palavras” quem. “A alteração é admitida por tradutores modernos como sendo  injustificada. “Deus” é o mais improvável de ter feito parte dos manuscritos mais antigos. Tais interpolações, como a adição espúria trinitária famosa  em 1 João 5:7, que é omitida pelas traduções modernas, sugere que alguém estava tentando forçar uma nova idéia sobre o texto original“. [10]

Repetindo o mesmo ponto  no seu mais recente trabalho, ele escreve:

“… Versões  modernas tem corrigido a palavra” Deus “para” Quem “. A alteração do  original “Quem “(em grego ὅς) foi muito furtivamente realizado quando alguns escribas mudaram o (omicron) O em um θ (teta), dando a luz θς (teta sigma). A leitura THS foi uma forma abreviada  da palavra grega theos, Deus. Tudo o que tinha que ser feito era desenhar uma linha  por todo o meio do “O” para produzir a letra grega teta (θ). Em seguida, o texto foi feito ao som trinitáriano para apoiar a Encarnação: “… Deus foi manifestado na carne”. “Quem” (Oς) foi mudado para “Deus “(θς)” [11]

Outro erudito,  Michael Barber,  escreve:

Os manuscritos muito antigos tinham abreviações de palavras comumente utilizadas, tais como THE.OS “,” Deus “, e KU’RI. OS,” Senhor “.  A abreviatura de THE.OS foi ΘΣ (com uma linha horizontal no topo ). No entanto, se não fosse por essa linha horizontal seria  idêntico ao OC, palavra que significa “quem”.  No manuscrito Alexandrino  se lê originalmente OC, que mais tarde  acrescentou essa pequena linha  mudando a leitura para ΘΣ, THE.OS, Deus. Foi só um  exame ao microscópio que revelou isso!”

A leitura de “Deus” é tão irrelevante em termos de fornecer qualquer significado material para a cristologia do Novo Testamento que Raymond Brown ao discutir as duvidosas referências bíblicas que usam o título de “Deus” como uma referência a Jesus, relega a Timóteo 1 3:16  apenas uma nota de rodapé e observações:

Vou discutir apenas aqueles que eu acho que tem algum mérito, ignorando, por exemplo, 1 Timóteo 3:16, onde algumas testemunhas têm uma referência a Deus sendo manifestado na carne, em vez de uma referência pronominal a Jesus. O certificado para tal leitura não é forte o suficiente para justificar uma consideração séria“. [13]

Essa   adulteração  no texto de Timóteo 3:16 pode ser explicada  por causa da  tendência de alguns tradutores  a favor  da divindade do Senhor Jesus numa época em que a doutrina corria a todo vapor depois do anuncio de que Ele e o Pai sempre foram um em essência. Na verdade, muitos desses tradutores trabalhavam  cercados pelo ambiente austero da Igreja mãe.

Infelizmente, não só aqui em 1 Timóteo 3:16, como também em inúmeros outros textos, algumas  Bíblias modernas perpetuaram o erro, tao somente acreditando que oferecem vantagens para ajudar os leitores com passagens obscurecidas pela linguagem mais antiga. No entanto,  o que acabaram fazendo  foi  que destruíram  todo o contexto relacionado.

Devemos estar vigilantes para que as verdades importantes não sejam perdidas na pressa de fazer a Bíblia “legível” para os ouvidos modernos.

Em conclusão, se 1 Timóteo 3:16 mudou deliberadamente ou acidentalmente, não importa. O que todos os especialistas da Bíblia KJV ,excluindo  os grupos  fundamentalistas,  concordam,  é que a leitura original de 1 Timóteo 3:16 não tem “Deus” no mesmo. A palavra theos foi  uma inserção posterior, isto é, uma corrupção do texto.

References:

[1] Best, W. E. (1971). The Impeccable Christ. U.S. : Lightning Source Inc. p. 23

[2] Brown, R. E. (1997). An Introduction to the New Testament. U.S. : Yale University Press. p. 52

[3] Barber, M. A. (2006). Should Christians Abandon the Doctrine of the Trinity?. Boca Raton, Florida: Universal Publishers. p. 47

[4] Metzger, B. M. (1968). The Text of the New Testament : Its Transmission, Corruption, and Restoration, 2nd ed. Oxford: The Clarendon Press. p. 187

[5] Metzger, B. M. (2002). A Textual Commentary on the Greek New Testament, 4th ed. London: United Bible Societies. pp. 573-574

[6] Ehrman, B. D. (1993). The Orthodox Corruption of Scripture: The Effect of Early Christological Controversies on the Text of the New Testament. Madison Avenue, New York: Oxford University Press.

[7] Ehrman, B. D. (2005). Misquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why. New York: HarperSanFrancisco. pp. 157-158

[8] Kostenberger, A. J., & Kruger M. J.(2010). The Heresy of Orthodoxy: How Contemporary Culture’s Fascination with Diversity Has Reshaped Our Understanding of Early Christianity. Wheaton, Illinois: Crossway. p. 222

[9] Elliot, K., & Moir, I. (1995). Manuscripts and the Text of the New Testament: An Introduction for English Readers. London: T&T Clark Ltd. p. 73

[10] Buzzard, A., & Hunting, C. F. (1998). The Doctrine of the Trinity: Christianity’s Self-Inflicted Wound. Lanham, Maryland: International Scholars Publications. p. 303

[11] Buzzard, A. (2007). Jesus Was Not a Trinitarian: A Call to Return to the Creed of Jesus. Morrow, Georgia: Restoration Fellowship. pp. 257-258

[12] Barber, M. A. Op. Cit. p. 48

[13] Brown, R. E. (1994). An Introduction to New Testament Christology. Mahwah, New Jersey: Paulist Press. p. 177

A Divindade do Messias

É claro que sempre que o Messias aparece ele acaba por ser o agente do Deus de Israel. Isso deve ser claramente distinguido de qualquer sugestão de que ele foi em si mesmo uma figura transcendente, existindo de modo sobrenatural dominador do espaço e do tempo. Este Messias era esperado para vir da tribo de Judá e da linhagem real do rei Davi. As genealogias de Mateus e Lucas, de fato, inclui Jesus entre os descendentes de Davi (Mt 1.1, 6; Lc 3,31).

Jesus foi um homem como nós, sujeito ao ambiente humano tanto quanto qualquer um de nós. Certamente por não entenderem o que seja uma pré-existência no céu com o Pai ajude aos apologistas da cristologia tradicional desaparecer com sua experiência humana a um ponto de colocá-lo muito além da capacidade de se relacionar com qualquer um de nós. Como poderia então ser ele o descendente de Abraão em Hebreus 2:16-18 ou o “homem nascido de mulher” de Gálatas 4:4?

Se Jesus foi humano de uma maneira diferente de nós, onde estaria a validade das comparações entre ele e Adão? De acordo com  Romanos 5:12-21, por um homem entrou o pecado no mundo, e, portanto, para que houvesse justificação, a redenção teria que vir por outro homem, outro Adão.  O que é enfatizado repetidas vezes é que o Messias foi como um de nós, intimamente relacionado com aqueles a quem ele deve resgatar. Em parte alguma neste contexto deve ser exigida qualquer nuança de divindade.

Da mesma forma é 1 Coríntios 15:21 “Porque, assim como por um homem veio a morte, por um homem veio também a ressurreição dentre os mortos“. O que se segue é outra comparação entre Jesus e Adão. Não seria realmente justo sendo Adão um homem simples e Jesus a encarnação da divindade.

A propósito, como esse tipo de refutação e argumentos inevitavelmente geram perguntas, e perguntas extremamente complicadas, tenho aqui algumas. Por exemplo: Quando Deus aparentemente abandonou seu Filho na cruz, quem ele abandonou, um homem completo ou um corpo humano com o centro pessoal abarrotado de divindade? Será que foi apenas uma questão do “Deus Filho” entregando o corpo humano e retornando para a existência que gozava antes de ser ‘encarnado’ nele mesmo?

Vamos examinar um problema. Quem morreu na cruz? Se foi uma divindade, então não é o sacrifício perfeito. Ninguém em total divindade, sendo 100% Deus, poderia expiar os pecados de toda a humanidade ou atender às exigências do sacrifício. E se aquele que morreu na cruz era Deus, então Deus ficou morto por “três dias”? É consistente com o Antigo Testamento expressar algo desse tipo? E se o Doador da Vida foi mesmo morto, quem mais poderia trazer de volta à vida? Quem cuidou do universo antes da ressurreição de Jesus – Deus?

Infelizmente são perguntas geradas por causa do ensino herético que a cristologia tradicional desenvolveu.

A maioria dos estudantes da Bíblia diz que Jesus era divino quando aqui andou, mesmo considerando que ele era um mortal. Outros, geralmente limitam o termo “divino” como aplicado a Jesus só depois de sua ressurreição, pois eles misturam o significado de “divino” com a “imortalidade” no reino do espírito. Porém, eu acredito que as Escrituras indicam que um maior uso dos termos “divindade” e “divino” podem ser aplicados. Há um sentido bíblico em que Jesus como um ser humano poderia ser visto como divino por causa do domínio, de levar o nome de Deus e agir na autoridade de Deus.

Em alguns casos as palavras hebraicas EL e ELOHIM são usadas no sentido de ser divino exclusivamente para seres espirituais, como no Salmo 8:5. No entanto, os hebreus também usaram as palavras que designam divindade em um sentido de potência especial, mesmo dos seres humanos.  Moisés foi feito, não um ser divino, mas divino, poderoso para o Faraó do Egito, e também para Arão, quando o Senhor falou que Moisés lhe seria por Deus, ou porta-voz de Deus (Êxodo 4:16; 7:1). Assim Moisés pode ser referido como um ser humano divino.

O termo Ha Elohim é aplicado aos juízes de Israel como um corpo de homens, não como seres espirituais (Êxodo 21:6; 22:8, 9, 28 [Ver Atos 23:5], de modo que estes homens poderiam ser referidos como “divinos”, embora humanos. Além disso, no Salmo 82, os termos EL e ELOHIM estão sendo aplicadas para os filhos humanos de Deus. Assim eles poderiam ser referidos como divinos, mesmo sendo humanos. Em cada um desses casos, os seres humanos poderiam ser “divinos” por causa de poderes especiais, como também por causa da própria missão dadas a eles por Deus.

Da mesma forma, a Jesus, como ser humano, foi dado poderes especiais para realizar várias obras e milagres, e para falar no lugar do único Deus verdadeiro. Portanto, neste sentido, Jesus também pode ser referido como divino, poderoso, até mesmo como um ser humano.

É claro que, depois de sua exaltação (Atos 2:33; 5:31; Filipenses 2:9), ele agora é literalmente divino, (1 Coríntios 15:45) sendo maior do que os anjos (Hebreus 1:3, 4), que também são chamados elohim – seres divinos, Salmo 8:5; Hebreus 2:7.

Uma observação digna de nota é Hebreus afirmando categoricamente que o Senhor Jesus após sua ressurreição foi feito maior que os anjos,

O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles”.  Hebreus 1:3, 4

Jesus tinha a natureza divina enquanto era um ser humano? Não! Jesus não poderia ter a divindade exigida por muitos, pois o mesmo livro de Hebreus também afirma que nessa condição ele foi feito menor que os anjos.

Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos”. Heb 2:9

O escritor, o apresentando em sua paixão e morte, declara sua condição humana lembrando em suas palavras do homem que aqui andou, quando enfatiza sobre “aquele Jesus”.

Necessário dizer aqui que Jesus não foi feito um pecador, como toda a humanidade tem sido através de Adão (Romanos 5:19), nem mesmo viu a corrupção a qual toda a humanidade participa através de Adão (Eclesiastes 1:15. Jesus nunca se corrompeu, mesmo que tenha sofrido sob o cativeiro da corrupção (Romanos 8:23), à semelhança da carne do pecado (Romanos 8:3). Ele morreu, o justo pelos injustos (1 Pedro 3:18). É digna de observação essa ênfase, o homem justo pelos homens injustos, o que não haveria necessidade de citar se ele fosse mesmo Deus. Assim, só Jesus, que permaneceu obediente até a morte, poderia oferecer ao Altíssimo um sacrifício pelo pecado. (Romanos 8:3 ; Efésios 5:2 ; Hebreus 9:14; 0:10 , 12 , 14 , 18). Jesus fez provar por si mesmo a incorruptibilidade pela sua perfeita obediência e, assim, ele trouxe vida e imortalidade através das boas novas. (2 Timóteo 1:10). Esta é a base para a crença em Jesus, e, portanto, a base para o verdadeiro cristianismo.

Se, por outro lado, Jesus foi o Altíssimo e divino na carne, como muitos afirmam, então nenhum resgate foi fornecido, pois ele é julgado por muitos como perfeito porque era Deus. Em outras palavras, isso significa dizer que Jesus venceu como Deus provando que só uma divindade poderia obedecer as leis de Deus para o homem. Isso gera problemas para Deus, pois implica afirmar que Ele  errou em dar ao homem uma lei de comando que não poderia ser obedecida, o que faria dele injusto em condenar toda a humanidade por não obedecer essa lei. Na verdade, essa teoria de que houve obediência porque Jesus era divino perfeito, falha, pois se fosse dessa forma Ele não teria “condenado o pecado na carne” (Romanos 8:3), a carne de Adão, que era a carne dele próprio.

Apesar de tudo, muitos ainda dizem que Jesus tinha uma natureza dual, que era 100% homem e 100% Deus. O problema é que ninguém explica o que aconteceu com a parte humana de Jesus se ele era 100% divino. Onde estava a natureza humana de Jesus se ele e Deus eram um?

Alguns complicam ainda mais quando garantem que Jesus era mesmo o logos eterno habitando seu corpo, o próprio Espírito de Deus, caso em que Jesus não teria sido “totalmente” humano – o que aconteceu ao espírito deste homem? A humanidade de Jesus não é contestada por ninguém.  Alguém pode explicar: Se Jesus é totalmente Deus, então Deus é totalmente homem? A teoria do Deus-homem total é impossível explicar com sinceridade.  Por outro lado, entendemos, literalmente, que divindade alguma pode habitar na carne,

Dan 2:11  “Porque o assunto que o rei requer é difícil; e ninguém há que o possa declarar diante do rei, senão os deuses, cuja morada não é com a carne”.

Homem e Filho do Homem

É apenas uma mera coincidência que há exatamente três versos em todo o Antigo Testamento afirmando que Deus não é homem e nem filho do homem? Eu não acho que isso seja  uma mera coincidência. No entanto, eu acredito que seja uma enorme contradição estes   versículos negarem que Deus é homem ou filho de homem e ao mesmo tempo a teologia convencional cristológica afirmar que o Filho do homem seja denominado Deus.

O Novo Testamento  descreve Jesus como  homem e filho do homem em muitos lugares. Atos 2:22 deixa bem claro que Jesus era um homem,

Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis“.

Observe que Pedro aqui não usa o script evangelista que Jesus é Deus-homem ou homem-deus. Pedro apenas afirmou a nossa posição de que Jesus era um homem que Deus escolheu.

O termo  “Filho do Homem”,  ocorre exatamente 82 vezes nos quatro evangelhos e quatro vezes adicionais em outras partes do Novo Testamento – 30 vezes em Mateus, 14 vezes em Marcos, 25 vezes em Lucas, 13 vezes em João, 1 vez em Atos, 1 vez em Hebreus e 2 vezes em Apocalipse.

A frequência em que o termo é usado por Jesus nos Evangelhos é uma das razões que levaram os estudiosos da Bíblia considerá-lo como um  título específico para ele. Porém, muitos teólogos também entendem que o título filho do homem, quando aplicado aos vários personagens do Velho Testamento, deve significar apenas que são nascidos de mulheres, e que  essa visão interpretativa pode ser usada como referência para Jesus. Desta maneira, muitos acreditam que Jesus não deveria ser excluído de Números 23:19. O versículo diz,

Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa; porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria?”

Logo, entendem que Jesus não pode ser Deus, sendo ele Filho do Homem, descendente de Abraão e Davi. A parte fundamental no versículo é, “lo’ ‘iysh ‘êl viykhazzêbh ubhen-‘âdhâm veyithnechâm”. A negação ocorre no início da frase, e  o que isto significa, literalmente, é “Não é verdade que Deus é um homem para mentir ou filho do homem para mudar de ideia“. A negação é distribuída a cada frase que então produz, “Deus não é homem, e Ele não mente, Ele não é o filho do homem e ele não se arrepende“. O texto não faz de Jesus um homem que mente e se arrepende, mas apenas mostra o contraste entre os seres humanos e Deus, sendo que Jesus está na categoria dos humanos.

Podemos observar em muitos versículos que  Jesus foi conhecido como  homem e o filho do homem. Em contraposição, o versículo 19 de Números 23 diz que Deus não é nem homem, nem o filho do homem, e pior, nos originais deveria ser traduzido da seguinte forma: “Deus não é nem homem, nem  filho de Adão”. Quando trazemos esses dois registros juntos  não chegamos à conclusão de que Jesus não é Deus? Aliás, o próprio Jesus  nega que ele fosse Deus,

Jesus falou a um homem que o havia chamado ‘bom’, pedindo-lhe: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus“(Lucas 18:19). Se Jesus tivesse dito às pessoas que ele era Deus, ele teria elogiado o homem. Em vez disso, Jesus o repreendeu, negando  que ele era Deus.

Jesus é chamado de um homem muitas vezes na Bíblia

Um homem que lhe disse a verdade” (João 8:40)

Ele julgará o mundo com justiça por meio de um homem a quem constituiu” (Atos 17:31)

Cristo Jesus, homem” (Tim. 2:5).

 A Bíblia muitas vezes chama a Jesus  “o filho do homem”.

“… o Filho do homem “(Mateus 12:40).

“… o filho do homem há de vir” (Mateus 16:27).

Mas, para que saibais que o Filho do Homem tem autoridade” (Marcos 2:10).

 “porque ele é o filho do homem “(João 5:27)

Alguns podem até resistir à interpretação exposta neste site, alegando que o contexto mostra que o versículo está falando sobre a condição limitada e inconstante do homem humano em que eles mentem e mudam as suas mentes ou exigem arrependimento por suas ações, e que Deus jamais agiria dessa forma. Sim, eu concordo  que o contexto mostra que ele está falando sobre a limitação humana e como Deus não tem essas limitações, ou seja, sujeito a se arrepender. No entanto, eu não consigo ver como alguém poderia negar o fato de que o verso diz “Deus não é um homem … nem o filho do homem“. Na verdade, eu acho que o contexto  apoia ainda mais minha posição, porque a mentira e se arrepender são inatas condições humanas. Assim,  porque a natureza do homem contém a facilidade de mentir e de se arrepender, o versículo permite o contraste, confirmando que Deus não é um homem – Isso é o que o verso significa. Como diz o ditado “errar é humano”. Porque Deus não erra demonstra que ele não é homem,  é porque ele não é o homem/humano que ele não erra! Alguns tentaram sugerir que Deus pode ser humano desde que ele se torna um ser humano perfeito que não mente, nem se arrepende, e chegaram a conclusão que foi nesse sentido que ele se tornou Jesus, que foi perfeito e sem pecado. Aqui é que entra o exemplo magnífico do Senhor para nós, nos possibilitando servi-lo como homem que somos, pois ele o foi. Ele foi perfeito sim, mas conseguiu isso obedecendo até a morte, se entregando a Deus com lágrimas. Podemos observar tudo isso começando pelas palavras de  Paulo aos Filipenses 2:8

E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz”. E o versículo segue dizendo que através de sua submissão ele recebeu um nome que é exaltado acima de todo o nome,

Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome”.

Foi por isso que Deus o exaltou, e não porque Jesus era o próprio Deus. Fica por demais fora de contexto se admitimos que Deus deu a Deus um nome que é acima de todos os nomes. A propósito, se ele era mesmo Deus enquanto aqui viveu, por que recebeu um nome acima de todo nome? Qual outro nome poderia estar acima do nome do Deus Jesus? Caso a se pensar…

O escritor aos Hebreus nos leva para o mesmo contexto apresentado em Filipenses onde encontramos expressões que de maneira brilhante revela a humanidade do Senhor Jesus,

O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu”. Hebreus 5:7,8

O que vos parece, será essa uma descrição de Deus?

O fato em questão é que o versículo diz claramente que Deus não é um homem e Jesus é um homem e isso significa que Jesus não era Deus. Ele também diz que Deus não é o filho do homem, e Jesus era o filho do homem, o que  é repetido 82 vezes nos evangelhos, o  que deve simplesmente significar  que Jesus não era [um] Deus. É um exercício muito simples e eu realmente acredito que qualquer pessoa razoável possa admitir isso.

Existem mais dois versículos que podem reforçar o argumento exposto até o presente momento. Observem a redação de  1 Samuel 15:29,

Também a Glória de Israel não mente, nem se arrepende, porquanto não é um homem (adam lo), para que se arrependa.”

Deus não é um homem porque Ele não mente, nem se arrepende, e ele não mente, nem se arrepende, porque Ele não é o homem. Em ambos os casos, a negação é feita entre o Deus referente e o homem referente, isto é, não são os mesmos. Deus não é um homem (lo ish e eis adam).

O outro  verso da série é ainda mais claro

Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; eu não entrarei na cidade”. (Oséias 11: 9)

Jesus não é Deus porque todo o contexto dos versos citados estão de acordo de que Deus não é um homem e a natureza dos versos são as mesmas em que nega que ele é um homem.

“Eu e o Pai somos UM”

Um

Em João 10:30 Jesus diz: “Eu e Pai somos um“. Segundo a doutrina trinitariana Jesus afirmava sua posição como Deus ao se igualar ao Pai. Se ele disse que é um com o pai, para os trinitarianos, deve significar que ele é Deus. No entanto, se na doutrina trinitariana o Espírito Santo é a terceira pessoa da trindade, por qual motivo ele foi excluído aqui? Por que Jesus não disse, “Eu, o Pai, e o Espírito Santo somos um?” Além disso, Jesus também diz em João 17:3: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”, João 17:3. Para termos a vida eterna devemos conhecer apenas duas pessoas, o Pai e o seu Filho. E o Espírito Santo?

A terceira pessoa da Trindade também não sabe a hora e o dia da Vinda de Jesus: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai”, Mateus 24:36. Da mesma forma Mateus 16:27 cita o Filho, o Pai e os anjos, mas não cita o Espírito Santo na Vinda do Senhor: “Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos”, Mateus 16:27. O Espírito Santo não vem!

E novamente: Jesus e o Pai são um sem o Espírito Santo? Provavelmente a resposta trinitariana será a mesma de sempre: “É um mistério”. Esse mistério é um mistério, é só. Esse é um tema onde o silêncio é ouro – para os trinitarianos é sagrado, não se pode tocar. Essa é a desculpa mais incrível de todos os tempos!

“O maior problema da doutrina da Trindade não é o fato dela conter um mistério, mas o fato dela conter contradições lógicas cuja resolução é impossível. Há muitos mistérios para os quais não há explicação na Bíblia. O que não podemos fazer é transformar tais mistérios em doutrinas fundamentais” ( RICOTA, Ricardo, “Eu e Pai somos um”, pág. 13. Terceira Edição – 2008).

Infelizmente nossa cultura foi extremamente influenciada pelo Catolicismo Romano, que fez da doutrina da Trindade uma constituição de fé, e que tem afetado todos os ramos da religião no mundo inteiro. Porém, é bom que se saiba: a doutrina da Trindade é um monopólio Católico, criada e desenvolvida séculos depois da morte dos apóstolos.

Jesus e Deus são um como?

Jesus é chamado de Filho mais de 200 vezes em todo o NT; o Pai é referido como distinto do Filho mais de 200 vezes. Ao longo de 50 vezes o Filho e o Pai são mencionados no mesmo versículo. Ainda encontramos saudações de Paulo com graça e paz para Deus Pai e o Senhor Jesus Cristo. Jesus se identifica como o Filho de Deus por toda a Bíblia. Ele é sempre colocado em pé de igualdade com o Pai, sendo capaz de dar graça ao crente.

Lemos em João 20:17,Jesus disse-lhe: Não me toques, porque eu ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai, E o seu pai, e para meu Deus e vosso Deus“. Jesus afirmou que havia uma distinção entre ele e Deus. Em outras palavras, o próprio Jesus tinha um Deus. Portanto, ele não era o próprio Deus. Estas são várias maneiras diferentes e opostas; em algumas passagens vemos que ele e Deus são um, em outras Jesus se refere a uma autoridade maior do que ele, que é Deus. Agora, assumindo que todas são declarações corretas, então temos uma contradição. Se, por exemplo, Jesus Cristo era o próprio Deus como afirmam sobre João 10:30, então seria mais apropriado para ele dizer “… eu mesmo e eu mesmo somos um”. E em João 20:17 ele deveria dizer no fim do versículo que ele iria subir “para mim mesmo e vosso Deus”, ou, “Eu mesmo, por que me desamparaste?” em Mateus 27:46.

Tanto quanto em João 20:17 como em Mateus 27:46 está muito claro que Jesus tinha um Deus que ele orou, e que foi uma autoridade maior que a sua própria. Podemos fazer isso com outros versículos da Bíblia: “Eu não posso de minha própria vontade fazer nada: conforme ouço, assim julgo, e o meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou. “(João 5:30). Além disso, Jesus disse : “… porque meu Pai é maior do que eu” (João 14:28). Se Jesus e Deus eram a mesma pessoa, literalmente interpretando, então ele não teria dito o que disse nos versos acima.

A única maneira de João 10:30 poder ser interpretado de tal forma que ele não contradiga todos os outros versículos é dizer que Jesus e Deus tinham tudo em comum. O próprio versículo refuta que Jesus é o Pai. O verso mostra duas pessoas distintas (… Eu + meu Pai = 2). Então, isso deve significar que os dois estavam sempre em comunhão, estavam de acordo em tudo, como também é necessário dizer que Jesus era a própria imagem de Deus, pois era seu filho. Todos os versículos que parecem dizer que Jesus foi Deus enquanto aqui andou devem ser entendidos segundo a palavra de Paulo, quando afirma que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”, 2 Co 5:19.

O sentido de dizer que Ele e o Pai são um, também deve significar que ele foi enviado debaixo da autoridade do Deus de Israel e, que ele, além de ser Filho, veio como seu porta voz. Ele foi a autoridade de Deus em missão para os judeus. Portanto, nesse contexto é que devemos aplicar palavras como: “Quem vê a mim vê o Pai”, “Eu e o Pai somos um”, “Deus conosco”, “Meu Senhor e meu Deus” e similares.

Em João 10:31, vemos que os judeus interpretaram mal o que Jesus queria dizer com “Eu e meu Pai somos um”. Parece claro que Cristo nessa ocasião não fazia referência à essência do ser, mas sim à união de parecer entre ambos. Por isso que ele diz em seguida sobre seus discípulos: “Para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17:21)

Se nós também somos um com Cristo e Deus, então parece-me óbvio que Jesus não estava falando de essência aqui (ou senão teríamos a mesma essência divina de Deus!), mas sim de união de parecer em um só pensamento, em comunhão com o Pai e termos semelhantes. Doutra forma não faria sentido dizer que estava rogando “para que SEJAM um, assim como somos um” (João 17:11). Que sentido teria orar para que SEJAM “um em essência”, se todos os humanos tem a mesma essência humana de qualquer jeito?

Observe a palavra “assim como” se referindo a similaridade de unidade que existe tanto entre Deus e Cristo, como também entre Cristo, Deus e seus seguidores: “Que sejam um assim como nós somos um”. Se Jesus, ao dizer, “Eu e o Pai somos um”, quer deixar claro que é Deus da mesma forma que o Pai é, então, somos todos Deus, pois em João 17:21 Ele diz com relação a ser UM COM seus discípulos: “ASSIM COMO tu ó Pai, és em mim, e eu em ti”, e vai além quando ora para os díscipulos serem um com ele e Deus nas palavras “… que também eles sejam um em nós“.

Muito oportuno observar quando Paulo fala de seu companheiro Apolo que revisitava os locais onde ele mesmo já havia pregado. Paulo disse: “Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um; e cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho”, 1 Coríntios 3:5-7.

Concluimos destas palavras que Paulo e Apolo eram uma só pessoa? Paulo não queria dizer que ele e Apolo eram duas pessoas em uma; ele quis dizer que eles estavam unidos em propósito. A palavra grega que Paulo usou ali para “um” (hen) é neutra, literalmente “uma só (coisa)”, indicando unicidade de cooperação. É a mesma palavra que Jesus usou em João 10:30 para descrever a sua relação com o seu Pai. É também a mesma palavra usada por Jesus em João 17:21, 22 com relação aos discípulos serem um entre si e com ele e Deus. A palavra “um” (hen), nestes casos, fala a respeito de união de pensamento e de propósito.

João 10:30 não prova a trindade! O escritor inspirado, insisto, usa a palavra “um” ( do grego hen) que é neutra, ou seja, de um modo geral aplicada a coisas impessoais. Obviamente seriam “um” em propósito e não como pessoa. Aplicar João 10:30 da forma como fazem alguns trinitários é não somente gramaticalmente errado, como também ignora as declarações claras da Bíblia onde Cristo e o Pai são diferenciados. Em João 5:32,37 Jesus disse claramente : “outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro… E o Pai, que me enviou, ele mesmo testificou de mim. Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes o seu parecer”.

É interessante observar também que Jesus não teve a menor intenção de citar a palavra “Deus” na frase “Eu o e o Pai somos um”. Muito interessante observar o que ele não disse: “Eu e Deus somos um”. Há uma infinidade de textos demonstrando que o Filho é diferente do Pai e que estes não são a mesma pessoa. Jesus disse em João 14:28 : “…Vou para o Pai; porque meu Pai é maior do que eu”.

Além disso, Jesus chama seu Pai de “O único Deus verdadeiro” (João 17:3). Observem que o Pai de Jesus é o Deus de Jesus, Aquele a quem ele chama de “meu Deus” em João 20:17. Além disso, mais de 60 anos após a ascensão, Jesus continua chamando o Pai de “Meu Deus” em Apocalipse 3:12: “A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá; e escreverei sobre ele o nome do meu Deus, e o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém, que desce do céu, do meu Deus, e também o meu novo nome”. Lembre-se que isto foi falado por Cristo após ter subido ao céus.

A ortodoxia tradicional ignora o que seja linguagem figurada nesse tipo de contexto como o de João 10:30.

Volte para o episódio com Tomé e Felipe para que você caro leitor possa entender melhor o que quero dizer. Veja o que Jesus, ao responder a uma pergunta de Tomé, disse: “Se vós me tivésseis conhecido, teríeis também conhecido meu Pai; deste momento em diante vós o conheceis e o tendes visto”. E em resposta a uma pergunta de Filipe, Jesus acrescentou: “Quem vê a mim, vê também o Pai” (Jo 14:5-9). A explicação seguinte de Jesus mostra que isto se dava porque ele representava fielmente o Pai, falava as palavras do Pai e fazia as obras do Pai (Jo 14:10, 11; compare isso com Jo 12:28, 44-49).

Que a declaração de Jesus sobre ver o Pai devia ser entendida figurativamente, e não de forma literal, evidencia-se na sua própria afirmação em João 6:45, bem como no fato de que João, muito depois da morte de Jesus, escreveu: “Nenhum homem jamais viu a Deus; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, é quem o tem revelado” (Jo 1:18; 1 Jo 4:12).

O que João 10:30 não significa

Muitos dizem que o sentido de João 10:30 foi o de Jesus realmente se igualar a Deus, o Pai, em essência, porque no verso seguinte se vê uma tentativa de apedrejamento por parte dos judeus. Eis a sequência preferida dos trinitarianos: “Eu e o Pai somos um. Os judeus pegaram então outra vez em pedras para o apedrejar. Respondeu-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo”, João 10:30-33

Pelo motivo de o verso sobre o apedrejamento ser seguinte a expressão “Eu e o Pai somos um”, a interpretação imediata é que a blasfêmia, assim entendida pelos judeus, seria por essa afirmação, mas a informação textual não para no verso 33. Veja o verso 36: “àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, dizeis vós: Blasfemas; porque eu disse: Sou Filho de Deus?”

O curioso do estudo dessa passagem bíblica é que todos reconhecem a visão errada dos judeus, principalmente a má interpretação que os fariseus sempre fizeram das palavras de Jesus em todo Novo Testamento, que estes constantemente o acusavam enganosamente, mas surpreendentemente os que defendem a co-igualdade entre Cristo e Deus acham, agora, que os fariseus haviam entendido acertadamente (?), de forma indubitável, que Jesus teria afirmado ser o próprio Deus ao invés de ser mais uma das falsas afirmações farisaicas acerca de Jesus. Porém, o Mestre mostra o engano de ambos ao continuar o diálogo e explicita que não haveria motivo para espanto.

Está claro no fechamento das palavras de Jesus: “dizeis vós: Blasfemas; porque eu disse: Sou Filho de Deus?”, que a causa foi a afirmação ocorrida varias vezes, desde o verso 10 do capítulo, que Deus era seu Pai.

Ele apenas disse ser Filho de Deus, e para os judeus esse era o motivo pelo qual ele se fazia igual a Deus. Já havia acontecido antes: “Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus”, João 5:18. Quem disse que Jesus estava fazendo-se igual a Deus não foi Ele. Ele se defendeu contra essa falsa acusação logo no versículo seguinte (João 5:19): “Retomando a palavra, Jesus lhes disse: . . . o Filho, por si mesmo, nada pode fazer mas só aquilo que vê o Pai fazer.”

Com isso, Jesus mostrou aos judeus que ele não era igual a Deus e que, por conseguinte, não podia agir por iniciativa própria. Podemos imaginar alguém igual ao Deus Todo-poderoso dizer que, “por si mesmo, nada pode fazer?”

Portanto, não foi por causa de dizer “eu e o Pai somos um” que Jesus foi ameaçado de apedrejamento, mas por ter falado que é Filho de Deus. E ele disse isso antes das palavras “eu e o Pai somos um”. Porém, suas palavras foram inseridas dentro de um contexto messiânico mediador! Essa foi a causa de todo o problema.

Observe o tom do Senhor Jesus nos seguintes versículos do mesmo capítulo:

Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas.

Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la.

Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai.

Tornou, pois, a haver divisão entre os judeus por causa destas palavras”, João 10:15-19.

Veja na sequência a ousadia do Senhor novamente. Sua missão e a citação do Pai : “Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim.

Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito.
As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem;

E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão”, João 10:25-28.

Dizer que era o Filho de Deus com a missão agravou em muito levando a situação para um apedrejamento, o que os judeus viam como blasfêmia de se fazer igual Deus. Veja novamente no final do capítulo:

Aquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus?”, João 10:36.

Vou finalizar o artigo com as palavras de três eruditos trinitarianos. Eles são protestantes, mas, repito: SÃO TRINITARIANOS!

W.E. VINE abordando o tema referente “… Eu e o Pai somos um”, declara: “… metafóricamente [figurativamente] união e acordo, exemplo: João 10:30;11:52; 17:11, 21,22…”- An Expository Dictionary of New Testament Words, p. 809.

O erudito William Barclay escrevendo em seu diário Daily Study Bible Series, O Evangelho de João, vol. 2, A Imprensa Westminster, 1975, pp 74, 75, 76 diz:

“Agora chegamos à afirmação suprema [de João 10:30]. “Eu e o Pai somos um”, disse Jesus. O que ele quis dizer? É um mistério absoluto, ou se pode compreender pelo menos um pouco dele? Somos levados a interpretá-la em termos de essência e hipóstase e todo o resto das noções metafísicas e filosóficas sobre as quais os fabricantes de credos lutaram e defenderam? Precisaríamos ser um teólogo ou um filósofo a fim de compreender até mesmo um fragmento do significado desta tremenda declaração?”

“Se recorrermos a própria Bíblia para a interpretação”, continua Barclay, nós achamos que ela é na verdade tão simples que a mente mais simples pode compreendê-la. Voltemo-nos para o décimo sétimo capítulo do Evangelho de João, que fala da oração de Jesus para seus seguidores antes de sua morte: “Pai Santo, guarda em teu nome, que me tens dado, para que eles sejam um, como nós somos um” (João 17:11). Jesus concebeu a unidade dos cristãos com cristãos como a mesma que a sua unidade com Deus”.

“Aqui está a essência da questão. O vínculo de unidade é o amor, a prova de amor é a obediência. Os cristãos são “um” com os outros quando eles estão ligados pelo amor, e obedecer as palavras de Cristo. Jesus é um com Deus, porque, como nenhum outro jamais fez, ele obedeceu e o amava. Sua unidade com Deus é uma unidade de amor perfeito, mostrando perfeita obediência.”

“Quando Jesus disse: “Eu e o Pai somos um“, ele não estava se referindo ao mundo da filosofia e da metafísica e abstrações, ele estava se referindo ao mundo das relações pessoais. Ninguém pode realmente entender o que uma frase como ”uma unidade de essência” quer dizer, mas qualquer um pode entender o que significa uma unidade de coração, a unidade que Jesus com Deus veio a partilhar tanto o amor perfeito quanto a obediência perfeita. Ele era um com Deus porque ele o amava e lhe obedeceu perfeitamente …”.

O trinitário Robert Young comentou sobre esse reconhecimento da palavra “um” em João 10:30 em sua obra Young’s Concise Critical Bible Commentary: “A partícula [hen] que está no gênero neutro, dificilmente pode significar” um ser, ou seja, um só Deus ‘, mas sim “um na vontade, em propósito, conselho, …” – pg. 62, Baker Book House, 1977.

João Calvino (que era trinitarista) disse no livro Commentary on the Gospel According to John (Comentário do Evangelho Segundo João): “Os antigos usaram mal essa passagem para provar que Cristo é . . . da mesma essência que o Pai. Pois Cristo não argumenta a respeito da unidade em substância, mas sim a respeito do estado de concordância dele com o Pai.”

Verdadeiramente, então, não há absolutamente nenhuma evidência de uma interpretação “trinitária” em João 10:30.

Precisamos apenas ser coerentes com a verdade!