“No Princípio” – João 1:1 – que princípio?

Essa é a versão do primeiro versículo do Quarto Evangelho tão difundida pela Tradição:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1:1).

Para milhões de cristãos é impossível fazer a leitura do prólogo de João sem pensar em Jesus como Deus e criador do Universo junto ao Pai. A fim de sustentar essa leitura, eles filtram bastante o que está no texto, rejeitando a todo custo qualquer interpretação que ameace a quebra do vínculo com o romantismo místico trinitariano dominante. Fazem isso inocentemente, impulsionados pela crença que popularizou a doutrina do homem Deus; nem imaginam que o engano da Tradição está ocultando a realidade, impedindo que a verdade seja exposta, o que é fato: o envolvimento da passagem bíblica com um Jesus preexistente e criador é uma ilusão. E embora o público receba uma ampla gama de representações de João 1:1-3, do puramente literal ao livremente parafraseado, essas traduções não representam a intenção do significado original do texto, mas apenas serviram como uma arma nas mãos da ortodoxia cristã para impor as decisões dos credos e concílios pós-bíblicos — isso fez com que o texto se tornasse amplamente mal compreendido.

A abordagem hermenêutica descuidada da interpretação é o culpado comum, pois desviou o verdadeiro significado do prólogo de João, convencendo a maioria que, infelizmente e ignorantemente, passou a comparar este texto à criação de Gênesis. O plano foi arquitetado com o objetivo de colocar Jesus como criador do mundo em companhia do Pai – um engano fatal; Jesus não esteve presente na Criação do Universo. O Deus de Abraão criou todas as coisas sem a ajuda de ninguém: “Assim diz o Senhor, teu Redentor, e que te formou desde o ventre: Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus, e que espalhei a terra por mim mesmo” (Isaías 44:24).

Vou tratar do assunto no meu próximo artigo, com o título, “Jesus não criou o Universo”.

Um espírito Preexistente

Os docetistas ensinavam que a humanidade de Cristo era apenas uma aparência; havia um “fantasma” dentro dele por meio do qual Deus tratou com o homem. Pessoas que seguiram o gnosticismo, como Cerinto, um cristão gnóstico, sustentaram que um ser espiritual desceu sobre ‘Jesus’ em seu batismo no Jordão e permaneceu com ele até pouco antes da paixão. Assim, ele dividiu Jesus e o Cristo (o ungido) e negou que o Cristo tivesse sofrido ou derramado sangue. Irineu expôs sua doutrina da seguinte maneira: “Aqueles que separaram Jesus de Cristo, alegaram que Cristo permaneceu impassível, que foi Jesus quem sofreu” (Contra Heresias 3: 11: 7) “… que o Filho do Criador era, em verdade, um, mas o Cristo de cima era outro, que também continuou impassível, descendo sobre Jesus … e voou de volta em Seu Pleroma” (ibid. 3: 11: 1).

A proposta trinitariana transformou em farsa o sacrifício do filho de Deus que morreu por todos os homens — eles insinuam que ele apenas ‘meio que morreu’; que parecia humano; que ele poderia ter mudado seu corpo; que um espírito preexistente assumiu um corpo. Isso é especulação pura. Eles estão dizendo que Deus amou o mundo de tal maneira que criou um corpo para viver, e que posteriormente morreu, enquanto o verdadeiro ‘Espírito’ olhava à distância.

O fato é que nem os trinitarianos sabem o que ocorreu durante essa suposta encarnação. Poderiam responder se o Logos simplesmente substituiu o ser humano, se contendo em silêncio deixando o ser humano viver como humano? Como foi possível ao Logos manter sua identidade, ou natureza distinta da natureza humana de Jesus? Se assim for, então Jesus tinha duas mentes e duas vontades, como, aliás, foi determinado pelos grandes concílios do passado. A mesma coisa disseram muitos proeminentes Pais da Igreja, os quais também acreditaram piamente que o Logos, um ser preexistente, assumiu a encarnação. E aqui está o erro mortal do trinitarianismo; isso sugere que esse Logos impactou Jesus na terra, sendo o responsável direto por ele ter vivido uma vida justa e santa, o que anula o sacrifício do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, pois insinua que Jesus nunca morreu – um desastre para a influência do Espírito Santo na vida dele.

A verdade é que podemos detectar, a partir dos evangelhos, que não existe nenhuma consciência dessas questões por Jesus. Por exemplo, Jesus era consciente de ter preexistido? Eu acredito que não, pois se assim fosse ele teria memória cósmica. Isso significaria que ele apenas participou de um teatro em conjunto com seu Pai, o que o destitui da responsabilidade de ter obedecido até a morte.

Ou o Filho de Deus morreu e nós temos a redenção, ou “o Deus Filho” não morreu (apenas sua natureza humana?) e ainda estamos em nossos pecados. O fato, porém, é que a Bíblia diz que “fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho” (Rm 5, 10). Ele morreu mesmo!

Ter um Deus Filho como o Cordeiro, sendo tentado, mas imortal e incapaz de pecar, não funcionaria e nem seria justo. Ou Jesus é feito como nós ou não é. Deus não falsifica ou mexe com a verdade. O fato é que Ele precisava que a luta fosse justa. Jesus teve que vencer apenas pela fé e pelo poder do Espírito de Deus nele, não por alguns truques divinos. O fato de Jesus ‘deixar de lado sua divindade’ zomba do que foi realizado no Calvário e da vida vivida até aquele evento culminante. Ele era totalmente dependente de Deus — só Deus podia — e salvou Jesus da morte.

O erro dos cristãos pós século II parece que não foi cometido pelos cristãos dos tempos de Jesus; não foi cometido pelos judeus da sua cidade e muito menos por seus inimigos; eles não viam divindade em Cristo e nem acreditavam ter sido ele preexistente. Ouça o que disseram sobre a procedência dele em João 7:41,42: “Outros diziam: Este é o Cristo; mas diziam outros: vem, pois, o Cristo da Galiléia? Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Davi, e de Belém, da aldeia de onde era Davi?”

Em Marcos 3:22 as autoridades dos judeus falam sobre Jesus: “E os escribas, que tinham descido de Jerusalém, diziam: este tem Belzebu, e pelo príncipe dos demônios expulsa os demônios”. Além disso, também alegaram que ele era “um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores” (Mateus 11:19). Eles não fariam esse tipo de referência tão humilhante se o vissem como o segundo, divino e preexistente, Deus do judaísmo monoteísta.

A reação da família de Jesus com relação a ele em Marcos 3:21; 31-35 é outra evidência. Eles saíram em busca de Jesus “para o conter, pois achavam que ele estava fora de si”. Se seus familiares tivessem conhecimento da natureza divina de Cristo, de que ele era Deus, por que o teriam considerado como “fora de Si”? Responda por você mesmo.

A Constituição Trinitariana

Ei-la: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (João 1:1-3).

A interpretação de João 1:1-5, herdada da Tradição, enganou a cristandade do mundo inteiro. Essa visão convenceu os leitores de que a palavra era uma pessoa antes do nascimento de Jesus. E que Jesus participou da criação do Céu e da Terra narrada em Gênesis Capítulo 1.

Mas, o que aconteceria se chegarmos ao entendimento de que “palavra” não foi uma pessoa existente ao lado de Deus desde a eternidade? O resultado fatal causaria um estrago imenso: uma das principais plataformas do sistema tradicional sobre os membros da divindade, seria removida.

Observe não haver menção direta do Filho de Deus até chegarmos ao verso catorze, onde “A palavra se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”.

O fato de a palavra tornar-se o homem Jesus, o Filho de Deus, não necessariamente ou automaticamente implica que ele foi, literalmente, equivalente à palavra antes do seu nascimento. O que o texto quer dizer é que a palavra, a autoexpressão de Deus, se manifestou no homem Jesus, seu Filho: aquilo que era anunciado pelas terras de Israel “no princípio” do ministério de Jesus se fez real. Isso explica com muito bom senso o texto de João 1:14, o que também evita as terríveis complexidades nunca resolvidas da doutrina trinitariana. Na verdade, João está falando de um preexistente propósito divino, não uma segunda pessoa da divindade.

A declaração de palavra de Deus encontrou sua substância e realidade na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Antes de sua chegada, foi uma simples palavra ou promessa, mas quando ele se tornou manifesta, tornou-se uma pessoa. A pessoa não existia antes do nascimento do menino Jesus, mas a promessa e sabedoria de Deus sempre existiu. Isso significa dizer que Jesus também existia nos propósitos de Deus, mas não como uma pessoa.

João 1:1-5 é um resumo de todo o Evangelho, como veremos adiante; e, ao mesmo tempo, faz referência ao princípio do ministério de Cristo, ou seja, o tempo em que teve início a pregação da palavra de Deus pelas terras de Israel. É o princípio da Nova Criação. Além disso, observe os tempos de João Batista (vv 6-8) se desenrolando diante da nação de Israel — ele foi o profeta pelo qual o Senhor falou ao seu povo novamente depois de 400 anos de silêncio.

A tipologia de Gênesis sobre o “princípio”, inserida no verso 1 de João, requer outro princípio para a palavra correspondente de Deus. Esse princípio é o ministério de Jesus. Segue-se que a palavra se tornou carne, ou seja, Cristo veio para ficar no lugar da palavra criadora de Deus. O batismo de Cristo foi acompanhado por uma exibição teofânica com os céus abertos e o Espírito descendo como uma pomba e uma voz declarando Jesus como filho de Deus. O ‘sobre ele’ do Espírito (Mateus 3:16; Lucas 3:22) capta o motivo comum de o Espírito estar ‘sobre’ um indivíduo que , por sua vez, está associado à palavra de Deus. Observe que João só conheceu a verdadeira identidade de Jesus após ter visto a descida da pomba (v. 34), então, ele foi capaz de declarar que Jesus era o preferido antes dele. E note também quando ele diz que não o conhecia, apesar de serem parentes.

Deus profetizou que colocaria suas próprias palavras no Messias, e que ele falaria tudo o que Deus mandasse. As Escrituras apoiam a palavra de Deus vindo às pessoas e habitando nelas. Logo, não faz sentido dizer que um Jesus preexistente se tornou carne. Eu não acredito que a palavra de Deus se tornou carne de ninguém!

Como prova, eu cito Deuteronômio 18:18, cumprido em João 1:14: “Do meio de seus irmãos lhes suscitarei um profeta semelhante a ti; e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Deut 18:18). E de fato, Jesus falou as palavras de seu Pai, não suas próprias palavras.

Veja os textos:

João 7:15-18 “E os judeus maravilhavam-se, dizendo: Como sabe este letras, não as tendo aprendido? Jesus lhes respondeu, e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo. Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória; mas o que busca a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro, e não há nele injustiça

João 8:28 “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou”.

João 12: 49,50 “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito”.

João 14:10,24 “Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras… Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou”.

Você pode resumir estes textos — associando João 1:1-5, usando as palavras do escritor aos Hebreus: “De muitas e várias maneiras Deus falou aos nossos pais pelos profetas; mas nestes últimos dias ele falou conosco por Seu filho” (Heb 1:1-2).

O que vemos em João 1: 1 – 5 é um relato poético sobre as boas novas; fala da palavra que passou a ser anunciada no princípio do ministério de Jesus pelas terras de Israel. É o “princípio” de uma nova criação, um novo começo, o início da tão esperada restauração da Era Vindoura (cf. Mateus 19:28, Marcos 10:30, Lucas 22: 28-30 e Efésios 1:21).

É claro que uma sugestão como essa vai de encontro aos estilingues da nossa tradição indignada que brada: “então qual é a verdade destes textos, e como ele pode mostrar o caminho?”

É o que nós vamos ver …

Antes de dar início ao estudo, devo dizer que não creio que João, filho de Zebedeu, foi o escritor do evangelho que leva seu nome; muito provavelmente foi outro João. Mas esta é uma tarefa para ser tratada em artigo posterior.

Se desejar mais informações sobre o assunto, visite o site agrandecidade.com no artigo “O Discípulo Amado não é João”.

O Logos e o Mediador

No princípio era o logos/verbo” João 1:1

Logos tem uma ampla gama de significados. Porém, tudo pode ser resumido no significado central que é a mensagem falada, a Palavra. Logos é traduzido nas Escrituras como, aparência, livro, comando, conversação, eloqüência, lisonja, queixa, ouvido, instrução, matéria, mensagem, ministério, notícias, proposta, pergunta, razão, relatório, regra, rumor, disse, dizendo, frase, orador, discurso, histórias, falar, ensino e testemunho.

Qualquer bom léxico grego também mostrará essa ampla gama de significados – as palavras em itálico são traduções de logos:

  • Uma pergunta (Mt 21:24, “Eu também vos perguntarei”).
  • Uma declaração (Lucas 20:20, “para o apanharem nalguma palavra/declaração”).
  • A palavra (Rm 15:18, “para fazer obedientes os gentios pela palavra”).
  • Pregação (1 Timóteo 5:17, “aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino).
  • Mandamento/Palavra (Gl 5:14, “Toda a Lei se resume num só mandamento”).
  • Ditado (João 4:37, “nisto é verdadeiro o ditado, um semeia outro colhe”).
  • Mensagem (Lucas 4:32, “porque a sua mensagem era com autoridade”).
  • Discurso (João 6:60, “duro é este discurso, quem o pode ouvir?).
  • Assunto (Atos 15: 6, “Os apóstolos…se reuniram para examinar esse assunto”).
  • A revelação de Deus falada (Heb. 13: 7, “líderes que falaram a Palavra de Deus”).
  • Uma razão (Atos 10:29, “Pergunto, pois, por que razão mandastes chamar-me?”).

Com todas as definições e formas pelas quais logos pode ser traduzido, como podemos decidir que significado escolher para qualquer verso? Como se pode determinar o significado de logos em João 1: 1?

Qualquer ocorrência de logos deve ser cuidadosamente estudada em seu contexto para obter o significado apropriado. Portanto, podemos afirmar com certeza que logos em João 1: 1 não pode ser Jesus. Por favor, note que “Jesus Cristo” não é uma definição lexical de logos. Além disso, este versículo não diz: “No princípio era Jesus”.

“A Palavra” não é sinônimo de Jesus, ou mesmo “o Messias”. A palavra logos em João 1: 1 refere-se à autoexpressão criativa de Deus — Sua razão, propósitos e planos, especialmente quando são trazidos à ação, ou comunicação de Si mesmo. Isso aconteceu através de Sua criação (Rm 1.19 e 20), e especialmente dos céus (Salmos 19). Veio através da palavra falada dos profetas e através da Escritura, a Palavra escrita. Mais notavelmente e, finalmente, surgiu através do Seu Filho (Hb 1: 1 e 2).

A palavra logos, então, denotando “razão” e “fala”, era um termo filosófico adotado pelo judaísmo alexandrino antes de São Paulo escrever, para expressar a manifestação do Deus Invisível na criação e governo do mundo. Incluía todos os modos pelos quais Deus se dá a conhecer ao homem. Como Sua razão, denotou Seu propósito ou ‘design’; como seu discurso, implicou sua revelação, que culminou na promessa do Messias. Por esse motivo é que essa Palavra anunciada, ou promessa, tornou-se o homem Jesus Cristo.

O logos é a expressão de Deus e é Sua comunicação de Si mesmo, assim como uma “palavra” é uma expressão externa dos pensamentos de uma pessoa. Essa expressão externa de Deus ocorreu agora através de Seu Filho e, portanto, é perfeitamente compreensível por que Jesus é chamado de “Palavra”. Jesus é uma expressão exterior da razão, sabedoria, propósito e plano de Deus. Pela mesma razão, chamamos a revelação de “uma palavra de Deus” e a Bíblia “a Palavra de Deus”. Basta entendermos que logos é a expressão de Deus – Seu plano, propósitos, razão e sabedoria.

A maioria dos leitores judeus do Evangelho de João estaria familiarizado com o conceito de a “palavra” de Deus estar com Deus enquanto Ele trabalhava para trazer Sua criação à existência. E tenha em mente: os judeus eram ferozmente monoteístas e não acreditavam de forma alguma em um “Deus Trino”. Eles estavam familiarizados com os idiomas de sua própria língua e entendiam que a sabedoria e o poder de Deus estavam sendo personificados como “palavra”.

O logos, isto é, o plano, propósito e sabedoria de Deus, “se fez carne” (entrou em processo ou existência física) em Jesus Cristo. Jesus é a “imagem do Deus invisível” (Cl 1:15) e o seu principal emissário, representante e agente. Porque Jesus obedeceu perfeitamente ao Pai, ele representa tudo o que Deus pôde comunicar sobre si mesmo em uma pessoa humana. Como tal, Jesus poderia dizer: “Quem vê a mim, vê o Pai” (João 14: 9).

O fato de o logos tornar-se carne mostra que ele não existia antes. Não há preexistência para Jesus neste verso que não seja sua “existência” figurada como o plano, propósito ou sabedoria de Deus para a salvação do homem. O mesmo acontece com a “palavra” por escrito. Não tinha preexistência literal como um “livro-espírito” em algum lugar na eternidade passada, mas surgiu com Deus, que deu a revelação às pessoas e elas escreveram (Comentário em João 1:1).

No entanto, não se pode enfatizar demasiadamente que Cristo em pessoa era “a palavra”; ele era/é o plano de salvação de Deus por meio do qual a palavra foi anunciada. ‘Logos’ (“Palavra”) é frequentemente usado com relação ao evangelho sobre Cristo — por exemplo, “a palavra de Cristo” (Col 3:16; Mt 13:19; João 5:24; At 19:10; 1 Tes 1: 8).

Veja os textos:

Mateus 13: 19 “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho”.

João 5: 24 “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida”.

João 12:48 “Quem me rejeita, e não recebe as minhas palavras, já tem quem o julgue: a palavra que eu falei, essa o julgará no último dia”.

Atos 19:10 “E durou isto por espaço de dois anos; de tal maneira que todos os que habitavam na Ásia ouviram a palavra do Senhor Jesus, assim judeus como gregos”.

Colossenses 3:16 “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração”.

1 Tessalonicenses 1:8 “Porque por vós soou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou, de tal maneira que já dela não temos necessidade de falar coisa alguma”.

Observe que o ‘logos’ é sobre Cristo, ao invés dele pessoalmente. Quando Cristo iniciou seu ministério, esta “palavra” se transformou em carne e sangue — “a palavra se fez carne” (João 1:14). Ou seja, o que era anunciado apareceu. Ele, pessoalmente, se tornou “a palavra” porque passou, pela palavra, a construir um novo mundo, a nova criação.

O plano, ou mensagem sobre Cristo estava com Deus no início, mas foi abertamente revelado na pessoa de Seu filho e a pregação do evangelho sobre ele no primeiro século. Assim, Deus falou Sua palavra para nós através de Cristo (Heb 1: 1,2). Repetidamente, é enfatizado que Cristo falou as palavras de Deus e fez milagres na palavra de comando de Deus para nos revelar Deus (João 2:22; 3:34; 7:16; 10: 32,38; 14:10, 24).

A vida eterna só foi possível para o homem por meio da obra de Cristo (João 3:16; 6:53); contudo, no início, Deus tinha esse plano de oferecer vida eterna ao homem através do sacrifício que Jesus faria. A revelação plena dessa oferta só veio depois do nascimento e morte de Jesus: “Vida eterna, que Deus … prometeu antes que o mundo existisse; mas, no devido tempo, manifestou a Sua palavra por meio da pregação” (Tito 1: 2,3).

Na Bíblia Hebraica, a palavra de Deus é aquela que ele falou. A palavra de Deus cai em duas categorias principais: comandos, decretos, instruções, etc, como nestas passagens: Gn 1: 3; Num 3:51; 1 Sam 15:23; 1 Reis 12:24; 13: 9; 2 Crôn 34:21; Sal 33: 6; e declarações de seus propósitos pretendidos na forma de oráculos proféticos e promessas, como nestes versos: Gn 15: 4; 1 Reis 2:27; 16: 1-4; Jer 9: 20-22; Lam 2:17; Dan 9: 2. Outras categorias incluem palavras de repreensão e palavras de encorajamento. Note também que a palavra de Deus às vezes é personificada como um servo (Salmo 107: 19-20; 147: 15-18), mas nunca é apresentada como um ser pessoal literal.

Portanto, desde o princípio havia o logos (a razão, o plano, o poder), que estava com Deus. Não havia outro “deus” existindo com Deus. Além disso, o plano de Deus era parte do próprio Deus. O plano de Deus começou a tomar forma no ventre de Maria.

O Mediador

No prólogo de João, o propósito de Deus era trazer um homem por meio do qual Ele redimiria a humanidade. Ou seja, é Ele mesmo falando para a humanidade na pessoa do filho. Esse é o sentido de a ‘palavra’ estava com Deus’ (a frase grega é pros ton theon – significando mediação) e pode denotar que a palavra estava, como um servo, em uma postura para com Deus, pronta para cumprir suas ordens. A intenção de João é colocar Jesus como a palavra em uma posição paralela ao que Deus diz. Em outras palavras, para o trabalho da nova criação, Cristo mantém a posição da ‘palavra de Deus’ porque Deus fala através dele. Portanto, a nova criação está sendo criada por Deus Pai pela palavra falada por Cristo. Dessa forma é que uma pessoa pode estar no lugar da palavra falada de Deus e ser ‘a palavra’. Nesse sentido é que Cristo é a palavra de Deus citada em Apocalipse 19:13.

Em Gênesis, as palavras são ditas e produzem um efeito. Em João, é dito que a Palavra está com/em relação a Deus e também é Deus. As ideias de estar ‘com Deus’ e ‘era Deus’ são detalhes adicionais não encontrados em Gênesis. É importante ver que esses detalhes são um complemento, porque o texto fundiu o ensino de Gênesis com João. O tom subjacente ao grego de ‘com Deus’ é intercessão e sacerdócio, e é por isso que é preferível traduzir a frase como ‘o Verbo estava voltado para Deus’. Porque a palavra passou a ser uma pessoa em “a palavra se fez carne”. Falarei sobre isso mais adiante.

A menção da Palavra que “estava com Deus”, e também “como Deus – era Deus”, tem sido motivo de controvérsia. Alguns veem neste texto uma menção a uma pluralidade na divindade; outros veem uma afirmação da divindade essencial de Cristo. Contudo, esse duplo aspecto de Cristo, como ‘em direção a Deus – e ser Deus’, é baseado em Moisés, que era um homem ‘em direção a Deus e agia no lugar de Deus’. Veja Êxodo 4:16: “Tu, pois, lhe falarás, e porás as palavras na sua boca; e eu serei com a tua boca e com a dele, e vos ensinarei o que haveis de fazer. E ele falará por ti ao povo; assim ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus” (compare com Zacarias 12: 8; por uma razão semelhante o título ‘Deus’ foi aplicado à casa de Davi).

A tipologia em João dá a mesma ideia encontrada em Êxodo. Ou seja, “a Palavra era Deus (depois que se tornou carne) por que Deus falava através de Jesus. Jesus foi o porta-voz de Deus ao povo, como Moisés. O tipo é forjado pela posição de Moisés como Deus: “… você deve ser para ele como Deus…”. A palavra grega πρόςpros (em Inglês with: com em português) do primeiro versículo de João é a mesma palavra usada em Êxodo 4:16 envolvendo Moisés como mediador entre Arão e Faraó. A versão inglesa NETS traduz a última parte de Êxodo 4:16 da seguinte forma: “Mas sereis para ele (para Arão) nas coisas que pertencem a Deus”.

O texto diz que Moisés seria usado no lugar de Deus para Arão. A tradução transmitiu o significado da preposição pro de forma perfeita. Assim como João 1: 1, temos o verbo estático “estar” com o significando de “no lugar de”. Portanto, dizer que “O Verbo estava com Deus” não significa que ele estava com Deus no princípio de Gênesis, mas sim que ele “estava com Deus como intermediário” entre Deus e os homens lhes transmitindo a mensagem de Deus. É uma sensação de ‘estar ao lado’ ou ‘estar na companhia de alguém’ como em ‘estava com Deus’.

Isso não deve nos surpreender, pois é uma característica da Escritura de que os textos costumam levar alusões a muitos lugares. Um mediador pode criar, cumprir os mandamentos de Deus e trazer ordem ao caos, como fez Moisés. Assim, concluímos que João não está afirmando que Jesus é Deus, mas que ele fala no lugar de Deus em relação a nova criação. Por isso, posteriormente, são usadas frases do tipo, “quem vê o filho, vê o Pai”, “eu e o Pai somos um”, “Deus conosco” e similares.

Deus estava realizando sua nova criação através da palavra de Jesus. E, de fato, veremos que Jesus está envolvido, porque é uma criação de novos homens e mulheres nele (2 Cor 5:17; Gal 6:15; Ef 2:10; 4:24; Col 3:10; Tg 1:18; 1 Ped 1:23), sendo aqueles que nasceram, não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1: 12,13). É verdade, pois Tiago aponta O Pai como Criador nesta criação: “Segundo a sua (de Deus) própria vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para sermos como que primícias das suas (novas) criaturas” (Tiago 1:18).

O Verbo se fez Carne

E a palavra (verbo/logos) se fez carne e habitou entre nós, e vimos a Sua glória na pessoa do filho, cheio de graça e de verdade” (João 1:14).

Estas palavras anunciam a chegada do Messias. A palavra “anunciada” aqui traduz o substantivo grego logos, que também vem do verbo legein, que significa “dizer” ou “falar”. E no princípio do ministério de Jesus era apenas a palavra, o anúncio, a mensagem; tudo pode ser traduzido como Logos.

A palavra sobre a vinda do Messias começou a ser anunciada de forma mais crescente em toda Judeia. Em seguida, o que aconteceu pode ser resumido da seguinte forma: “a mensagem se fez carne”. Ou seja, o que era anunciado ficou visível: Jesus, o Salvador. Isso é João 1:1-14 sem complicações.

A afirmação no versículo 14, portanto, de que “o verbo se fez carne e habitou entre nós”, deve significar que “a palavra/promessa foi cumprida na pessoa de Cristo”, e pertence a história de João Batista e da recepção do Messias, embora as notícias estivessem sendo anunciadas desde o nascimento do Salvador. João Batista explica sua própria missão nas palavras de Isaías 40: 3: “Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías” (Jo 1: 23).

É claro, se alguém deu o primeiro passo falso ao assumir que a “palavra” no princípio (da criação original) era “o filho”, então a frase “a palavra era Deus” só pode confirmar a impressão de que há dois membros da divindade e que ambos são Deus. Por mais problemática e ilógica que seja essa afirmação de uma dualidade em Deus, milhões de leitores da Bíblia foram condicionados a dar esse salto arriscado, apesar de Jesus e Paulo demonstrarem em outros lugares serem crentes no monoteísmo, a grande herança judaica.

Dirigindo-se ao Pai, Jesus diz: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17: 3). Ele se refere novamente ao Pai como o único Deus: “Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem do único Deus?” (João 5:44).

Estes são ecos do monoteísmo puro da Bíblia hebraica. Deus permanece no Novo Testamento como “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Pd 1:3) e não Deus do Deus Jesus Cristo. Deus não pode ser pai de Deus. Além disso, nós só temos um Pai no céu, não dois. Malaquias atesta: “Não temos todos um só pai? Não nos criou um só Deus?” (Malaquias 2:10). Quão maravilhosamente isso se harmoniza com a grande declaração do credo de Paulo: “… não há outro Deus, senão um só” (1 Cor 8:4). Em Romanos 16:27 ele separa Jesus do único Deus: “ao único Deus, sábio, seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém”.

As coisas que aconteceram na história do evangelho, que o escritor está prestes a relatar, como consequência da obediência diligente do Filho, devem, portanto, ser entendidas como constituindo um novo período de atividade de criação divina, o começo de um novo mundo. A intenção criativa de Deus assumiu carne na pessoa de Jesus, a fim de trazer uma nova criação que significaria a vida da era vindoura para aqueles que acreditavam.

Princípio das boas novas – não da criação de Gênesis

Os escritores do Novo Testamento retratam claramente o ministério de Jesus começando com o batismo de João, como o início da Boa Nova e o iminente estabelecimento do Reino de Deus. Marcos abre seu evangelho com as palavras “o princípio do Evangelho de Jesus Cristo”. Lucas abre seu evangelho referindo-se ao princípio do ministério da Palavra e sua declaração de abertura no Livro de Atos se refere ao seu evangelho como “tudo o que Jesus começou a fazer e ensinar”. E em sua primeira epístola, João se refere à palavra como o que eles ouviram desde o princípio.

João usa as palavras princípio, palavra, luz e veio a ser, não porque ele descreve a criação original do universo, mas porque ele descreve o mesmo Deus de Gênesis criando um novo princípio através das suas promessas.

Observe como nossas versões apresentam João 1:1,2: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus”. Outra versão substitui verbo por palavra: “No princípio era a palavra, e a palavra estava com Deus, e a palavra era Deus. Ela estava no princípio com Deus”.

A interpretação comumente aceita da passagem fornece um suporte vital para a doutrina tradicional trinitariana da divindade, compartilhada igualmente por Pai e Filho desde a eternidade. A Versão Inglesa Contemporânea vai muito além do grego, e nos dá: “A Palavra era Aquele que estava com Deus”. Sem dúvida, de acordo com essa versão, essa palavra significa um filho eterno, embora seja um erro fatal. O texto lê “no princípio era a palavra” não “no princípio era o filho”.

O verso três diz: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”. Isso não deve significar que Jesus estava com Deus na criação em Gênesis (Veja meu artigo “TUDO foi criado por Ele”. É um comentário extenso sobre Colossenses 1:16,17).

O fluxo da narrativa não para no verso três. Leia novamente os cinco versículos da introdução do Livro de João:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

Ele estava no princípio com Deus.

Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens;

A luz resplandeceu nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (João 1:1-5).

O Prólogo do evangelho de João é quase inteiramente narrado no pretérito. Os verbos apontam para eventos ocorridos no passado, no princípio, mas não o de Gênesis. Note os itálicos: “era o verbo”, “estava com Deus”, “coisas foram feitas por ele”, “O verbo era Deus”, “e sem ele nada do que foi feito se fez”. No entanto, os dois versos imediatamente posteriores são apresentados no mesmo formato: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz resplandeceu nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. Como poderíamos localizar estes eventos na criação original? Os versículos 4 e 5 completam a narrativa anterior, a mesma narrativa que os trinitarianos entendem ser uma alusão ao princípio em Gênesis. Nestes dois versos os verbos também estão no passado: “nele estava a vida”, “a vida era a luz dos homens”, “a luz resplandeceu nas trevas”, “as trevas não a compreenderam”.

A sequência no uso dos verbos para indicar um só evento não foi interrompida no verso três, mas se completa com os versículos quatro e cinco. Veja novamente o verso quatro: “nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens”.

Está claro que o escritor narra fatos ocorridos aqui na terra. O contexto deve ser lido e entendido com a finalidade de apresentar eventos para uma época apenas: “coisas que foram realizadas entre nós”, no princípio do ministério de Jesus e não o princípio da criação narrada em Gênesis.

Na verdade, a palavra princípio, em “no princípio era a palavra”, faz alusão ao tempo que Deus veio novamente, depois de um longo silêncio, falar ao seu povo. Deus trouxe Sua palavra no princípio, o princípio da nova criação, que teve início com o ministério de Jesus.

O Princípio em Marcos

Princípio do Evangelho (Boas Novas) de Jesus Cristo, Filho de Deus. Como está escrito nos profetas: eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti. Voz do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas. Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados” (Marcos 1:1-4).

O impasse é muito fácil de solucionar; note que Marcos simplifica João – eles falam a mesma coisa; João: “no princípio era a palavra”. Marcos: “princípio das Boas Novas”.

O motivo dessa interpretação é visto logo após o contexto antecedente (“no princípio era a palavra”) quando menciona a aparição de João Batista: “Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João” (João 1: 6). Portanto, no princípio havia notícias se espalhando sobre a vinda do Messias – note que a “Palavra de Deus” veio a João Batista (Lucas 3: 2). Compare isso com “Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti… Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento“.

Os paralelos entre o evangelho de Marcos e João 1: 6 são claramente óbvios. O evangelho de Marcos apoia ainda mais essa tradução do logos como significando “a palavra falada em toda parte no princípio” — sendo ecos de “no princípio era a Palavra”, pois em Marcos 1: 5 diz: “E toda a província da Judeia e os de Jerusalém iam ter com João Batista”. Obviamente podemos dizer que isso significa a palavra/notícia espalhada por todos os lugares.

O aparecimento de João Batista no evangelho de João e no evangelho de Marcos é uma evidência clara que João descreve o mesmo princípio que em Marcos. Ora, por que João Batista recebe tanto destaque nas duas introduções quando seu lugar nos quatro evangelhos como um todo não tem destaque semelhante? É porque ele não é outro senão o arauto da vinda do Senhor! Isto foi predito por Isaías: “Eis a voz do que clama: preparai no deserto o caminho do Senhor; endireitai no ermo uma estrada para o nosso Deus. Todo vale será levantado, e será abatido todo monte e todo outeiro; e o terreno acidentado será nivelado, e o que é escabroso, aplanado. A glória do Senhor se revelará; e toda a carne juntamente a verá; pois a boca do Senhor o disse” (Isaías 40:3-5). João Batista confirma que o profeta falava dele: “Respondeu ele: Eu sou a voz do que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías” (João 1:23).

Todos os quatro evangelhos citam Isaías (Mat 3: 3; Mc 1: 3; Luc 3: 4; João 1: 23) e estão unidos ao declarar que a profecia de Isaías foi cumprida pela vinda do Senhor ao mundo em Cristo.

A introdução do evangelho de João está em formato poético. É valioso observar que nos cinco versículos ele abrange toda a caminhada de Jesus, desde o princípio até o fim.

Leia outra vez com isso em mente: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz resplandeceu nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (João 1:1-5). Isso é um resumo da chegada do Messias até sua assunção ao céu. Infelizmente ele subiu rejeitado pela nação de Israel. Em seguida, o fluxo da poesia é interrompida para dar início aos eventos. Ou seja, o escritor volta ao princípio da história através de João Batista, o condutor da palavra. O que quero dizer é que o momento em que acontece João 1:1 (“no princípio era a Palavra”), pode estar falando da pregação de João Batista, “a voz que clama no deserto, anunciando o caminho do Senhor”.

Repare nas semelhanças entre Marcos e João. Marcos introduz João Batista logo após dizer: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. Veja: “Eis que envio ante a tua face a meu mensageiro, que há de preparar o caminho do Senhor”.

João introduz João Batista logo após seu prefácio: “Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João”. Os dois fazem referência ao mesmo princípio, o princípio do ministério do Messias. Além disso, a New American Standard, numa nota de rodapé, traduziu lógou, literalmente do grego em João, como “evangelho” e não como “palavra”. Isso deveria estabelecer e acabar com qualquer disputa sobre o significado de João 1: 1.

As evidências do contexto apontam para o princípio do evangelho de Jesus Cristo, aqui começando com a mensagem de arrependimento pregada pela primeira vez por João Batista, um precursor do Messias.

O Princípio em Lucas

Lucas também faz alusão ao princípio: “Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio” (Lucas 1:1-3).

Lucas usa a expressão “no princípio” para recuar até o nascimento de João Batista, o que é muito revelador e significativo, pois está dando ênfase ao ministério daquele que veio preparar o caminho do Senhor. Neste caso, obviamente devemos entender o “desde o princípio” em Lucas como referência à fatos ocorridos entre os judeus, também incluindo o ministério de Jesus.

“… desde o princípio, deve significar, desde o tempo em que Cristo começou a proclamar as boas novas do reino; e αυτοπται , testemunhas oculares, devem necessariamente significar aqueles que estiveram com ele desde o início e, consequentemente, tiveram as melhores oportunidades de saber a verdade de cada fato” (Adam Clark comentary – Luke 1:2)

O Princípio na Primeira Epístola de João

A primeira epístola de João, que parece mais uma réplica do início do Quarto Evangelho, diz: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (1 João 1:1).

A expressão ‘desde o princípio’ ocorre dez vezes nas pequenas cartas de João. Foi usado aqui em 1:1 em conexão com a “Palavra da vida”, que foi ouvido e visto: “que vimos com os nossos olhos … as nossas mãos tocaram … no princípio”.

Todos eles estão tratando do mesmo princípio:

“No princípio era a palavra …” João 1: 1.

“O princípio das Boas Novas …” Marcos 1: 1.

“Desde o princípio … ministros da palavra …” Lucas 1: 1.

“No princípio… a Palavra da vida…” 1 João 1: 1.

Observamos que Lucas é o escritor do evangelho que estava preocupado em enfatizar que ele tinha inquirido aqueles que “desde o princípio eram testemunhas oculares e ministros da palavra“ (Lucas 1: 2). Marcos também inicia seu evangelho com a palavra “princípio”. Até Mateus não deixa de ter seu conceito de “começo” quando ele abre seu evangelho com uma ‘genealogia’ ou ‘o princípio’ (genesi) de Jesus Cristo. Todos os três sinóticos abrem seus evangelhos com Jesus — registrando eventos da sua vida entre nós. João seria uma exceção e teria aberto com Gênesis?

Os apóstolos tinham claramente a convicção de que a pregação da palavra começou em um determinado momento: “A palavra que ele enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo (este é o Senhor de todos); esta palavra, vós bem sabeis, veio por toda a Judeia, começando pela Galileia, depois do batismo que João pregou” (Atos 10:36,37).

Olhando através do NT, obviamente existe uma consciência predominante de um novo princípio no propósito de Deus em João 1:1-5. É um prólogo em si, um resumo da história da salvação, como vimos.

Todo o contexto do capítulo 1 de João envolve Jesus e João Batista. Isso requer que a Palavra e João Batista sejam contemporâneos e proporcionais. Não faz sentido comparar uma hipóstase divina em um ponto de existência no início de Gênesis com um homem por volta de 30 dC. Para que? Qual seria a finalidade?

Todo o contexto é sobre o Messias sendo anunciado pelas terras de Israel no princípio; o princípio de seu ministério alcançando todo evangelho: as boas novas da nova criação. Essa é a intenção de João 1:1-5. Absolutamente nada no texto nos faria pensar que Deus estava em companhia de Jesus na criação do Céu e da Terra.

Quando João escreve as palavras gregas, “En archeé eén ho logos” é melhor traduzido: “No princípio as notícias eram ditas {em toda parte}. Isto é “a palavra que no princípio pairava sobre face das terras de Israel”.

Muitos estudiosos do texto bíblico entendem “a palavra”, no prólogo de João, como uma referência ao propósito declarado de Deus de redimir a humanidade da morte. Este propósito de Deus teria sido declarado por Deus ‘desde o princípio’, isto é, o princípio da história redentora. Deus revelava seu plano de redimir a humanidade no Messias. Citam Paulo: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2 Cor 5:19). E também Gênesis 3:15: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Pedro e Apocalipse são duas fontes interessantes. Veja 1 Pedro 1:20: “(Jesus) O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós”. Agora Apocalipse 13:8: “ … o livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”. Nesse caso, João 1:1 poderia ser lido assim “No princípio da fundação do mundo era a palavra/promessa”. Essa é uma das muitas interpretações alternativas que removem Jesus da criação em Gênesis!

Portanto, é suficiente pensar em “palavra” como o enunciado de Deus, não Seu Filho antes da geração do Filho de Maria. Neste modelo, o Filho é, na verdade, o que a palavra tornou-se. O Filho não preexistia como Filho. O Filho é a expressão humana visível do propósito preordenado de Deus. Não houve Filho de Deus até que o Messias foi concebido na história. Antes Deus teve Seu Projeto e Plano “com Ele”, como a base de toda a Sua intenção para a criação e para a humanidade. Por esse entendimento, o Messias é realmente um ser humano, um estatuto que não pode ser invocado para ele se ele existia desde antes de Gênesis!

O significado de “archeé” em João 1

Para determinar o período de tempo mencionado em João 1:1 é preciso entender o significado da palavra grega traduzida como início (ou seja, “no princípio …”). A palavra grega para princípio é archeé. Esta palavra é semelhante a mesma palavra cognata de onde vem a palavra “arcanjo”. Um arcanjo é, por definição, um mensageiro chefe. Esta palavra grega tem uma ampla gama de definições e aplicações e somente o contexto determina o uso correto. Essa palavra pode se referir ao começo de qualquer coisa e é lamentável que os tradutores da Bíblia se sentissem limitados em seu uso e aplicação. Isso acontece quando a teologia interfere na capacidade de tradução de uma pessoa.

Para ilustrar como archeé é usado em outras partes do evangelho de João como referência ao ministério de Jesus, vamos ao texto de João 6:64 que contém uma chave importante: “Pois Jesus sabia desde o princípio (archeé) quem dentre eles não acreditavam e quem era que o trairia”. Neste texto, “desde o princípio”, descreve apropriadamente o “princípio” de seu ministério como o Cristo.

No evangelho de Marcos, como vimos, encontramos uma aplicação idêntica de archeé com associação direta ao início do evangelho de Cristo (anunciador das boas novas): Marcos 1: 1-5: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”.

O escritor do Quarto Evangelho continua seu uso de archeé apenas alguns versos depois, nos quais ele escreve sobre o início do primeiro milagre de Cristo em Caná da Galileia: “Jesus principiou assim os seus sinais em Caná da Galileia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele”, João 2:11.

Devo ressaltar que não estou dizendo que archeé nunca tenha implicações para o começo mencionado em Gênesis. A palavra pode ser usada para o princípio de Gênesis, mas não a de João 1:1.

Observe que Jesus acrescenta um forte argumento como prova de que archeé em João 1: 1 é o começo de seu ministério quando ele menciona sobre a promessa de retornar como o Parakletos em João 15:27 e 16: 3-4. Ele fala em João 15:27: “E vós também testificareis, pois estivestes comigo desde o princípio”. Em João 16: 3-4 ele torna a dizer: “E isto vos farão, porque não conheceram ao Pai nem a mim. Mas tenho-vos dito isto, a fim de que, quando chegar àquela hora, vos lembreis de que já vo-lo tinha dito. E eu não vos disse isto desde o princípio, porque estava convosco”.

Outros autores do NT também usam archeé para indicar o princípio de algo que ocorreu entre eles, como quando Pedro descreve o “princípio” como o dia de Pentecostes, quando os discípulos receberam o Espírito Santo (Atos 11:15). Paulo usa archeé para descrever seu modo de vida como judeu praticante em Atos 26: 4; essa interpretação é um forte apoio para a mesma tradução de archeé em João 1: 1. Atos 26: 4 diz, “Quanto à minha vida, desde a mocidade, como decorreu desde o princípio entre os da minha nação, em Jerusalém, todos os judeus a conhecem, sabendo de mim desde o princípio (se o quiserem testificar), que, conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu”.

Portanto, “no princípio era a palavra…” é uma referência ao princípio das boas novas, o princípio da nova criação, quando os rumores do tão esperado Messias se espalharam pelas aldeias rurais, vilas e cidades. João não diz que Jesus é preexistente e criador do mundo, embora essa conclusão ainda possa ser alcançada por um longo desvio. Não há antecedentes para a eternidade na palavra princípio. A palavra princípio deve ser entendida considerando o contexto, pois a matéria de João está tratando do evangelho ou as coisas transacionais sob o evangelho.

O notável comentarista bíblico F.F Bruce defende esta interpretação: “Não é por acaso que o Evangelho começa com a mesma frase do Livro de Gênesis. Em Gênesis 1:1, “no princípio”, introduz a história da velha criação; aqui, ele apresenta a história da nova criação. Em ambas as obras da criação, o agente é a Palavra de Deus” (F.F Bruce, The gospel of John, pp. 28,29).

Em um dos livros de N.T. Wright sobre teologia paulina, ele argumenta que, “para Paulo, a morte e ressurreição de Cristo não apenas marcou a derrota decisiva do pecado e da morte, mas também realizou nada menos do que o lançamento da tão esperada renovação da criação por Deus” (N.T. Wright, “Paul: In Fresh Perspective” (Paulo: Em nova perspectiva). Minneapolis, MN: Fortress Press, 2009, p 38). E ainda: “A nova criação foi inaugurada, mas ainda não foi consumada” (p 137).

Outro atesta: “Os sinais do Evangelho devem ser entendidos … como um prenúncio desta glória e uma participação antecipada na nova vida que há de vir” (“The Gospel of John and Christian Theology” (O Evangelho de João e a Teologia Cristã). Richard Bauckham and Carl Mosser, 295-310. Grand Rapids, p 303).

A obra de Jesus é a obra da nova criação. E aqui, no evangelho de João a noção de criação deve ser amplamente concebida. A criação inclui a consumação de tudo e abrange, portanto, o que pode ser chamado de redenção total. Não apenas para a vida ficar infinitamente confinada neste mundo – não é a mera existência nessa vida. É, sim, “vida eterna”, vida em sua plenitude – aquela forma de vida que é a consumação da obra criativa de Deus.

Aguarde! Ele vai voltar para buscar os seus: “… Cristo, oferecendo-se uma só vez para levar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação” (Hebreus 9:28).

Entendendo Hebreus 1:1,2

O escritor aos Hebreus desmistifica àquilo que foi equivocadamente o entendimento de milhões de cristãos, derrubando a teoria dos contextos que foram interpretados como sendo registros da criação do Gênesis. Ele fala da nova criação: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo” (Heb 1:1,2).

Uma olhada rápida na concordância de Strong ou em uma Bíblia ‘on-line’ descobrimos que a palavra grega para “por quem” seria melhor traduzida por “para quem”, que está de acordo com a posição de herdeiro. Mas o foco principal é por quem Deus falou, que foi Seu Filho, aquele que os trinitarianos dizem que também criou o Universo. No entanto, o escritor não trata da criação em Gênesis, mas da era por vir. É o que ele confirma no capítulo seguinte: “Pois não foi a anjos que sujeitou o mundo que há de vir, sobre o qual estamos falando” (Heb 2:5). E de fato, pois aion, [“mundo”, verso 1] significa ‘as eras’ ou ‘uma era’. Em quase todos os casos em que a palavra aion ocorre no Novo Testamento não significa “o planeta físico, a terra”, mas sim a “era por vir”. Em Efésios 2: 7 lemos sobre “as eras vindouras” — é a palavra aion usada novamente.

Apenas alguns versos após Hebreus 1: 2, lemos que o filho reinará “para os aions e os aions”, ou, “para todo o sempre” (Hebreus 1: 8). Certamente a mensagem combinada é que as eras/aions existem apenas por causa de Cristo, e Ele governará sobre todos os futuros aions, o “aion para vir” [“o mundo vindouro”, Heb 6: 5]. O aion por vir é a eternidade do Reino de Deus. Será, em linguagem um tanto hiperbólica, uma eternidade de eternidades. Mais tarde, em Hebreus, lemos que Jesus fez o sacrifício pelo pecado “na consumação dos séculos/aiōnōn” (Hb 9:26). Essa é uma prova clara de que a palavra não se refere ao planeta físico. Portanto, em Hebreus 1:1,2 não há nenhuma alegação de que o Filho estava na criação do Universo com o Pai, ou que ele era uma “pessoa eterna” dentro da divindade.

O escritor está fazendo referência ao mundo por vir. Jesus é o criador deste novo mundo por vir. Os redimidos são descritos como uma nova criação e Cristo nosso criador. O que nos espera é “novos céus e uma nova terra”, onde habitará a justiça.

Da mesma forma, quando o escritor do Quarto Evangelho alega que “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”, (João 1:3) ele está falando da nova criação. Paulo concorda quando diz que “Deus tudo criou por meio de Jesus Cristo” (Efésios 3:9). E continua: “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele” (Colossenses 1:16).

A especificação do escritor do evangelho de João é a mesma que a de Paulo — todas as coisas foram feitas por Deus através de Jesus. Esta abordagem é confirmada pela frase “sem ele nada do que foi feito se fez” (João 1: 3).

Como visto, o Prólogo do Evangelho de João não trata da Criação em Gênesis, não mostra Jesus como criador e nem afirma que ele é preexistente — é um erro de interpretação que tem enganado toda a cristandade.

A Deus toda Glória

Cristo estava nos Profetas?

Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir”, 1 Pedro 1:10, 11.

No versículo 10, Pedro nos revela que os profetas do Antigo Testamento que escreveram sobre a salvação vindoura pela graça de Deus não a compreenderam completamente. Eles pesquisaram e fizeram perguntas sobre isso.

Ele continua a frase no versículo 11: Os profetas queriam conhecer a “quem” e “quando” o Espírito de Cristo se referia à medida que eles eram direcionados para escrever as palavras de suas profecias. Quem seria a pessoa que traria essa salvação, o Cristo que sofreria e depois seria glorificado? E quando isso aconteceria? Os capítulos 11 e 53 de Isaías são exemplos dessas profecias.

No versículo 12, Pedro nos dá a resposta que receberam, mas o versículo 11 é importante. É uma declaração clara de que os profetas do Antigo Testamento não estavam escrevendo suas próprias ideias – O Espírito Santo os dirigia enquanto escreveram as próprias palavras de Deus. É uma verdade que Pedro indicará ainda mais claramente em 1 Pedro 1: 21: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”.

Pedro não faz menção à preexistência de Cristo.  Os fatos contextuais nos mostram também que o Espírito de Cristo “neles” se refere ao que esperavam, o Messias prometido e profetizado desde  Gênesis 3:15.   Ou seja, o “Espírito de Cristo que neles estava” não era Cristo neles de forma literal como um ser preexistente.  Não significava o espírito de Cristo como nova criatura ou um Jesus que existia antes de descer a terra.

Necessário aqui lembrar que o Espírito Santo, que foi dado a Jesus pela primeira vez no Jordão, nunca foi dado a ninguém antes da sua glorificação, isto é, não antes do Pentecostes (João 7: 39). Aqui em 1 Pedro 1: 11 a expressão deve significar, evidentemente, outra coisa, ou seja, o poder de revelação profética concedido aos profetas pelo próprio Deus sobre o Messias. Neste caso, Pedro aplicaria o termo “espírito de Cristo” de maneira retrospectiva a esses profetas.

Esses profetas estavam investigando o que, ou o tempo em que o Messias apareceria, e ao mesmo tempo estavam testemunhando de antemão os sofrimentos de Cristo e as glórias a seguir. Parafraseando isso de forma diferente, enquanto esses profetas procuraram conhecer muitas coisas sobre o Messias, o que realmente lhes foi revelado era o sofrimento que o Messias devia suportar e as glórias a seguir.

Também não devemos pensar que Pedro estava dizendo que os profetas entendiam plenamente o que estava sendo falado através deles. Todos profetizaram sobre o Messias vindouro, mas a manifestação não era para eles, mas para os apóstolos a quem o espírito da verdade havia sido dado, pelo qual foram conduzidos a toda verdade. Veja o verso 12: “Aos quais (aos profetas) foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar”.

Uma leitura mais atenta do versículo 11, e uma breve revisão do contexto imediato revela a verdade do assunto: “Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir”. Pedro descreve como os profetas profetizaram o futuro Cristo. Basta observar como ele se refere aos sofrimentos de Cristo e as glórias que se seguiram, uma referência a um futuro ser humano (Isaías 53). E neste contexto, o termo “Espírito de Cristo” refere-se a como o Espírito Santo revelou Cristo a eles, isto é, o que aconteceria no futuro em relação a Cristo. Na verdade, nas antigas profecias, Deus prometeu um Salvador que sofreria e depois seria glorificado. A vida, a morte e a ressurreição de Jesus realizaram as profecias.

Por outro lado, a expressão “espírito de Cristo” nunca aparece no Antigo Testamento. O “espírito do Senhor” ou “o espírito de Deus” aparece uma multidão de vezes, mas nunca o “espírito de Cristo”.

O espírito que Deus coloca sobre as pessoas assume nomes diferentes, pois se refere a diferentes funções. Isso pode ser comprovado. No entanto, o espírito é o mesmo. Deus sempre dá o Seu espírito, e então ele é nomeado como funciona. Quando está associada à sabedoria, é chamado de “espírito de sabedoria” (Ex 28: 3; Deut 34: 9; Efésios 1:17). Quando é associada à graça, é chamado de “espírito de graça” (Zac 12: 10; Heb 10:29). Quando está relacionado à glória, é chamado de “espírito de glória” (1 Pedro 4:14).

É chamado de “espírito de adoção” quando está associado à nossa vida eterna (Romanos 8:15, que é traduzido como “espírito de filiação” em algumas versões). É chamado “o espírito da verdade” quando está associado com a verdade que aprendemos pela revelação (João 14:17; 16:13). Estes não são espíritos diferentes. Efésios 4: 4 afirma claramente que há “um espírito” e esse espírito vinha com poder sobre alguns profetas no VT, revelando através de profecias que tomavam a forma escrita ou vinha através de poder dando autoridade para eles em ocasiões oportunas, e em nós hoje é concedido como dom permanente segundo a necessidade de cada um.

É errado ver 1 Pedro 1:11 como prova de que Jesus era aquele a quem Deus usava no Antigo Testamento para falar com os profetas; a Escritura não diz isso. Quem assim ensina deve antes considerar Hebreus 1: 1,2.

Quando Pedro menciona que “o espírito de Cristo” era sobre os profetas, porque “previam os sofrimentos de Cristo e a glória que seguiria”, não devemos entender que Cristo realmente existia como um ser divino durante o Antigo Testamento.

 

 

 

“Sem princípio… nem fim de Vida”

PORQUE este Melquisedeque, que era rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo… Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre” Hebreus 7:1-3.

Melquisedeque era “sem mãe, sem pai, sem descendência”, ou como a tradução de Phillips diz: “Ele não tinha pai nem mãe nem árvore genealógica?”

Ele não nasceu como os outros seres humanos? Ele realmente não teve pai e nem mãe? Isso significa que os registros de nascimento de Melquisedeque foram perdidos? Sem tais registros, os sacerdotes humanos não poderiam servir (Esdras 2:62). Então, como ele serviu? Mas, se Melquisedeque não tivesse genealogia, ele não deveria ter sido um mortal comum. Se ele não tinha descendência então era auto-existente? Note o que o escritor de Hebreus diz: “Não tendo princípio de dias nem fim de vida” (Hebreus 7: 3). O que há de errado?

No entanto, Melquisedeque não pode ser Deus o Pai, pois ele era o “sacerdote do Deus Altíssimo” (Gn 14:18). E mais, diz que os Sumos Sacerdotes são “tomados dentre os homens” (Hb 5:1). Além disso, as Escrituras dizem que nenhum homem jamais viu a Deus (João 1:18, 5:37), mas Abraão viu Melquisedeque. Ele não pode ser Deus o Pai, mas sim “feito semelhante ao Filho de Deus; permanece sacerdote continuamente” (Hebreus 7: 3).

E ai está! Nos dias de Abraão, Melquisedeque não podia de forma alguma ser o Filho de Deus, pois Jesus ainda não havia nascido da virgem Maria. E, se alguém entende que a manifestação de Melquisedeque era uma teofonia do Senhor Jesus (Uma teofania é um ensinamento ou uma TEORIA de que um Deus “pré-encarnado”, o Filho, desceu do céu durante os tempos do Antigo Testamento e apareceu em diferentes formas) então deve admitir que o Verbo se fez carne várias vezes nos tempos do Velho Pacto.

O escritor de Hebreus usa este incidente de Melquisedeque (junto com uma profecia do Salmo 110), para demonstrar a superioridade do sacerdócio de Cristo à do sistema levítico (Hb 7: 4-10). Além disso, havia algumas semelhanças entre Melquisedeque e Cristo, de modo que se pode dizer que o primeiro era um “tipo” (uma imagem ou pré-visualização simbólica) de Jesus. Isso não significa, no entanto, que eles eram a mesma pessoa. De fato, o texto sagrado indica o contrário. Foi dito que Cristo era um sacerdote “da ordem de Melquisedeque” (Hb 5: 6,10; 6:20; 7:11). O termo grego para a palavra “ordem” sugere um “arranjo” similar. Por exemplo, assim como Melquisedeque era tanto um rei quanto um sacerdote simultaneamente, assim também Cristo é (cf Zc 6: 12-13; Hb 1: 3).

Melquisedeque foi “sem pai, sem mãe” (Hb 7: 3a). O significado é o seguinte: seu papel divino não foi derivado genealogicamente, nem transmitido de seus pais. Assim, nem o sacerdócio de Jesus foi determinado por uma linhagem física, como no caso dos sacerdotes levitas. De fato, no texto, Melquisedeque difere dos sacerdotes levíticos, pois nada é dito sobre seu nascimento, ascendência ou vida subsequente. Não devemos concluir que o escritor pensava que Melquisedeque era literalmente uma figura eterna – e certamente não que ele fosse algum tipo de pré-encarnação de Jesus. Melquisedeque é comparado ao Filho de Deus, no sentido específico de que ele “permanece um sacerdote para sempre”. Sabemos sobre os pais de Jesus, conhecemos as genealogias, sabemos que ele era descendente de Davi segundo a carne (cf. Rm 1: 3). No que diz respeito ao seu passado, ele não é como Melquisedeque.

Jesus foi “designado” sumo sacerdote por Deus porque “aprendeu a obediência pelo que sofreu” e foi “aperfeiçoado” (Hb 5: 8-10). Isso não faz sentido algum se Jesus, como algum tipo de sumo sacerdote eterno, já era Deus. Jesus se torna um sacerdote através do poder da ressurreição, pelo poder de uma “vida sem fim” (Hb 7:16). Ele foi apontado como sumo sacerdote (Hb 5: 5). Ele não era um sumo sacerdote antes de sua morte e ressurreição, portanto, nenhuma alegação pode ser feita com base nessa analogia a respeito de sua preexistência. Que Jesus viveria para sempre não é parte do argumento de que ele já vivia para sempre antes de sua existência terrena. Como um sacerdote humano segundo a ordem de Melquisedeque, ressuscitado dentre os mortos, Jesus foi adiante como um “precursor” em favor daqueles que também sofrerão e serão justificados por ele (6: 19-20).

Melquisedeque é um “tipo” de Jesus aqui apenas em um aspecto: ele continua como um sacerdote para sempre, que é um elemento na convergência dos temas sacerdotal e real. As outras declarações feitas não fazem parte da tipologia ou analogia – claramente não, já que Jesus tinha uma mãe e uma genealogia, de fato, duas genealogias. Você não pode ter uma genealogia e ser eterno. Então o escritor não está dizendo aqui que Jesus também não teve começo de dias. Isso não pode ser usado como argumento para a divindade ou preexistência de Jesus.

E, ao dizer que Melquisedeque foi sem “princípio de dias” e “fim da vida” (Hb 7: 3b) deve apenas significar que seu sacerdócio não era para um termo fixo (como no caso dos sacerdotes levíticos). Sob o regime do Antigo Testamento, os sacerdotes iniciavam seu serviço aos 30 anos e os levitas serviam de 30 a 50 anos (cf. Nm 4: 3 ss; 8: 24-25).

Aparentemente, no entanto, não havia limitação cronológica com referência a este “sacerdote do Deus Altíssimo” que reinou em Salém, alguns podem reclamar. Mais uma vez, a esse respeito, ele prefigurou Cristo, que serve continuamente como nosso sacerdote durante toda a era cristã. Que Melquisedeque não era a mesma pessoa que Jesus é evidente quando se diz que ele é “semelhante ao” Filho de Deus (Hb 7: 3c). A ênfase se tornaria irrelevante se as duas pessoas fossem iguais em identidade.

Leia com atenção o artigo a seguir para que você tenha uma ampla visão do assunto. Os créditos são para o apologista Valdomiro Filho.

PORQUE este Melquisedeque, que era rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo… Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre” Hebreus 7:1-3.

Será que Hb. 7.3 está ensinado sobre a eternidade de Jesus?

Para responder a essa pergunta precisamos entender o que o contexto quer dizer.

A Bíblia está textualmente dizendo que Melquisedeque não tinha pai, mãe ou genealogia, sem início de dias ou fim de dias, sendo semelhante ao Filho de Deus.

Se querem ver eternidade plena de Jesus nessa passagem precisarão considerar PRIMEIRO que Melquisedeque seria eterno também, pois note que é dele (Melquisedeque) que se fala não ter pai, mãe ou genealogia, princípio ou fim de dias. Ali também se diz “permanece sacerdote para sempre”, mas não é de Jesus que se diz isso, é de Melquisedeque que se diz “permanece sacerdote para sempre”. Não poderão alegar que Melquisedeque é Jesus preexistente, porque dele se diz ser semelhante ao Filho de Deus, ou seja, são dois seres distintos postos em paralelo. Um para mostrar legítimo o sacerdócio do outro. Assim, algumas perguntas, de cara, fazem-se necessárias:

  1. Melquisedeque realmente não tinha pai, mãe ou genealogia?
  2. Ele não tinha início ou fim de dias?
  3. Ele permanece sacerdote para sempre?

Ao que parece, querendo afirmar que Jesus é eterno, usam a passagem referente a Melquisedeque, mas esquecem que o que foi dito, foi dito do próprio Melquisedeque e depois houve comparação de, ou com Jesus.

Então, em que Jesus é semelhante a Melquisedeque? Será na eternidade de Melquisedeque?

A explicação começa a ser delineada na sequência do texto bíblico.

Hb 7:4 “Considerai, pois, quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu os dízimos dos despojos”. Se falou de Melquisedeque nesses termos para mostrar que apesar de desconhecido, ele era, pelo ato de Abraão, evidentemente, grande em dignidade.

Em seguida lemos Hb 7:6 “Mas aquele, cuja genealogia não é contada entre eles, tomou dízimos de Abraão, e abençoou o que tinha as promessas. ” Aqui temos uma informação importantíssima: Melquisedeque é aquele cuja “GENEALOGIA NÃO É CONTADA ENTRE ELES”. Ou seja, o que se quis dizer antes foi que Melquisedeque não tinha genealogia entre os Levitas e não que ele fosse eterno. O destaque é que não existe o registro de seu nascimento e de sua morte: “sem início ou fim de dias”. O que se quer dizer é que nada se sabe sobre ele que o tornasse merecedor do sacerdócio. Ou seja, é alguém que apesar de não ser contado entre os levitas (não existia registro algum de sua vida) era tão importante que recebeu dízimo dos levitas que estavam, em semente, nos lombos de Abraão que efetivou a dádiva. É esse sacerdócio não preso às amarras da lei (a lei determinava uma outra base para o sacerdócio), que faz de Melquisedeque, por direito, sacerdote para sempre, o que não quer dizer que o próprio Melquisedeque tenha vivido pela eternidade. O que em está causa é o mérito.

A semelhança falada ali não é com a suposta ETERNIDADE de Melquisedeque, mas com o fato de ele não ser contado entre os que cabiam o sacerdócio e mesmo assim ser legitimamente sacerdote.

O foco de todo o contexto é a legitimidade e superioridade do sacerdócio de Cristo sobre o sacerdócio levítico a partir da comparação do sacerdócio de Melquisedeque que não era descente da tribo de Levi.

No contexto não se trata da eternidade; nem a de Melquisedeque, nem a de Jesus. E nem a eternidade de Jesus é ventilada, mesmo que indiretamente, pois se o fosse, então, estaria estabelecida também a eternidade de Melquisedeque.

É um verso que é fácil de descontextualizar quando se tem o propósito de por Jesus como ente eterno. Mas se esquecem que ali se falasse de eternidade, o que não é o caso, estaria falando primeiramente da eternidade de Melquisedeque, como reiteradas vezes falei. Mas, como vimos o objetivo foi falar da ausência genealógica ou registro de nascimento e morte daquele sacerdote, o que o tornaria um estranho e indigno da função aos olhos dos judeus, que só surgiriam posteriormente. Mas quando Abraão, o maior dos patriarcas, dá o dízimo a ele, revela e legitima sua grandeza e dignidade. É nesse comparativo de grandeza e dignidade, sem estar no rol dos levitas, que ele é posto em paralelo ao Filho de Deus.

Ver ali um ensino sobre a eternidade de Jesus decorre de uma leitura apressada do verso bíblico.

Autor: FILHO, Valdomiro

Postado originalmente em Unitarismo Bíblico: Hb. 7.3 e a eternidade de Jesus (?)

A Quem Traspassaram

Mas sobre a casa de Davi, e sobre os habitantes de Jerusalém, derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e olharão para mim, a quem traspassaram; e pranteá-lo-ão sobre ele, como quem pranteia pelo filho unigênito; e chorarão amargamente por ele, como se chora amargamente pelo primogênito”.

Já que Deus diz que ele é o único que “traspassaram” em Zacarias 12: 1, e como Jesus foi traspassado no Calvário, deve significar, para os trinitarianos, que Jesus é Deus.

Zacarias 12:10 na versão trinitariana é uma falsificação pobre e deficiente. Imagino que os trinitarianos esperavam que o erro não fosse percebido. Não faz sentido algum ver o Senhor se referir a si mesmo na primeira pessoa e logo em seguida novamente se referir a si mesmo na terceira pessoa no mesmo fôlego: “olharão para mim, a quem traspassaram; e pranteá-lo-ão sobre ele… e chorarão amargamente por ele”.

A tradução trinitariana – ACF – remete o leitor para Deus (mim), mas podemos observar a seguir algo contraditório. Porquê a sentença não continuou em “mim”, no caso, Deus, mas passou para “ele”? O fluxo da frase continua com a palavra “ele”. Leia o detalhe novamente: “eles se lamentam por ele “e” chorarão amargamente por ele”. Está escrito, “por ele”, e não por mim.

A tradução que os trinitarianos desejam não existe, que é esta: “E derramarei sobre a família de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de ação de graças e de súplicas. Olharão para mim, aquele a quem traspassaram, e chorarão por mim como quem chora a perda de um filho único e se lamentarão amargamente por mim como quem lamenta a perda do filho mais velho”.

Por outro lado, o texto de João mostra de forma cristalina o que está em Zacarias 12:10. João 19:37, diz: “E outra vez diz a Escritura: Verão aquele que traspassaram”. Portanto, “verão aquele… e prantearão por Ele”. A leitura de Zacarias 12:10 que João conhecia não é “eles olharão para mim”, mas “olharão para ele”. (ou mais literalmente, “a quem traspassaram”).

Se alguém toma a posição de que o Espírito Santo inspirou cada palavra que João escreveu, então também deve insistir que o Espírito Santo está confirmando para nós que a leitura de Zacarias (12:10) repetida por João é a correta.

Valdomiro Filho, comentando sobre Zacarias 12:10, acrescenta: “Costumam usar Zacarias 12.10 “e olharão para mim, a quem traspassaram”, cujos versos anteriores falam de Deus, e comparam com Ap. 1.7 “Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém”. A partir dai concluem que Jesus é Deus que foi traspassado.

Aqui é interessante observar que há discordância entre a ARA e a ACF para o texto de Zacarias. Esta última seguiu uma tradução literal do texto Massorético, ao passo que a ARA contextualizou a tradução e colocou “olharão para aquele”. Esse fato tornou-se mais um ponto de disputa entre os defensores de cada um dessas versões. Uma tradução como a ARC, embora literal, cria uma desconexão com o restante do texto que diz: “e pranteá-lo-ão sobre ele” quando era de se esperar “prantear-me-ão sobre mim”, pois como podem olhar para “MIM, o traspassado e pratearem por ELE?”

A ARA entendeu contextualmente a passagem de Zacarias 12.10 como “e olharão para aquele a quem traspassaram, e o prantearão”; o que parece ser, de fato, a melhor leitura desse verso. O próprio texto de Apocalipse onde procuram buscar a identidade comum entre Deus e Jesus confirma uma leitura na terceira pessoa. Ali se constata que os versos que citam o evento descrito em Zacarias 12.10 não o fazem na primeira pessoa. Isso indica que no contexto amplo Deus está falando daquele que seria traspassado e não dele mesmo, como querem os trinitaristas. De qualquer forma uma coisa contrapõe a outra, pois se aquele que foi traspassado foi visto, no caso Jesus, não pode ser Deus, pois Deus nunca foi visto (I Tm. 6.16), e se Deus foi traspassado o sentido não pode ser material, pois Deus é Espírito, o que levaria o “traspassar” para esfera espiritual desassociando o dito pelo profeta do ato de perfuração do corpo, embora explicitando a dor da morte do Filho pelo Pai.

Vale destacar (se a requisição de identidade recair na equivalência literal da tradução do texto hebraico) que nem sempre o NT segue a leitura do texto Massorético, sugerindo uma fonte diferente e, na verdade, por vezes, difere, de fato, do texto hebraico geralmente utilizado, basta lermos a citação do cumprimento profético dessa passagem em João 19.37 “E outra vez diz a Escritura: Verão aquele que traspassaram.”, perceba “aquele” e não “a mim”. Tal leitura se harmoniza com o contexto amplo das Escrituras que dizem que Jesus foi visto, mas Deus nunca foi visto: I Tm. 6.16 “Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém.” Ora, se Zacarias for entendido como literal, então, estará falando do Corpo de Jesus, portanto o que é perceptível ao olho humano. No entanto versos como I Tm. 6.16, dentre outros, nega que tenha ocorrido a possibilidade de tal contemplação de Deus no evento da crucificação. Aquele que foi traspassado, nosso Senhor, estava morto e reviveu, mas há UM que não pode ser visto pelos mortais e nunca morreu, o nosso Deus” (1).

FILHO, Valdomiro – Zacarias 12:10, http://www.unitarismobiblico.com/w/2011/06/13/zc-12-10/

Deus seja louvado

O Alfa e o Ômega

Alfa

A afirmação feita pela tradição teológica cristã é de que o livro de Apocalipse mostra, não o Senhor Deus como o Alfa e o Ômega, mas a pessoa de Jesus. Isso não é verdade, e um exame minucioso dos textos vai esclarecer que o título Alfa e Ômega é aplicado somente para a pessoa do Pai, o Todo Poderoso mencionado em Apocalipse, o qual sempre é visto distinto do Cordeiro.

Além disso, e devo mencionar aqui no princípio, temos uma adulteração clara foi feita pela versão King James em Apocalipse 1:10-13 com relação ao título Alfa e Ômega e primeiro e último aplicados a Jesus. Como vai ser atestado, revelado e comprovado, esta sequência não deveria estar ali – foi um acréscimo irresponsável!

Quem é o Alfa e o Ômega?

A doutrina da trindade caminhava a passos largos para seu estabelecimento em 323 d.C. no Concílio de Nicéia, que formalmente foi escrito em um corpo de texto conhecido como O Credo de Atanásio. Abraçado pelos reformadores, a doutrina da Trindade usurpou as Escrituras na definição de quem é Deus, e quem é Jesus.

A Trindade afirma que há uma pessoa chamada por Deus Pai, uma pessoa chamada Deus o Filho, e uma pessoa chamada Deus Espírito Santo. Na Trindade, Jesus é visto como um ser incriado assim como o Pai é incriado e o Espírito Santo é incriado.

No quarto século, o que viria a ser a Igreja Católica Oriental, produziu o Credo Niceno-Constantinopolitano, que afirma a plena divindade de Jesus Cristo. Este credo leva o conceito de divindade ao extremo, referindo-se a Jesus Cristo como “Deus verdadeiro”.

Vamos examinar um a um os registros de João em Apocalipse para descobrir se a exigência feita pela interpretação tradicional cristã é mesmo confiável.

Apocalipse 1:8 “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso”.

Apocalipse 1:10-13, “Eu fui arrebatado no Espírito no dia do Senhor, e ouvi detrás de mim uma grande voz, como de trombeta, que dizia: Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último; e o que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas que estão na Ásia: a Éfeso, e a Esmirna, e a Bergamo, e a Tiatira, e a Sardes, e a Filadélfia, e a Laodicéia. E virei-me para ver quem falava comigo. E, virando-me, vi sete castiçais de ouro; E no meio dos sete castiçais um semelhante ao Filho do homem”.

Apocalipse 21: 5-7 “E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis. E disse-me mais: Está cumprido. Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. A quem tiver sede, de graça lhe darei da fonte da água da vida. Quem vencer, herdará todas as coisas; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho”.

Apocalipse 22: 12-14 “E, eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra. Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o primeiro e o derradeiro. Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas”.

As coisas nem sempre são o que parecem. Este artigo irá explicar o verdadeiro significado dos versos acima e mostrar como o erro entrou na versão King James das Escrituras, que inseriu os termos “Alfa e Ômega, o primeiro e o último” onde eles não deveriam estar, no contexto de Apocalipse 1:10-13.

Não é de admirar que milhares de cristãos interpretem o “Alfa e Ômega” no livro do Apocalipse como sendo Jesus Cristo o mesmo Deus todo poderoso. Porém, a leitura cuidadosa das passagens não só refuta a afirmação de que Jesus é “totalmente Deus”, mas declara a sua humanidade glorificada como absoluta, e faz uma distinção clara entre ele e o Senhor Deus. Além de acreditar que Jesus é o Alfa e o Ômega de Apocalipse, a maior parte da cristandade crê que Jesus é o criador. Entendem que Alfa é uma designação em grego para o começo. E por causa de sua percepção da palavra Ômega, que é uma designação em grego para o fim de algo, acreditam que Jesus é o Deus eterno.

Muitos argumentam também que as referências a Alfa e Ômega são declarações de Cristo como divindade. Isso não pode ser aplicado como estritamente literal, porque nem Deus nem Cristo são uma letra grega. É inútil procurar literatura judaica e pagã para a fonte de algo que se assemelha a este nome, Alfa e Ômega. Em nenhum outro lugar é uma pessoa, para não falar de uma pessoa divina, chamada Alfa e Ômega. Estudiosos confirmam que a frase é um hebraísmo de uso comum entre os antigos comentaristas judeus para designar o conjunto de qualquer coisa, desde o início até o fim. Não é de admirar que as sequelas do protestantismo católico dentro da teologia cristã pode ser capaz de santificar e divinizar até as letras do alfabeto grego.

O Alfa e o Ômega de Apocalipse 1:8

Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso”.

Uma observação importante deve ser ressaltada: “Aquele que é, que era, e que há de vir” está “separado” de Jesus,

Apocalipse 1:4, 5 “João, às sete igrejas que estão na Ásia: Graça e paz seja convosco da parte daquele que é e que era, e que há de vir, e da dos sete espíritos que estão diante do seu trono; E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados”.

Atente agora para os detalhes:

“… da parte daquele que é e que era, e que há de vir… E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos”.

A conjunção “e” é adicionada para fins de separação e distinção. Na frase, a leitura para “Aquele que é, que era e que há de vir”, é claramente feita separando o Senhor Deus da pessoa de “Jesus Cristo, a fiel testemunha, o primogênito dos mortos…”. Esta é a prova de que Jesus e Deus são duas pessoas distintas, mesmo no céu. Note que João descreve o Alfa e o Ômega como “Aquele que é, que era e que há de vir“.

Este ponto se torna mais enfático quando examinamos Apocalipse 1: 8, que é uma ligação direta para Apocalipse 1: 4.

Apocalipse 1: 8 “Eu sou o Alfa e o Ômega”, diz o Senhor Deus”, que é que era e que há de vir, o Todo-Poderoso“.

O parágrafo lê: “… Aquele que é, que era e que há de vir E de Jesus Cristo“. Isso revela claramente que o Alfa e Ômega não é Jesus, mas sim “aquele que é, que era e que há de vir”, ou seja, Deus. Portanto, como foi verificado, a primeira referência para Alfa e Ômega de Apocalipse, tantas vezes ensinada ter sido direcionada ao Senhor Jesus, na verdade, aponta para Deus, o Pai.

O ERRO nas versões da Bíblia King James

A doutrina que aplica as palavras Alfa e Ômega para o Senhor Jesus é um exemplo triste e infeliz de adulteração com a Palavra de Deus. A verdade mostra como a empreitada foi um contrato irresponsável armado por homens para justificar crenças falsas. A frase que diz: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último” de Apocalipse 1:11 não deveria estar ali, pois não se encontra nos textos gregos originais, também não é encontrada em praticamente todos os textos antigos, mas mencionada como uma nota negativa de rodapé em algumas traduções atualizadas.

Abaixo está a versão King James de Apocalipse 1:10-11, seguida por várias outras versões críveis tendo os mesmos dois versos citados nesta discussão. Vamos descobrir que as palavras Alfa e Ômega foram erroneamente adicionadas pela versão do Rei Tiago para fins teológicos, e não de tradução.

“I was in the Spirit on the Lord’s day, and heard behind me a great voice, as of a trumpet, Saying,I am Alpha and Omega, the first and the last: and, What thou seest, write in a book, and send it unto the seven churches which are in Asia; unto Ephesus, and unto Smyrna, and unto Pergamos, and unto Thyatira, and unto Sardis, and unto Philadelphia, and unto Laodicea”.

Uma versão na língua portuguesa baseada na King James cita o versículo nos mesmos termos,

Eu fui arrebatado em espírito no dia do Senhor, e ouvi por detrás de mim uma grande voz, como de trombeta, dizendo: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último: e, o que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas que estão na Ásia; a Éfeso, a Esmirna, a Pérgamo, e a Tiatira, a Sardes, Filadélfia e Laodicéia” (ACF).

É necessário lembrar que algumas versões anteriores da Almeida causaram confusão ao adicionar as palavras que não ocorrem nos mais antigos e respeitados manuscritos. De fato, a King James Version que provavelmente serviu de referência para algumas versões Almeida, adicionou tais palavras e contribuíram significativamente para aprofundar ainda mais a confusão. Diversas versões cometeram este erro, todavia, muitas admitem como é o caso de uma nota da Versão Literal de Young, que “os mais antigos mss omitem” tais palavras. É reconhecido pelos eruditos que textos Bizantinos posteriores adicionaram tais palavras quando alguns copistas em sua tentativa de identificar Jesus com Deus mudaram o texto original.

Eu vou adicionar aqui alguns comentários bíblicos para confirmar a adulteração vergonhosa da cláusula citada em Apocalipse 1 verso 11:

Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o ultimoEsta cláusula inteira está ausente no ABC, em trinta e outros manuscritos; algumas edições, o siríaco, copta, etíope, armênio, eslavo, Vulgata, Arethas, Andreas, e Primasius. Griesbach deixou-a fora do texto”, Clarke’s Commentary on the Bible.

Eu Sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o ultimo Os mais antigos manuscritos omitem esta cláusula inteira”, Jamieson-Fausset-Brown, Bible Commentary 11.

“… Com uma ampla evidência, Eu sou o Alfa e Ômega, o primeiro e o ultimo, deve ser omitido”, Pulpit Commentary, verse 11.

Atentem agora para as versões citadas a seguir; todas omitem as expressões Alfa e Ômega:

New American Standard Bible

“I was in the Spirit on the Lord’s day, and I heard behind me a great voice, as of a trumpet, saying, What thou seest, write in a book and send [it] to the seven churches: unto Ephesus, and unto Smyrna, and unto Pergamum, and unto Thyatira, and unto Sardis, and unto Philadelphia, and unto Laodicea”.

English Bible Society

“I was in the Spirit on the Lord’s day, and a great voice at my back, as of a horn, came to my ears, Saying, What you see, put in a book, and send it to the seven churches; to Ephesus and to Smyrna and to Pergamos and to Thyatira and to Sardis and to Philadelphia and to Laodicea”.

Almeida Atualizada

“Eu fui arrebatado em espírito no dia do Senhor, e ouvi por detrás de mim uma grande voz, como de trombeta, dizendo: O que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas: a Éfeso, a Esmirna, e até Pérgamo, e a Tiatira, a Sardes, e até Filadélfia e Laodicéia”.

Revista e Atualizada

“Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta, dizendo: O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia”.

Almeida Revisada da Imprensa Bíblica

“Eu fui arrebatado em espírito no dia do Senhor, e ouvi por detrás de mim uma grande voz, como de trombeta, que dizia: O que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas: a Éfeso, a Esmirna, a Pérgamo, a Tiatira, a Sardes, a Filadélfia e a Laodicéia”.

Nova Versão Internacional

“No dia do Senhor achei-me no Espírito e ouvi por trás de mim uma voz forte, como de trombeta, que dizia: “Escreva num livro o que você vê e envie a estas sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia”.

Versão Católica

“Num domingo, fui arrebatado em êxtase, e ouvi, por trás de mim, voz forte como de trombeta, que dizia: O que vês, escreve-o num livro e manda-o às sete igrejas: a Éfeso, a Esmirna, a Pérgamo, a Tiatira, a Sardes, a Filadélfia e a Laodicéia”.

Bíblia de Jerusalém versão em Espanhol

“Caí en éxtasis el día del Señor, y oí detrás de mí una gran voz, como de trompeta, que decía: Lo que veas escríbelo en un libro y envíalo a las siete Iglesias: a Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadelfia y Laodicea”.

Darby Bíblia, “… dizendo: O que vês, escreve-o num livro, e envia às sete igrejas”.

De Phillip New Testament, “… dizendo: “Anote em um livro que você vê, e envia às sete igrejas …”.

Douay Rheims Version, “… dizendo: “O que vês, escreve-o num livro, e envia às sete igrejas…”.

Weymouth Novo Testamento, “… disse: “Faça imediatamente em um rolo um relato do que você vê, e enviá-lo às sete igrejas …”

Murdoch Novo Testamento, “… e disse: “O que vês, escreve-o num livro, e envia às sete igrejas … “.

Bíblia de Rotherham, “… dizendo: “O que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete Assembléias …”.

Como vimos, todas as versões citadas omitem as palavras em Apocalipse 1:11, “Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último”. Os melhores manuscritos não têm essa frase, e, portanto, deve a mesma ser omitida de qualquer tradução credível. A KJV também acrescenta “o primeiro e o último” de Apocalipse 1:11 em algumas versões. Em ambos os casos, os tradutores da Bíblia King James estavam seguindo o Textus Receptus. Mais tarde descobertas de manuscritos demonstraram que a cláusula não é original aqui. Para ser justo com os tradutores da KJV talvez deveríamos assumir que estavam apenas cumprindo o Textus Receptus, ou Texto Recebido, que tem centenas, se não milhares de problemas.

Só podemos especular, mas parece que os tradutores da Bíblia King James queriam fazer uma ligação clara entre as frases “Alfa e Ômega” e “o primeiro e o último”. E, qualquer que seja a posição teológica individual dos tradutores no comitê desta versão inglesa, certamente tentaram reforçar a visão de que Cristo era “Deus”. Influências trinitárias sem dúvida desempenharam algum papel, uma vez que a Igreja da Inglaterra defende Jesus Cristo como “Deus Filho” (ou seja – a segunda pessoa da Trindade, um Deus co-igual, junto com a pessoa do Pai e do Espírito Santo). No entanto, há manuscritos suficientemente críveis e ferramentas de estudo disponíveis para uma pessoa encontrar a resposta correta.

Ao longo de seu passado obscuro e sórdido, a Igreja Católica Romana escondeu as Escrituras das massas, e poucas pessoas tinham a paixão, unidade e a coragem de desafiar preconceitos doutrinários. Porém, hoje em dia, as pessoas estão começando a fazer perguntas, pesquisando e encontrando respostas, que para muitos ficaram ocultas na escuridão das trevas por séculos.

Vamos agora examinar Apocalipse 21:5-7 em seu contexto:

E aquele que está assentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E acrescentou: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras. E disse-me ainda: Tudo está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida. O vencedor herdará estas coisas, e eu lhe serei Deus, e ele me será filho”.

Observe quem disse ser o Alfa e o Ômega: “E aquele que está assentado no trono disse: Eu sou o Alfa e o Ômega“. Além disso, Ele também acrescenta: ” O vencedor herdará estas coisas, e eu lhe serei Deus, e ele me será filho”. Evidente que quem fala aqui não é Jesus.

É necessário observar atentamente quem está falando ser o Alfa e o Ômega neste contexto de Apocalipse. Preste atenção amigo leitor, naquele que está assentado no trono, pois este é o Alfa e o Ômega, o mesmo citado como sendo o Deus de Jesus em Apocalipse 2:7; 3:2,12, que se distingue do Cordeiro em Apocalipse 5:1-7; 5:13; 6:16; 7:10, 15.

Veja que em alguns textos apresentados Jesus chama o Pai de “Meu Deus”. E não esqueça, Ele fala estas palavras quando já estava no céu,

Apocalipse 2:7 “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus”.

Apocalipse 3:2, 12 “Sê vigilante, e confirma os restantes, que estavam para morrer; porque não achei as tuas obras perfeitas diante de Deus… A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá; e escreverei sobre ele o nome do meu Deus, e o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém, que desce do céu, do meu Deus, e também o meu novo nome”.

Eu acredito piamente que a cristandade não se deu conta do real significado destas passagens. Observe que Jesus está glorificado, mas continua chamando o Pai de MEU DEUS. Se Ele chama o Pai de meu Deus, Ele não pode ser Deus também. Não existe dois Deus. Veja o que Ele diz em João 17:3: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”.

Paulo reforça as palavras do Senhor Jesus quando declara haver apenas um Deus e não dois:

1 Coríntios 8:6 “Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele”.

Efésios 4:6 “Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós”.

1 Timóteo 2:5 “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem”.

Observe que Paulo continua chamando Jesus de homem. O Senhor subiu ao céu pela morte e ressurreição, não foi transformado em um Deus, mas sim em um homem glorificado, a pedra angular nos propósitos de Deus, o mediador e salvador da humanidade.

O apóstolo dos gentios foi enfático quando afirmou “que a morte veio por um homem, mas também por um homem veio a ressurreição dos mortos“, 1 Cor 15:21. A palavra “também” é significativa, pois faz uma comparação entre dois seres mortais, dois homens, Jesus e Adão.

A posição de Jesus em relação ao Pai não é aquela apresentada pelos trinitarianos e pela ortodoxia cristã, que ele é outro Deus, o Deus filho. Na verdade, Ele é o filho de Deus, o mediador e reconciliador dos pecadores, mas sujeito e submisso ao Pai. Veja o que declara Paulo na profecia do Salmo 110: “Depois virá o fim, quando [O Senhor Jesus] tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força. Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte. Porque todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés. Mas, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos”, 1 Coríntios 15:24-28.

Por que Paulo disse que “é evidente” que o Filho tem tudo em sujeição, exceto Deus? Eis aqui mais um entendimento óbvio e implícito, que o salmista não mencionou, mas Paulo, para a nossa benção, explicou. Em seguida o Apóstolo afirma que o Filho, este sim, “também se sujeitará” a Deus, para que todos, inclusive o Filho, estejam sujeitos ao Criador do Universo. Não é muito claro que o Filho, embora superior a todos os demais, além de não ser Deus é subserviente a Ele?

Qual a explicação que os trinitarianos dariam para estas passagens? As mesmas explicações vagas de sempre, de que é uma questão de funções organizacionais celestes, e que muitas vezes o termo “Deus” se refere ao “Deus-Pai” na sua função de Pai – a função de quem comanda – extraindo de vários versículos coisas que eles não dizem. Ainda recheiam o “bolo de interpretações” com termos teológicos e filosóficos pouco usados, que impressionam facilmente os leitores desavisados, ou os candidatos a eruditos.

Vamos voltar ao Alfa e o Ômega do versículo em discussão. Foi dito anteriormente que quem está assentado no trono – o qual disse ser o Alfa e o Ômega – é visto separado de Jesus, o Cordeiro. Isso é confirmado com mais algumas passagens interessantes:

Apocalipse 5:7 E veio [Jesus], e tomou o livro da destra do que estava assentado no trono.

Apocalipse 5:13 E ouvi a toda a criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que está no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra e glória, e poder para todo o sempre.

Apocalipse 7:10 “E clamavam com grande voz, dizendo: Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro”.

Agora leia novamente parte do contexto em estudo e descubra quem é o Alfa e o Ômega. Veja o que diz aquele que está assentado no trono:

E aquele que está assentado no trono… disse-me ainda: Tudo está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim”, Ap 21:5-7.

Não devemos esquecer que quem está assentado no trono é chamado de “Todo Poderoso”. No entanto, em duas ocorrências da palavra “Todo-Poderoso” em Apocalipse, Jesus é contextualmente – ontológicamente e gramaticalmente – excluído de ser o Todo-Poderoso mencionado. Veja:

Apocalipse 19:15 “E da sua boca [de Jesus] saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com vara de ferro; e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso”.

Apocalipse 21:22 “E nela não vi templo, porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro”.

Além de tudo isso, Apocalipse 21: 6, 7 indica que os cristãos que são vencedores devem ser ‘filhos’ daquele conhecido como Alfa e Ômega. Isso nunca é dito sobre o relacionamento dos cristãos com Cristo. Jesus falou sobre os cristãos como seus ‘irmãos’ (Heb 2:11; Mat 12:50; 25:40). Esses ‘irmãos’ de Jesus são referidos como filhos de Deus Pai (Gálatas 3:26; 4: 6).

Portanto, foi mostrado que o segundo texto em Apocalipse apresentando o título de Alfa e Ômega, tantas vezes atribuído a Jesus, foi, na verdade, aplicado ao Pai por Ele mesmo.

Está faltando um, e é para ele que vamos agora…

O Alfa e Ômega em Apocalipse 22:13

Descobrimos, sem sombra de dúvidas – como visto nos argumentos anteriores – que o título Alfa e Ômega foi aplicado ao Pai, não ao filho. Porém, temos aqui em Apocalipse 22:13 novamente o título Alfa e Ômega que, para a Apologética convencional, é a principal prova para derrubar de vez o argumento de seus oponentes com relação à divindade e preexistência de Jesus. Para eles está claro aqui que Jesus é o Alfa e o Ômega.

Na verdade, nós temos duas opções: Os títulos (ou título!) só podem ser aplicados a Jesus com uma condição: se a composição textual for encurtada – e pode ser aplicado ao Pai de forma integral. Porém, há algo sumamente importante que foi ignorado por nossa Ortodoxia. Observe como a composição tradicional do texto está longa, em nada parecida com as outras duas mencionadas no mesmo Livro:

Eu sou o Alfa e Ômega, princípio e o fim, o primeiro e o último”.

Compare com Apocalipse 1:8: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor…”. E Agora veja Apocalipse 21:6: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim”.

Completamente desnecessário introduzir no texto de Apocalipse 22:13 os três títulos: “Alfa e Ômega, princípio e o fim, o primeiro e o último”. Certamente há algo errado, e nós vamos descobrir onde está esse erro.

Observe três traduções que poderiam mudar todo o curso das discussões. Veja como a Bible in Basic English, a Good News Translation e a Worldwide English apresentam o texto:

I am the First and the Last, the start and the end

Eu sou o primeiro e o último, o princípio e o fim

Confira aqui as três versões: Bible in Basic EnglishGood News TranslationWorldwide English

Certamente houve um acréscimo aqui; acréscimo feito por escribas que acreditaram que o texto poderia enfatizar a divindade de Jesus apresentando-o como Deus. E, muitíssimo provavelmente, eles acreditaram que os títulos faziam menção ao filho, o que não é verdade. A referência é ao Pai!

Os erros em Apocalipse 1:11, como visto anteriormente, e Apocalipse 22:13, devem-se à imprecisão do chamado Textus Receptus, o texto grego no qual o Novo Testamento da KJV se baseou. De acordo com Bruce Metzger (em The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption and Restoration, Second Edition, Oxford University Press, 1968), o Textus Receptus foi preparado às pressas e a esmo, e foi baseado principalmente em manuscritos não confiáveis do século XII. Foi obra de um holandês chamado Desiderius Erasmus e foi publicado pela primeira vez em 1516. Embora o que ficou conhecido como Textus Receptus tenha uma precisão inferior ao primeiro Novo Testamento Grego completo, o chamado Novo Testamento Complutense que foi Publicado apenas dois anos antes em 1514, o texto de Erasmus foi comercializado com muito mais eficácia e foi usado como base para todas as principais traduções protestantes nas línguas da Europa até 1881, quando a versão revisada em inglês [RV] foi publicada pela primeira vez.

A tradução do Textus Receptus de Apocalipse 22:13, na qual se baseou a KJ, e da qual foram construídas quase todas as nossas traduções, pode estar em ordem incorreta em relação a tradução grega e não representa exatamente o texto original. E com base nas edições citadas acima temos pelo menos evidências que nos faz suspeitar de que o texto original pode sim ter sido alterado.

Acredito, baseado nos argumentos anteriores em Apocalipse quando o título Alfa e Ômega é aplicado ao Pai, que aqui também podemos colher evidências para provar a mesma tese se considerarmos se as palavras Alfa e Ômega são parte do texto original ou não. Observe que o texto poderia ficar de duas formas: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim”, que é similar as outras duas menções dadas ao Pai em Apocalipse, ou poderia ser, “Eu sou o princípio e o fim, o primeiro e o último”, que também pode ser aplicado a Deus, porém, a frase jamais foi usada em conjunto. Observe também que algo no texto maior parece estar fora de ordem, pois “primeiro e último” foi citado depois de “princípio e fim“: “Eu sou o Alfa e Ômega, princípio e o fim, o primeiro e o último”. Para o hermeneuta atento há uma discrepância aqui. Bastaria que a citação fosse, “Eu sou o Alfa e Ômega, princípio e o fim”.

E apesar de Jesus falar de forma semelhante em Apocalipse 1:18 e 2:8, “… Eu sou o primeiro e o último; E o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno”, e “E ao anjo da igreja em Esmirna, escreve: Isto diz o primeiro e o último, que foi morto, e reviveu”, não podemos atribuir a ele o título de Alfa e Ômega. Note que quando Jesus diz “eu sou o primeiro e o último” ele conecta as palavras com a frase, “que foi morto e reviveu”. Você vai descobrir também o significado de ser “primeiro e último” aplicado a Jesus na última seção desse artigo.

Vamos examinar Apocalipse 22:13

Apocalipse 22:12,13 “Eis que venho sem demora. O meu galardão está comigo, para retribuir a cada um segundo a sua obra. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim”.

Preste atenção em todo o contexto de Apocalipse 22:6-21 com alguns comentários adicionados entre colchetes:

Apocalipse 22: 6 “Ele [o anjo mencionado no Apocalipse 21: 9] me disse: “Estas palavras são fiéis e verdadeiras; e o Senhor, o Deus dos santos profetas, enviou o seu anjo, para mostrar aos seus servos as coisas que em breve hão de acontecer“.

Apocalipse 22: 7 [Observe a mudança abrupta; o anjo de repente fala como alguém que vem] “Eis que venho sem demora. Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro. [Muitos afirmam que o que vem é Jesus; no entanto, isso também poderia ser falado de Deus (1 Tess 3:13), o que é mais do que provável, uma vez que o anjo estava apenas se referindo ao Senhor].

Apocalipse 22:8 [Aqui João fala de si mesmo] Eu, João, sou aquele que vi e ouvi estas coisas. Quando eu ouvi e vi, caí em adoração diante dos pés do anjo que me tinha mostrado essas coisas.

Apocalipse 22:9 Ele [o anjo] me disse: Olha, não faças tal; porque eu sou conservo teu e de teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus.

Apocalipse 22:10 Ele [o anjo] disse-me: “Não seles as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está próximo”.

Apocalipse 22:11 Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda.

Apocalipse 22:12 [Abruptamente o anjo começa a citar alguém novamente] Eis que venho sem demora. O meu galardão está comigo, para retribuir a cada um segundo a sua obra. [O Deus de Jesus julga o mundo através de Jesus, e cada um receberá de Deus o louvor – Atos 17:31; Romanos 2:16; 1 Coríntios 4: 5; 2 Timóteo 4: 1; Isaías 40:10].

Apocalipse 22:13 Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o fim.

Compare cuidadosamente o seguinte, especialmente os dois últimos versículos: “Eu caí para adorar aos pés do anjo que me mostrou essas coisas” (22: 8); “Eu, Jesus, enviei meu anjo para testemunhar estas coisas” (22:16); “Aquele que testifica estas coisas diz: Certamente cedo venho. Amém. Ora vem, Senhor Jesus” (22:20). Que o leitor seja lembrado de quem estava se comunicando com João no capítulo 1, e então pergunte-se quem testemunhou essas coisas a João.

Olhe novamente para Ap 22: 8-16. João é identificado como o orador em 22: 8. O anjo fala no verso 9. Aparentemente, o anjo continua falando no verso 10. O anjo ainda pode estar falando no versículo 11. O anjo continua falando no verso 12. O anjo fala pelo Pai no verso 13. A Bíblia de Jerusalém; a NJB e a tradução de J. Moffatt nos mostram que o anjo falou todas as palavras do versículo 9 até ao versículo 15.

Jesus começa a falar no versículo 16: “Eu, Jesus” – também introduz um novo orador. Isso significa que a declaração anterior (“Eu sou o Alfa e o Ômega”) foi feita por outra pessoa. No caso aqui é o anjo falando pelo Pai. Isso fica claro quando lemos o verso imediatamente anterior, o 12, que diz: “Eis que cedo venho e está comigo a minha recompensa, para retribuir a cada um segundo a sua obra“. É uma réplica exata do verso 6 de Romanos capítulo 2 quando fala do juízo de Deus. Veja: “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras“, Rm 2:5,6.

Aqueles que usam a expressão “Alfa e Ômega” para Jesus se apoiam na frase: “Eu venho em breve/Eis que cedo venho” em Apocalipse 22:20. Em seguida, eles apontam para as mesmas palavras em Apoc 22:12 (“certamente cedo venho”) e afirmam que quem fala que é o Alfa e o Ômega só pode ser o Senhor Jesus.

Porque Deus reina sobre todas as coisas, e é o Senhor da história, Israel viveu na esperança (como os profetas anunciaram) da ‘vinda’ de Deus – seus atos futuros pelos quais ele decisivamente lida com toda a maldade estabelecendo justiça na terra . Veja alguns textos que falam de Deus vindo; o Salmo 96:13 diz, “O Senhor está vindo”, que é uma expressão no VT descrevendo a intervenção do Senhor na história [compare com Sl 18: 9; 96:13; 144: 5; Isa 26:21; 31: 4; 64: 1-3 ].

Quando o anjo falou a Maria: “O Senhor está com você” (Lucas 1:28), ele obviamente não quer dizer que Deus tinha literalmente vindo à terra (compare Juízes 6:7-12). Quando o pai de João Batista disse: “Louvado seja o Senhor, o Deus de Israel, porque ele veio e redimiu o seu povo” (Lucas 1: 66-68) ele quis dizer que Deus estava operando do céu para ajudar a humanidade dos justos. Quando Moisés descreve Deus com ele (Josué 1: 5), significava que Deus, do céu, estava auxiliando-o. Quando Josué disse aos israelitas “Deus está entre vós” (Jos 3:10), ele estava novamente dizendo que Deus estava ajudando-os. E não podemos ignorar um grupo vasto de profecias para os tempos finais que fala de Deus “vindo”. Além disso, quando Deus “vem” a terra, ele vem para operar através de alguma outra pessoa. Quando Moisés voltou ao Egito para ajudar seu povo, Deus “veio” para ajudá-los (através de Moisés). Quando Jesus veio à terra para ajudar a humanidade, Deus “veio” (através de Jesus). E quando Jesus “retornar” do céu, Deus “vem!”

Assim, se Jesus “em breve” vem para fazer a vontade de Deus, então, pelo mesmo ato, Deus vai “vir” também (não literalmente, mas através de Jesus).

Leia agora novamente Apocalipse 1: 8 e Apocalipse 1: 4, 5 que vai ficar mais claro para você:

Eu sou o Alfa e o Ômega”, diz o Senhor Deus, que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso

Sabemos que este é o Pai falando como vimos nos comentários na primeira parte desse estudo. Somente Ele é chamado Senhor Deus e Todo-Poderoso na Sagrada Escritura. Observe que o Pai neste versículo é descrito como alguém que está para vir:

Graça e paz da parte daquele que é, que era e que há de vir, e da dos sete espíritos que estão diante do seu trono, e de Jesus Cristo, a testemunha fiel …” (1: 4, 5).

Portanto, no sentido que Deus “vai vir”, deve ser como descrito acima: Deus “vir” através de seu filho, mas eles ainda são duas pessoas distintas!

Portanto, podemos ver facilmente que não há razão para dizer que o título Alfa e Ômega de Apocalipse 22:13 foi dirigido a pessoa de Jesus. E a maior evidência para tal é exatamente o versículo imediato. Leia Apocalipse 22:14 [Isto é o anjo falando] Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar pelas portas na cidade. É uma terceira pessoa falando – Deus não diria: “Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos“.

O capítulo segue dizendo:

Apocalipse 22:15 Ficarão de fora os cães, os feiticeiros, os adúlteros, os homicidas, os idólatras, e todo aquele que ama e pratica a mentira.

Apocalipse 22:16 [Agora entra Jesus:] Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas a favor das igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi; a Resplandecente Estrela da Manhã“.

Apocalipse 22:17 Vem!’ O Espírito e a noiva dizem: Aquele que ouve, diga: Vem! E quem tem sede, venha. E quem quiser, receba de graça a água da vida.

Apocalipse 22:18 Eu testifico a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus lhe acrescentará as pragas que estão escritas neste livro.

Apocalipse 22:19 Se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, e da cidade santa, que estão escritas neste livro.

Apocalipse 22:20 [João escreve] Ele [Jesus] que dá testemunho destas coisas diz: “Sim, eu venho“, Amém! [João responde] Vem, Senhor Jesus.

Apocalipse 22:21 A graça do Senhor Jesus esteja com todos os santos. Amém”.

Um detalhe importante a ser notado está registrado nos versículos oito e nove. Quando João cai aos pés do anjo para adorá-lo, este diz: “Não faças tal; porque eu sou conservo teu e de teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus“. João ficou tão maravilhado que se ajoelhou diante do poderoso anjo. É a segunda vez que ele comete o mesmo erro, e a segunda vez que lhe chamam a atenção (Ap 19:10). Esta é uma prova conclusiva de que realmente temos um anjo falando pelo Senhor Deus Todo Poderoso, alguem subserviente ao Senhor admoestando o apóstolo João a “adoração a Deus”, assim como ele faz. Veja: “Não faças tal… adora a Deus”.

Portanto, não há evidência alguma de que a frase “o Alfa e o Ômega” refere-se ao Messias – na verdade, o oposto é evidente quando examinamos cuidadosamente as ocorrências desta frase em todo o livro do Apocalipse.

O Primeiro e o Último

Em Isaías 41:4; 44:6; 48:12 encontramos as palavras “primeiro e último”, que expressam a soberania do Senhor apresentado-o como único Deus. No entanto, a ortodoxia cristã entende que primeiro e último neste contexto deve significar eternidade para trás e para frente no tempo. Na verdade, o profeta reforça nestas expressões o domínio do Deus Todo-Poderoso, o “primeiro e último” em força (Divindade), apresentando o Pai como a fonte de todo o poder, algo que os falsos deuses das nações não podem reclamar. Observe as palavras em 44:6, 8: “Eu sou o primeiro, e eu sou o último, e fora de mim não há Deus… Eu não conheço nenhum”.

Compare esta sentença com os textos a seguir: “Por isso hoje saberás, e refletirás no teu coração, que só o Senhor é Deus, em cima no céu e em baixo na terra; nenhum outro há”, Deuteronômio 4:39.

Portanto, grandioso és, ó Senhor Deus, porque não há semelhante a ti, e não há outro Deus senão tu só, segundo tudo o que temos ouvido com os nossos ouvidos”, 2 Samuel 7:22.

Vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor, e meu servo, a quem escolhi; para que o saibais, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo, e que antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá”, Isaías 43:10.

No último livro da Bíblia descobrimos a expressão “primeiro e último”. Pelo menos duas vezes ela é aplicada a Jesus, em Apocalipse 1:17 e Apocalipse 2: 8. A frase aparece também em Apocalipse 22:13, onde o Senhor a aplica para si mesmo.

Erroneamente a ortodoxia popular prefere ler as expressões primeiro e ultimo de Isaías e Apocalipse, como “eterno”, embora não haja nada nas referências citadas para justificar este significado. Assim, e irresponsavelmente, surgiu uma reivindicação que foi transformada em constituição pela teologia cristã tradicional, de que o livro de Apocalipse mostra, não só o Pai, como o primeiro e ultimo e o alfa e Ômega – com conotação de eternidade, mas também o Filho, o Senhor Jesus. Além disso, de acordo com muitos, a frase “o primeiro e o último”, aplicados a Jesus em Apocalipse 1:17 e 2:8 oferece prova de que Jesus é o Senhor Deus, uma vez que o Pai fala de si mesmo como primeiro e último sugere que Jesus é o Senhor do Antigo Testamento e, portanto, pré-existente de acordo com o ensino da envelhecida ortodoxia cristã apoiada pelo trinitarismo e o catolicismo romano.

O primeiro e o último, que foi morto e reviveu

Apocalipse 1:17, 18 “E eu, quando vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; Eu sou o primeiro e o último; e o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno”.

Apocalipse 2:8 “E ao anjo da Igreja que está em Esmirna, escreve: Isto diz o primeiro e o último, que foi morto e reviveu”.

Observem que os termos primeiro e último estão associados às palavras “o que vivo e fui morto, mas estou vivo para sempre”, e, “que foi morto e reviveu”. Vamos saber depois porque.

O ponto que deve ser observado, insisto, é que a cristologia popular vê na frase “o primeiro e o último” de Apocalipse 1:18 e 2:8 um Jesus preexistente, como sendo ele o próprio Deus, dando-lhe o significado de eterno, sugerindo que Jesus existe fora de todos os tempos, ou que ele sempre existiu a partir da eternidade passada infinita com uma existência contínua ininterrupta para o futuro infinito. Esse ponto de vista sugere que Jesus, enquanto aqui viveu, era uma coisa do outro mundo, alguém que tinha um poder incomum, que flutuava pelo espaço infinito indo para trás e para frente no tempo, movendo-se entre o passado, presente e futuro: Um verdadeiro Deus! Está aí, presado leitor, uma extraordinária maneira de negar que ele não veio em carne. Isto é um perigo mortífero, pois insinua que o Messias jamais morreu.

A conclusão das Escrituras não seria de que Jesus é o Senhor Todo-Poderoso, mas que tanto Jesus como Deus são, de alguma forma, respectivamente, o primeiro e o último. No entanto, muitos têm afirmado que só pode haver um primeiro e último, e, assim, entendem que esta frase mostra que a pessoa que está falando em Apocalipse 2:8 é o Senhor, o Altíssimo. Seu raciocínio é que, quando o uso semelhante de palavras se aplica para Jesus e Deus, deve significar que Eles não tem começo e nem fim – são ambos eterno passado e futuro eterno. Assim, entendem que as palavras tem o mesmo sentido quando aplicadas a Jesus, e, portanto, eles concluem que Jesus é o Senhor Deus.

Quando questionados sobre como o Eterno, que é de eternidade a eternidade, morreu, a ortodoxia cristã fica em apuros. Como poderia um ser eterno morrer? E é aqui que começam os tropeços nos argumentos, dando a luz àquela velha fábula trinitariana: “quem morreu foi a natureza humana de Jesus e não a divina”. Isto se torna um desastre para aqueles que não separam Jesus de Deus, afirmando serem eles uma só pessoa, literalmente, insinuando ter sido o Messias um ser eterno, que mesmo estando na sepultura, continuava vivo.

Observe aqui a realidade dos contextos: “… Eu sou o primeiro e o ultimo; e o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre”, Ap 1:18.

“… Isto diz o primeiro e o último, que foi morto, e reviveu”, Ap 2:8.

Obviamente, O Deus eterno, que é Espírito, nunca iria dizer: “Eu estava morto“. Deus é imortal e Ele não pode morrer; portanto, em Apocalipse 1:18 a referência aponta para o filho do homem glorificado: “Eu sou aquele que vive, e foi morto, e eis que estou vivo para sempre“.

A proposta da maioria na cristologia convencional é irritante, pois sugere que Jesus morreu, mas uma parte dele ficou viva em outro lugar. No entanto, deve-se observar que há um contraste entre o seu ser morto com estar vivo para todo o sempre, como atesta o verso acima, o que esclarece que ele morreu mesmo. Quando Jesus diz que ele estava “morto” é traduzida da palavra grega, “Nekros”, que significa “um cadáver”. A nossa palavra “necrotério” é derivado de Nekros. Jesus diz em Apocalipse: “Eu era um cadáver”. Ele não diz apenas que estava morto, mas acrescenta ênfase à morte. Deus é imortal, e, portanto, Jesus não pode ser chamado de Deus. As Escrituras que provam que Deus não pode morrer são as seguintes:

Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus sábio, seja honra e glória para todo o sempre. Amém”, 1 Timóteo 1:17.

Aquele que é o bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores; o único que possui a imortalidade e habita em luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver. A ele seja honra e poder eterno! Amém”, 1 Timóteo 6: 15-16.

Porém, lamentavelmente, a alegação de que Jesus foi 100% Deus Todo-Poderoso e ao mesmo tempo 100% ser humano, quando aqui andou, tornou-se uma constituição dentro da teologia protestante e católica romana. Muitos se referem a esta suposição como a “dupla natureza” ou “união hipostática” de Jesus. Ou seja, ele era humano, mas uma parte dele era eterna, a divina que nunca morreu. Assim, a fim de aplicar essa hipótese ao Apocalipse, o trinitário ou qualquer um que acredita nas alegadas “naturezas duais” de Cristo, tem de dividir a sentença em duas partes, de modo a aplicar a frase “o primeiro e o último” à ideia de Jesus como Deus. Em seguida, a última parte da frase, “que estava morto”, eles teriam que reclamar que se aplica apenas à “natureza” humana de Jesus, concluindo assim que somente esta natureza, a humana, foi que morreu. Isso tudo gera a tese absurda e cômica de que “o primeiro e o último” não morreu. Em outras palavras: Jesus morreu, mas uma parte dele, a divina, continuou viva em algum lugar entre o céu e a terra.

Está aí, amigo leitor, a proposta mais nociva e destruidora já apresentada contra o sacrifício do Senhor Jesus, que faz da sua morte no madeiro uma verdadeira farsa. E acreditem, pode até ser que a ortodoxia cristã, envenenada pelo trinitarismo e o catolicismo romano, nem tenha percebido o absurdo proposto. E repito: em Apocalipse 2:8, Jesus disse: “O primeiro e o último, que foi morto”. Ele declara que “o primeiro e o último” esteve morto. Ele não disse, como a ortodoxia cristã parece ter dito: “Eu sou o primeiro e o último que não morreu, mas que como um ser humano, fui morto”. Portanto, qualquer que tenha uma visão dualista para este versículo, na verdade, acaba negando o que Jesus disse, que o “primeiro e ultimo esteve morto”.

O Significado de primeiro e último para Cristo

E eu, quando vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; Eu sou o primeiro e o último”, Apoc 1:17.

Para os defensores da preexistência do Filho de Deus aqui está a principal evidência a favor de suas argumentações: “Jesus já existia desde tempos eternos”. Declaram que a palavra “primeiro” deve significar “princípio”. Portanto, para eles, Jesus existe desde o princípio. O problema é que essa linha de interpretação parece não ter entendido perfeitamente o verso 18, que declara,

“… E o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno”.

Qual seria, então, neste contexto, o sentido exato de ser o primeiro e o último? Perguntando de outra forma: Quem morreu na cruz? Isso parece escapar à atenção dos muitos dedicados a doutrina da “pré-existência”, que, se Jesus era o “filho eterno” ou “o Filho de Deus, Ele não poderia ter sido a semente prometida a Abraão, Isaque e Jacó, semente esta, como disse Paulo, que se tornou o mediador entre Deus e o homem (1 Tm. 2:5). Se, de fato, Jesus era o Filho de Deus, uma parte da “Divindade”, ou o “Filho eterno”, Ele não poderia ter se tornado um mediador entre Deus e o homem, como atesta as Escrituras.

O Senhor Jesus é descrito no Apocalipse como “o primogênito dentre os mortos” (Ap . 1:5), e isto é confirmado pelo próprio, quando ele instrui João a escrever, “Eu sou aquele que vive e fui morto” (Apoc 1: 18). A sentença continua, ou seja, o verso 18 completa o sentido do contexto, enfatizando de forma brilhante a vitória do Senhor sobre as hostes malignas, lhe dando o poderio sobre tudo e todos, “… E o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno”. Isso também significa ser o primeiro e o último, como veremos com mais detalhes nos comentários que se seguem. Aqui também temos uma revelação valiosa, pois se atentarmos para a palavra do verso 17, descobrimos que o Senhor tranquiliza João diante da visão deixando explícito ser dele o poder de abrir e fechar, e, portanto, demonstrando que ele tem a primazia. A nenhum outro homem será jamais dada tal autoridade, pois há apenas um mediador entre Deus e os homens: Jesus, o primeiro e o último, ninguém mais.

Há outra palavra interessante que o Senhor nos deixa de uma forma positiva neste contexto, e João a registrou como segue: “Eu sou a Raiz e a Geração de Davi”, Apoc 22:16. Poderia haver algo mais definitivo? As Escrituras provam que a pessoa a direita do Pai é de fato Jesus de Nazaré, que tinha morrido e que era um descendente do rei Davi, que ele não poderia ter sido pré-existente se sua raiz começava em Davi. E quando Miquéias 5: 2 diz do Messias: “Ó Belém …, de ti sairá [o Messias]”, só pode significar que, na sua existência única e terrena, ele se originou em Belém!

Detalhes importantes também encontramos nas palavras de Lucas em 1:32, e que podem causar danos irreparáveis para a doutrina da pré-existência do Messias como o “Filho eterno”, ou mesmo, “Deus Filho”. Observe que a pessoa a nascer de Maria era o Messias prometido, e era para ser chamado Filho do Altíssimo, e que Ele estava para reinar sobre o trono de seu pai, Davi: ”Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi“. Esse versículo mostra que Jesus de Nazaré passaria a ser chamado Filho do Altíssimo. Se Jesus tivesse sido o “Filho eterno”, ou “Deus Filho”, a natureza profética desta passagem estaria totalmente destruída.

Na verdade, o contexto que fala de Jesus como o “primeiro e o último”, mostra ele sendo levantado para a vida eterna pelo Senhor Deus e Pai. Assim, ele é chamado de o “primogênito dos mortos” (Colossenses 1:18). De qualquer maneira, parece haver aqui uma conexão entre suas declarações que ele se tornou morto e agora está vivo para todo o sempre.

Um detalhe importantíssimo que deve ser observado é porque as palavras “Eu sou o primeiro e o último” são seguidas pela sentença “Que foi morto e reviveu”. A adição feita por Jesus completa o sentido da mensagem transmitida. Nos dois versículos inspirados Jesus declara ser ele o primeiro e o último, mas acrescenta porque: que foi morto e reviveu.

Jesus não está dizendo que ele é preexistente quando usa a sentença nas duas passagens, e muito menos declara ter sido ele o criador. Também não devemos entender o primeiro e o último aplicados a Jesus em Apocalipse da mesma maneira que foi contextualizado por Isaías, quando declara sobre Deus em em 44:6, 8: “Eu sou o primeiro, e eu sou o último, e fora de mim não há Deus… Eu não conheço nenhum”.

O profeta reforça nestas expressões o domínio do Deus Todo-Poderoso, o “primeiro e último” em força (divindade), apresentando o Pai como a fonte de todo o poder, algo que os falsos deuses das nações não podem reclamar.

Compare com os textos que seguem: “Por isso hoje saberás, e refletirás no teu coração, que só o Senhor é Deus, em cima no céu e em baixo na terra; nenhum outro há”, Deuteronômio 4:39.

Vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor, e meu servo, a quem escolhi; para que o saibais, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo, e que antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá”, Isaías 43:10.

Em ambos os casos em que os termos “primeiro” e “último” são usados sobre Jesus, também sua morte e vida eterna são mencionados no contexto, Ap 1:17, 18 e 2:8. Jesus foi o primeiro a quem Deus deu à luz diretamente da morte por meio de seu Espírito Santo para nunca mais morrer de novo, Atos 2:24, 32, 26; 3:15; 4:10; 10:40; 13:30, 33, 37; 17:31; Romanos 4:24; 8:11; 10: 9; 1 Coríntios 6: 14; 15:15; Gálatas 1: 1; Colossenses 2:11, 12; 1 Tessalonicenses 1:9, 10; 1 Pedro 1:21; 3:18.

Todos os cristãos, que estiverem nos túmulos, Deus os trará a vida por meio de Jesus no ultimo dia: João 5:21, 22, 25, 27,28, 29; 6:39, 40, 44,54; 11:24; Atos 10:42; 17:31; Romanos 2:16, o que faz do Senhor Jesus o primeiro, ou seja, o primogênito de entre os mortos, sendo que nunca haverá outro que será o primogênito dentre os mortais, Col 1:18; Ap 1:5. Paulo diz em 1 Coríntios 15:20 que Cristo “foi feito as primícias dos que dormem”. Com efeito, uma vez que, no contexto, Jesus descreve a si mesmo como o primogênito dos mortos, podemos fazer aqui um paralelo como sendo ele “o primeiro e o último”, que após sua exaltação, reconciliou, justificou e salvou. Desta forma Jesus é designado como primeiro e ultimo, o que faz uma distinta aplicação nos termos para ele em relação ao Deus Todo-Poderoso. Ele é chamado de primeiro e ultimo, não porque ele é o Pai, mas, no contexto sempre tem a ver com sua morte e ressurreição, em oposição à nunca ter um começo e nem fim, sendo eterno passado e futuro eterno.

Deus não pode ser o primogênito dentre os mortos porque ele simplesmente não pode morrer, não pode ser trazido de volta à vida novamente depois da morte porque ele é imortal. Por outro lado o Senhor Jesus disse: “Eu estive morto”. Jesus não disse que apenas uma parte dele morreu. Apocalipse 1: 17,18 atesta: ”… Eu sou o primeiro e o último; E o que vivo e fui morto”, o que pode ser extremamente embaraçoso para a ortodoxia tradicional a qual propõe que Jesus sempre esteve na condição de eterno enquanto estava no túmulo. Se Jesus não morreu realmente na cruz então seu sacrifício foi uma farsa e nós permanecemos no nosso pecado, o que faz do Espírito Santo um mentiroso, pois ele inspirou Paulo a registrar que nosso velho homem foi com Cristo crucificado e morto (Romanos 6:6-8). O corpo de Cristo é aquele em que nos é dado a vida, ele é o início e o fim da nova criação nos decretos de Deus.

E aqui temos a principal evidência de que a adulteração de Apocalipse 1:10-13 na King James, acrescentando as palavras “Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último”, não é ilusão ou engano, mas um fato.

Como foi visto anteriormente, os dois textos inspirados em discussão neste tópico, imediatamente após a expressão “primeiro e último”, são acompanhados das palavras “e o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre” (Ap 1:18) e, “que foi morto, e reviveu” (Ap 2:8). Essa composição contextual nos deixa um tesouro de valor inestimável, que é a revelação do porque o Senhor Jesus foi chamado de primeiro e último.Primeiro e último neste contexto está ligado a sua morte, ressurreição e exaltação

Vamos observar que a passagem adulterada não nos possibilita visualizar a intenção de todo o contexto circundante, mas tenta transformar Jesus no Deus Todo Poderoso apenas para satisfazer interesses trinitários e ortodoxos, furtando o real significado de sua conquista sobre a morte que culmina na sua ressurreição, exaltação e glorificação. Assim, o contexto inspirado nos permite aplicar os termos primeiro e último em referência à vida incessante que ele recebeu depois de ter sido o primeiro ressuscitado, obtendo exclusividade como herdeiro e salvador do mundo. Por isso quando o Senhor Jesus foi levantado da morte para a glória, Ele foi o início de uma nova criação – Apocalipse 3:14, “E ao anjo da igreja que está em Laodicéia escreve: Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus”. Colossenses 1:15 diz que ele “é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação“ (Veja o artigo sobre Colossenses 1:16-19 clicando aqui: TUDO foi criado por Ele).

Cristo é o primeiro e o último, porque ele é o Autor e Consumador da fé, A Pedra angular, o homem por quem Deus julgará o mundo, e criador das novas eras vindouras (ver Heb. 1:10). Nele consiste Colossenses 1:17, “Ele é antes(superior a) de todas as coisas, e nele tudo subsiste”. Então, ele é o começo e o fim da nova criação de Deus, pois ele consumou a obra de redenção tendo completado tudo a nosso favor, nos fazendo assentar nos lugares celestiais, transferindo-nos do reino das trevas para o reino da luz (Ef 2:6; Col 1:13). A ele foi concedida uma imortalidade interminável e o poder de dar vida à humanidade pelo próprio doador da vida e sustentador, que é o Pai. Seu corpo foi levantado do túmulo para sempre, e, literalmente, o seu “outro” corpo, que é o de cristãos, também se levantará (1 Cor. 12:27 compare com Ef 2:6).

A Deus toda Glória

TUDO foi criado por Ele

criacao

O Apóstolo Paulo atesta sobre o Senhor Jesus: “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra”, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele”, Col 1:15-17

Tradução da NVI: “O qual é a imagem do Deus invisível, o primogênito sobre toda criatura, pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste”.

A passagem parece dizer que Jesus é o primogênito de toda criatura humana, como também diz que ele criou os céus e a terra e tudo quanto neles há, sendo, portanto, pré-existente, o que é reforçado pela sentença: “Ele é antes de todas as coisas”.

É bastante comum para a ortodoxia cristã convencional ler Colossenses 1:16 como referência ao ato da criação do Gênesis. Acredita-se que aqui nesse contexto Paulo está discursando sobre Jesus presente na criação, que Jesus foi o meio pelo qual Deus criou todas as coisas. Mas, será que o Apóstolo dos gentios está discursando sobre a preexistência de Jesus e o apresentando como o criador de todo o universo?

Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra… Tudo foi criado por ele e para ele”.

A maioria cristã aprendeu com essa passagem que o uso desta palavra indica que Deus, o Pai, estava com o Filho como parceiros iguais na criação.

Este é um exemplo clássico de como é importante considerar todo o contexto quando estudamos a Bíblia sobre qualquer assunto importante. Além disso, o maior erro das pessoas que lêem versículos isolados é não considerar quem está falando, e quais são as circunstâncias. Aqui, Paulo escreve aos santos na igreja dos colossenses lembrando-lhes quão abençoados eles são de estar em Cristo Jesus e “participar da herança dos santos na luz.” (versículo 12)

Para entender o que ele quis dizer quando escreveu de Cristo como o primogênito de toda a criação, e que nEle foram criadas todas as coisas, é preciso ler todo o texto circundante. Em particular, devemos olhar para os versículos 17 e 18 neste primeiro capítulo.

E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência.“

Perceberam alguma mudança? Observe que o texto acrescenta que ele é o princípio e o primogênito dentre os mortos. Além do mais, como mostro mais adiante, a palavra sobre Jesus, atestando que ele é antes de todas as coisas, significa que ele é superior a todas as coisas, que ele tem autoridade e primazia, e não que ele é “antes de todas as coisas” criadas no Gênesis. O contexto aqui não trata da criação original dos céus e da terra.

Parafraseando o texto: “Ele é superior a todas as coisas… ele é o cabeça… para que em tudo tenha a preeminência“.

As próprias palavras dos versículos 17 e 18 expostas mais acima falam por si só, elas são auto-explicativas e são consistentes com outros versos, como a profecia do Salmo 89:27. Este fala sobre um evento que ainda era futuro quando os Salmos foram registrados, “Também por isso lhe darei o lugar de primogênito; fá-lo-ei mais elevado do que os reis da terra“.

Os fatos bíblicos nos mostram que Paulo não está se referindo ao ato da criação do Gênesis em Colossenses 1:16. Ele está falando sobre a nova criação, a criação da estrutura de autoridade no reino de Cristo, a nova criação que é a reconciliação do velho. Paulo tinha em mente o que pode ser chamado de “nova criação” que teve início com a vitória de Cristo. Paulo passa a definir esta criação como compreendendo todas as coisas “no céu e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele“. Assim, Jesus é o primogênito e as primícias de uma nova criação – chamado de um “novo e vivo caminho” em Hebreus 10:20. Tudo foi feito por ele e por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez (Comparar com João 1:3).

Quando vemos a palavra “criar” ou “criação” não podemos simplesmente assumir que se refere ao relato da criação de Gênesis. Deus está criando de novo através de, e em Cristo. Em Efésios 2:10, Paulo diz que somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus. Nós morremos para a velha criação e nascemos de novo para a nova criação de Deus. Em 2 Coríntios 5:16-19, aprendemos que Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo e se estamos em Cristo ressuscitado fomos reconciliados com Deus e participamos de uma nova criação.

“Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Por isso daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne; e, ainda que tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos desse modo. Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. Mas todas as coisas provêm de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação; pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação. 2 Cor 5:14-19. Se alguém está em Cristo pelo batismo, ele é uma nova criação. Observe o verso chave: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”, v 17.

Coisas velhas incluem o pecado de Adão e a velha criação. Tudo se fez novo. Acabou. Isso é que significa ESTÁ CONSUMADO! Somos perdoados em Cristo e na sua morte fomos batizados como novas criaturas. Ou seja, batizados quando Cristo é sepultado, e quando Cristo se levantou na ressurreição, significa que ressuscitamos com ele. Isso é o que significa ter Cristo morrido por nós, como também significa nascer de novo. Compare com Romanos 6:4, que diz, “Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida“.

Assim uma pessoa “em Cristo” é descrito como uma “nova criatura”, ou “nova criação” (Gl 6:15), e que as “coisas” que em Cristo é dito terem sido criadas e estão “nele”, são, obviamente, esta “nova criação” citada pelo apóstolo Paulo. Cristo é o começo desta nova criação de Deus (Ap 3:14), abrindo o caminho para que seus seguidores possam atingir o mesmo objetivo (Filipenses 3:21, 1 João 3:1-2).

Estas novas criaturas não podem viver conforme a velha criação. O planeta literal não pode ser creditado por estar em Cristo. A criação anterior permanece existindo paralela à missão completa de Jesus, estando ainda subjugada ao príncipe deste mundo. Portanto, a nova criatura participa da nova criação apresentada por Paulo em Colossenses, o qual insiste: “nEle foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra”, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele”.

No verso 18, Paulo fala de Jesus como “o primogênito dentre os mortos”, o que é uma referência a ser ele o “primogênito de toda a criação”. Ou seja, o primogênito da nova criação de Deus. Primogênito por que foi o primeiro a ressuscitar e não morrer mais, o que também nos deu o direito de participarmos da ressurreição sendo novas criaturas de uma nova criação. Devemos aceitar isso pela fé, pois o Apóstolo afirma categoricamente que nós fomos ressuscitados por Deus juntamente com Jesus e estamos assentados nas regiões celestiais ( Efésios 2:6), o que tornar-se-a realidade plena no Seu reino vindouro.

Jesus tornou-se “o Filho de Deus com poder” por sua ressurreição dentre os mortos: “… com poder foi declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo nosso Senhor” (Romanos 1:4).

Deus “ressuscitou Jesus, como também está escrito no salmo segundo: Tu és meu Filho, hoje te gerei” (Atos 13:32,33). Isso tudo significa que pela sua ressurreição, Jesus tornou-se o primogênito de uma nova criação. Sua ressurreição foi o selo de aprovação do Pai, no Filho (Rm 1, 1-4). Isto constituiu o Primogênito.

Paulo escreveu: “Ele é … o primogênito dentre os mortos, para que em todas as coisas ele tenha a preeminência” (Cl 1:18). Ele é o “primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29), o que deve ser associado ao contexto de Jesus como ”o primogênito de toda criatura”, ou a NOVA criação, que é o sentido em Apocalipse quando fala do “primogênito dentre os mortos … o princípio da [nova] criação de Deus” (Ap 1:5; 3:14).

Jesus foi o primeiro a ser ressuscitado para a imortalidade (Lázaro e outros ressuscitados nas Escrituras morreram posteriormente). Uma vez que Jesus é o primeiro homem a ser ressuscitado para a imortalidade, fez dele o “primogênito dentre os mortos”, o primeiro e o último descrito em Apocalipse 1:17 e 2:8, chamado por Paulo, o novo homem,

Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz (Ef 2:15).

E vos renoveis no espírito da vossa mente; E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:23,24).

O novo homem, a nova criatura, não mais se ajusta ao mundo presente, mas para ele também foi antecipado viver sob uma nova criação – esta é a mesma ideia que vemos aqui em Colossenses. Jesus foi a primeira pessoa a ressuscitar dentre os mortos e ter a imortalidade, sendo o primeiro da nova criação, e os verdadeiros crentes seguirão o padrão em seu retorno.

Cristo é a “cabeça do corpo, da igreja”. Consequentemente também pode ser dito que ele é o criador deste novo e vivo caminho. Foi a sua vida de obediência à vontade do Pai e do seu sacrifício fiel que lançou a pedra fundamental do seu templo espiritual, o corpo de crentes. Ele também é considerado o “autor e consumador da nossa fé” em Hebreus 1:2. Todos estes termos de louvor e exaltação são apropriados para Jesus Cristo, nosso Senhor e Mestre na nova criação. Jesus é o autor, o Senhor, o criador desta nova ordem de coisas, como diz Paulo em Colossenses 1:16: “Porque nele foram criadas todas as coisas que estão no céu, e que estão na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades: tudo foi criado por ele e para ele”.

Certamente Paulo não está aqui nos dando uma aula de teologia sistemática relacionado à criação original dos céus e da terra. Observe que o contexto não revela que Cristo criou todas as coisas. Um exame atento da passagem irá revelar algo estranho e curioso, pois afirma que ele criou todas as coisas “no céu”. Isso incluiria o próprio Deus, para não falar dos anjos!

Isso está, obviamente, fora de ordem. Certamente, a criação falada neste contexto de Colossenses, refere-se à nova criação através do trabalho de Jesus, quando foram criadas todas as coisas: tronos, domínios, salvação, perdão, reconciliação, novo homem e tudo que diz respeito a antecipação do reino de Deus na terra. Paulo não diz que Jesus criou todas as coisas e, em seguida, nos mostra exemplos de rios, montanhas, pássaros, etc. O sentido em dizer que “nEle foram criadas todas as coisas nos céus e na terra” diz respeito ao seu domínio nas eras que se seguiram a sua ressurreição e ascensão e a sua vitória sobre a desordem causada pela queda do homem. Assim, podemos também ler em Efésios 2:6, como a ordem das coisas mudaram no céu, pois aqui é dito que os crentes estão em Cristo como assentados em “lugares celestiais”.

O contexto de Colossenses não diz que Jesus é o primogênito da velha criação, pois se ele adentrou a este mundo em semelhança da carne do pecado (Rom 8:3) crucificando com ele nosso velho homem, levando-o a sepultura (Rom 6:6-8), vantagem alguma haveria neste louvor Paulino de Colossenses capítulo um. O Novo homem não nasceu da antiga criação. Toda criação humana está ainda torta, sujeita à vaidade, na servidão da corrupção, gemendo e labutando na dor como resultado do pecado de Adão (Romanos 8:19-22). A velha criação humana está agora sob a servidão da corrupção, e não pode libertar-se (Romanos 5:12; 1 Pedro 4:1-4)

Colossenses ensina que houve uma mudança enorme feita na posição espiritual de muitas criaturas, as quais agora podem experimentar os efeitos da missão do nosso Salvador, que é aquilo que apenas se transforma em realidade para àqueles que crêem em Cristo e estão nEle. O mundo não pode experimentar essa realidade presente: “Porque Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado” (Cl 1:13).

É importante lembrar aqui que foi o próprio Cristo quem descreveu a criação original como sendo trabalho de Deus, e não dele: “Porque naqueles dias haverá uma aflição tal, qual nunca houve desde o princípio da criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá” (Marcos 13:19). Compare com Hebreus 4:4, onde Deus, não Jesus, descansou da obra da criação: “Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia”.

Parece que muitos não consideram Isaías quando testifica que Deus criou tudo sozinho.

A João Ferreira de Almeida Revista Atualizada, diz: “Assim diz o SENHOR, que te redime, o mesmo que te formou desde o ventre materno: Eu sou o SENHOR, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra” (Isaías 44:24).

João Ferreira de Almeida Atualizada: “Assim diz o Senhor, teu Redentor, e que te formou desde o ventre: Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus, e espraiei a terra, quem estava comigo?”

A NTLH piora bastante a situação dos Trinitarianos: “O SENHOR, o Salvador de Israel, diz: “Meu povo, eu sou o seu Criador; antes que você tivesse nascido, eu já o havia criado. Sozinho, eu criei todas as coisas; estendi os céus e firmei a terra sem a ajuda de ninguém”.

Paulo, na verdade, parece dar uma descrição exata do que ele quer dizer com “todas as coisas” criadas – “tronos, poderes, governantes, autoridades”. Isto é, Cristo está sendo chamado de criador porque está nos dando uma antevisão do seu reino na terra. Em outras palavras, “todas as coisas” – neste caso, “tronos, dominações, principados e potestades” – foram criados em Jesus, através” dele e “para” ele. Paulo não está dizendo aqui que Jesus foi o criador no versículo de abertura de Gênesis , mas que ele era o centro da hierarquia cósmica de Deus. Todas as autoridades deveriam ser submetidas ao Filho, que iria finalmente entregar tudo de volta para o Pai, o Senhor a quem devia fidelidade, para que “Deus possa ser tudo em todos” (1 Cor. 15:28). E é exatamente isso que nos esclarece o contexto da passagem em discussão. Observe: “… havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” (Colossenses 1:20).

Paulo diz que quando Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, e foi colocado à mão direita de Deus nos “lugares celestiais”, sua nova posição o levou a um estado “muito acima de todo governo e autoridade, poder e domínio, e de todo nome que pode ser dado , não só no presente século, mas também no vindouro” (Efésios 1:21). Não só isso, mas “Deus colocou todas as coisas debaixo de seus pés” (v. 22). Colossenses 1:17 ecoa, ao dizer que “nele tudo subsiste”; Colossenses 2:10 descreve-o como “a cabeça de todo poder e autoridade“.

Deus recompensou a “obediência até a morte” de Jesus e muito o exaltou dando-lhe o nome que está acima de todo nome, o que Paulo confirma: “Ao nome de Jesus todo joelho deve se curvar, no céu, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Filipenses 2:8-11) .

Estas atribuições de autoridade suprema a Cristo, sob Deus, sugerem que, quando Cristo veio para ser assentado à destra de Deus, ele – por sua vez – criou um novo sistema de regências entre os seres angelicais, bem como preparou um lugar de honra diante do Pai para todos os seus fiéis, tanto no presente como na idade vindoura (João 14:2,3). Tudo isso é, então, parte da “nova criação.” É esta a nova criação o tema de Colossenses 1:15-17.

O impacto da ressurreição de Jesus foi tão grande que, mesmo agora, um seguidor do Senhor é elevado a uma posição de privilégio em relação a Deus e Seu Filho, descrito como “os céus em Cristo” (Ef 1: 3). Esses “céus” foram trazidos à existência por meio de Cristo, e eles são os precursores dos políticos “céus” para se manifestar na idade para vir quando ele governará na terra. Neles são encontrados graduações de autoridade, descrito como tronos, dominações e assim por diante, alguns dos quais são visíveis e alguns dos quais ainda estão para se manifestar, e, portanto, ainda são invisíveis. A ordem das novas coisas, incluindo céus e terra, mundo por vir, ressurreição dos santos, redenção e etc, foram criadas por ele e para ele, sendo que tudo será revelado após a volta do Senhor Jesus.

Para resumir, Colossenses 1:16 não ensina a criação literal dos céus e da terra por Jesus, porque:

  1. Entra em conflito com o testemunho do Antigo Testamento, que ensina que foi Deus que criou.
  2. Os céus, e tudo criado por ele, em questão aqui em Colossensses, só podem ser entendidos quando aplicados para as coisas espirituais.
  3. Outras expressões do Apóstolo alinham os “céus” para posições de privilégio em Cristo.

Antes de Todas as Coisas

O versículo 17 diz que Cristo é “antes de tudo” – pró panton, no grego. Esta frase foi tomada como prova de sua preexistência pessoal. Mas é preciso ter cuidado, pois o verbo aqui está no tempo presente – “é”, e não “era”. Paulo não nos diz que Cristo “foi” antes de todas as coisas, como evidência de preexistência. Portanto, esse “antes” deve ter outro significado.

A palavra grega usada – pro – tem três usos comuns: antes, no sentido de lugar – na frente; antes, no sentido de tempo = “antes”, e antes, no sentido de preeminência, rank , ou vantagem . O último uso é visto em 1 Pedro 4:8 – pró panton, “antes de todas as coisas“, ou seja, “acima de todas as coisas” = “mais importante de todas“. Aqui em Colossenses, pro, não tem nada a ver com tempo ou lugar, mas sublinha como o amor cristão é preeminente acima de todas as outras virtudes. Tiago 5:12 é um outro exemplo do mesmo uso da frase pro panton .

Dizer, portanto, que Cristo é pró panton é dizer que a ele é dado o primeiro lugar no universo todo de Deus. Isto lembra o episódio em que Faraó exalta José para o “primeiro lugar” no Egito. Ele lhe disse: “Você deve estar no comando do meu palácio, e todo o meu povo se sujeitará às suas ordens. Somente em relação ao trono eu serei maior do que você. . . Tenho a honra de colocar você no comando de toda a terra do Egito. . . Eu sou o faraó, mas sem a sua palavra ninguém levantará a mão ou o pé em todo o Egito” (Gn 41:40, 41, 44). Este é o tipo de preeminência e regência que Deus concedeu ao seu filho – para ser mais do que todos os outros seres – tipificado apenas vagamente pela história da própria exaltação de José!

E não esqueçamos da liderança de Cristo sobre a igreja, que é um tema frequente nos escritos de Paulo. O versículo 18 declara sua chefia, e passa a chamá-lo de arche, “princípio”. Esta palavra também significa “governante, autoridade”. Ele dá mais ênfase ao tema de Paulo da preeminência de Cristo e a autoridade suprema em Deus, sendo que a autoridade conferida agora faz com que todas as coisas começem e terminem em Cristo.

Como o início da nova criação, ele é o “primogênito dentre os mortos“, o primeiro ser humano a subir imortal da sepultura e tornar-se assim um “participante da natureza divina” (2 Pedro 1:4). Como Senhor e também sendo “o primeiro a ser ressurreto” dentre os mortos, porque ele, por sua vez é o Doador da vida, o Príncipe da Vida – sua voz irá despertar os mortos de seus túmulos (João 5:21-29; Atos 3:15 ). E é pela ressurreição dos mortos que ele alcança sua posição suprema (v. 18: “para que”). Isto significa que ele não tinha essa posição antes.

Como sempre, o contexto (inimigo público dos trinitarianos) é um fator importante na interpretação. O foco de Paulo nesta passagem é sobre a “herança” (futuro) “reino”, e “autoridades” (Cl 1:12, 13, 16). Isto sugere fortemente que ele tem em mente a nova criação em Cristo que é o rei messiânico da nova ordem de Deus.

A Deus toda Glória

“Eu sou de cima”

“Eu sou de cima” (João 8:23).

Esta afirmação é muitas vezes usada para ensinar que Jesus estava no céu antes de vir para a terra. O contexto do verso, no entanto, mostra que essa interpretação é incorreta. Jesus declarou aos judeus: “Vós sois de baixo: eu sou de cima“, então, na explicação, ele continuou: “. Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo” Cristo era “de cima” e “não é deste mundo”, porque Deus era seu Pai, e ele se manifestou em sabedoria e características que eram celestiais, isto é, vindas de Deus.

Se Jesus realmente quer dizer que  em sua encarnação Ele literalmente desceu “de cima” porque preexistia no céu, então, para que tratemos desta  antítese de forma consistente, que em sendo esses judeus incrédulos, “de baixo“, deve significar que eles literalmente preexistiam no inferno (localizado “abaixo”, dentro da terra), o que é um absurdo.

Nas palavras, “Vós sois de baixo, eu sou de cima; vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo”, Jesus está querendo dizer o seguinte aos judeus: “Vocês pertencem ao que está embaixo, eu pertenço ao que está acima”. Assim, Jesus está afirmando que seus adversários estão abaixo em um sentido espiritual, ou seja, seus valores refletem  que eles são do mundo e, portanto, sem Deus na sua vida. Em contraste, Jesus é espiritualmente “de cima” no sentido de que seus valores têm origem em Deus e, portanto, vem do céu.  Jesus não ser deste mundo, significa que Ele não pertence a este mundo, porque Ele não vive de acordo com os seus padrões. Assim, Jesus não se refere aqui que Ele literalmente veio do céu no momento de uma encarnação, mas que, eticamente, ele é das coisas do céu.

É o mesmo com os onze apóstolos. Jesus orou ao Pai sobre eles, dizendo: “Como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo 17,18; cf 1,6). Se Deus enviar Jesus ao mundo significa que  Jesus literalmente vivia antes disso no céu, confirmando assim a clássica encarnação, então, para ser consistente, o envio por  Jesus de Seus discípulos ao mundo, deve implicar a  preexistência e encarnação dos mesmos. Ora,  se Jesus “não é deste mundo“, e como um ser preexistia no céu, então, para que sejamos justos e coerentes, devemos entender que na oração pelos discípulos, “Eles não são do mundo, assim como eu não sou do mundo” (Jo 17,16), que eles também são seres pré-existentes que encarnaram. Esse não é o sentido em que as palavras de Cristo devem ser entendidas. Ele “não era deste mundo” no mesmo sentido que João exortou os crentes a ser “não deste mundo” (1 João 2:15). O seguidor de Cristo deve olhar para além das coisas da terra – deste mundo. Ele deve olhar  para a glória ainda a ser revelada, e tornar-se mentalmente e moralmente alterado pela influência que é “de cima”.

Um homem que “ama o mundo” é “de baixo”, ou da “terra”, mas alguém que tem “o amor do Pai” habitando nele é “de cima” (1 João 2:15). Jesus disse a Nicodemos que uma pessoa deve “nascer do alto” (João 3:3) se ele quer herdar o reino de Deus. Esse tal é gerado pela palavra de Deus (I Pedro 1:23 e 1 João 3:9-10), por uma “sabedoria que vem do alto” (Tiago 3:15-18). O personagem que ele vai desenvolver é  moldado pela Palavra que habita nele (João 17:17), para que ele possa reivindicar ser “de cima”, embora ele nunca foi, literalmente, do céu.

Outra característica única do Evangelho de João é quando freqüentemente contrasta metáforas e antíteses. Por exemplo, João (geralmente citando Jesus) contrasta a luz com as trevas (Jo 1,5-9; 3,19-21; 8,12; 9,4-5; 12,35-36, 46), a vida com a morte (Jo 1,4; 5,21-26,54; 8,51-52; 11,25), a liberdade com a escravidão (Jo 8,32-38), que tem a ver com a cegueira (Jo 9,39-41). O mesmo é  verdade das expressões que envolvem Jesus e os judeus incrédulos neste contexto, como “os debaixo e os de cima”. Os termos não estão falando de origens literais,  mas como indicador de uma realidade espiritual.

Esta interpretação metafórica de Jo 8:23 serve como uma explicação de Jo 3:31 e Jo 6:25-65. Ou seja, todas as três passagens significam que o ministério de Jesus é espiritualmente, não literalmente, “de cima”, ou seja, do céu, tem origem em Deus. Portanto, assim se conclui a  linguagem de subida/descida em João 3:31, para interpretar a obra salvadora de Deus em Jesus. Certamente a Bíblia não fala do modelo da descida de uma Segunda Pessoa da Trindade ao mundo, o que só serviu para confundir a cristandade eliminando o conceito real, que é a presença interior de Deus em Cristo através do Espírito Santo. Isso tudo pode ser chamado de “Deus em Cristo reconciliando consigo o mundo”, como atesta o apóstolo Paulo em II Cor 5:19.

“Ele é antes de mim”

João Batista declara em João 1:15, 30: “… Este é o de quem eu disse: o que vem depois de mim tem, contudo, a primazia, porquanto já existia antes de mimÉ este a favor de quem eu disse: após mim vem um varão que tem a primazia, porque já existia antes de mim”.

O significado pode mudar drasticamente se atentarmos para a redação dos mesmos textos, mas em outras versões.

Verso 15: “João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu”.

Verso 30: “Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem que é antes de mim, porque foi primeiro do que eu”.

O evangelista Marcos dentro do mesmo contexto coloca o versículo da seguinte forma: “E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das sandálias”, Marcos 1:7.

Note o leitor que João simplesmente estava querendo dizer que, “o que vem depois de mim é [superior] antes de mim”. O significado é óbvio; Jesus tem um maior grau de autoridade no reino de Deus do que João Batista.

Traduções tendenciosas e trinitarianas registram João Batista “afirmando” que Jesus já existia antes dele. Uma vez que João Batista nasceu seis meses antes de Jesus (Lc 1:24-31), esta cláusula independente exigiria a preexistência do Messias. No entanto, a AV e a RSV traduzem esta segunda cláusula diferente: “ele foi antes de mim”. Algumas traduções em português, como a ARC de 1995, traduzem como, “Ele foi primeiro do que eu“. Outras, como visto nas primeiras citações, associam as duas frases, “O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu”.

Este tipo de tradução não é sobre a preexistência, mas representa uma reiteração da cláusula primeira, isto é, que Jesus supera João Batista. Por isso João disse em outro verso,”Importa que Ele cresça e que eu diminua”, João 3:30.

Deus seja louvado

“Pai, glorifica-me com aquela glória”

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Agora, Pai, glorifica-me junto de ti mesmo, com aquela glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse”, João 17:5

Na superfície, pode-se facilmente levar as palavras de Jesus como se referindo a algo que ele já teve e não tem mais. Os trinitarianos imaginam que Jesus está falando de um “tempo” quando ele estava com o Pai na eternidade, quando então ele compartilhou essa glória com Ele.

Este é um dos versos preferidos dos patrocinadores da doutrina do Messias preexistente. Alguém já imaginou um Messias preexistente? Algo poderia soar mais confuso do que isto? Pode haver uma doutrina mais confusa do que aquela que afirma ter existido no céu alguém que a Bíblia garante que seria “semente da mulher”, descendente de Abraão e Davi?

Para muitos, se um Jesus preexistente tinha desistido de sua glória quando ele desceu do céu para ser encarnado, e ele está pedindo para que esta glória seja devolvida a ele, seria de se esperar que ele dissesse: “Agora, Pai, glorifica-me junto de ti mesmo , com a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse”. Compare isso com 2 Timóteo 1:9, que diz: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos”.

Não poderíamos fazer uma oração semelhante como a que Jesus fez em João capítulo 17 e dizer: “Eu te agradeço Pai pela graça que tive contigo antes do mundo existir?” Será que esta oração nos faz preexistentes porque tivemos graça aos olhos de Deus antes do mundo ser criado?

E quanto a Tito 1: 2? “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos”. Será que poderíamos orar como Jesus aqui também, dizendo: “Pai, glorifica-me com a vida eterna que tive contigo antes do mundo existir?” Esse tipo de oração nos faz preexistir na eternidade passada? Evidente que não. Como recebemos a PROMESSA dada a nós – desde antes dos tempos eternos – Cristo também recebeu a Glória PROMETIDA desde antes da fundação do mundo por suportar a cruz. Logo, em João 17:5, é evidente que Jesus estava simplesmente pedindo a glória que lhe foi prometida pelo Pai antes que o mundo existisse, e não que ele estava lá como um Filho preexistente.

Em João 17:22 Jesus diz: “E eu lhes dei a glória que tu me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um”. E aqui, podemos fazer o mesmo, orando, “glorifica-me Jesus com a glória que tive contigo antes de ir para a cruz?” Ora, nós não vivíamos no tempo em que Jesus sofreu e morreu na cruz. Além disso, temos aqui uma promessa para ser ainda recebida no futuro, após a ressurreição e estabelecimento do reino de Deus.

Obviamente, Jesus, em João 17:5, está clamando pela promessa de Deus, que Deus prometeu em seu plano antes que o mundo existisse, que foi glorificá-lo com sua própria glória, para que o Filho do homem se tornasse o Filho Eterno de Deus na nova criação feita na perfeita imagem de Deus em justiça e imortalidade. Este é o real significado de João 17: 5, que não prova de forma alguma que Jesus preexistiu com Deus ao seu lado como uma pessoa divina na eternidade passada.

A palavra “eu tinha”, em “a Glória que tinha contigo antes do mundo existir”, é a palavra grega “eichon” , que significa manter, guardar como posse, como uma condição. Em outras palavras, Jesus está pedindo ao Pai para glorificá-lo com a glória que Deus prometeu e estava reservando para ele. Como nós não temos realmente, ou possuímos a vida eterna em nós ainda, mas este previlégio é colocado diante de nós como uma PROMESSA certa sendo reservada no céu esperando por nós, assim foi com Cristo na expectativa da sua oração pela glória que lhe era devida.

O léxico de Thayer, do grego para inglês, define essa palavra “eichon” de forma semelhante, que a grosso modo significa, “ter guardado”, no sentido de algo que está retido. Assim, João 17;5 poderia ser traduzido com muita facilidade da seguinte forma: “Glorifica-me com aquela glória que eu tenho guardada e reservada contigo antes do mundo existir”.

Quando Jesus foi glorificado

Jesus não foi glorificado até que Deus o ressuscitou dentre os mortos: “E isto disse ele do Espírito, que aqueles que acreditavam Nele estavam para receber, porque o Espírito Santo ainda não fora dado, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado”, João 7:39.

Porventura não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?”, Lucas 24:26.

“… Os seus discípulos, porém, não entenderam isto no princípio; mas, quando Jesus foi glorificado, então se lembraram de que isto estava escrito dele, e que isto lhe fizeram”, João 12:16.

Portanto, quando chegou o momento, ele disse: “agora, Pai, glorifica-me …”, João 17:5.

A verdade da questão torna-se muito clara. Jesus estava ciente de que tinha sido amado por Deus antes que o mundo existisse. Pedro ensinou que o Senhor foi “conhecido antes da fundação do mundo, mas foi manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” (1 Pedro 1:20). João descreve-o como “o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Ap 13:8). Está aí a glória. A glória do Cristo recebida na ressurreição. O texto diz que isso foi prometido desde a fundação do mundo.

Jesus foi “morto desde a fundação do mundo?” Normalmente, sim, nos sacrifícios fornecidos, mas literalmente, não. Embora ele mesmo ainda não, no momento da oração, tivesse sido glorificado, as Escrituras enfatizam que Jesus obteve essa glória, prometida desde a fundação do mundo, ao completar na cruz a sua vitória sobre o pecado. O escritor aos Hebreus confirma: “Vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem” (Hebreus 2:9)

Em Atos 3:13, referindo-se a ressurreição e ascensão de Jesus ao céu, Pedro diz: “O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a quem vós traístes e negastes perante Pilatos, quando este havia decidido soltá-lo“.

Na sua primeira epístola, Pedro diz novamente que Deus “o ressuscitou [Jesus] dentre os mortos e lhe deu glória...” (1 Pedro 1:21).

O próprio Jesus, falando com dois discípulos no caminho de Emaús enfatiza que a sua glorificação era posterior aos seus sofrimentos dizendo: “Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?” (Lucas 24:26; ver também João 7:39, João 12:16).

As passagens anteriores demonstram que Jesus não pode ter literalmente usufruído de glória antes do seu nascimento, porque somente podia recebê-la depois de ter terminado o seu ministério com êxito. Tanto a existência de Jesus antes que o mundo existisse, como a sua glorificação, somente podem ter existido de forma antecipada na mente e propósito de Deus. Este propósito foi aos poucos revelado aos profetas. Falando do que ia acontecer, o Senhor disse. “O Filho do Homem vai, como está escrito a seu respeito…” (Mateus 26:24).

Os versículos que são citados para apoiar a ideia da suposta “preexistência” de Jesus Cristo não indicam que ele realmente viveu no céu antes de nascer. Simplesmente enfatizam em linguagem figurada o fato que a aparição do Senhor Jesus na terra não foi uma coisa do acaso, mas um acontecimento que foi determinado e autorizado pelo seu Pai celestial desde antes da criação do mundo. Portanto, quando Jesus pediu ao pai para dar-lhe a glória que ele tinha com ele antes que o mundo começou, Ele não estava falando de uma época em que Ele viveu em um corpo de carne divina celestial ao lado do Pai, como segunda pessoa da trindade. A glória de que Jesus falou era a glória que Ele, como um homem, teria no cumprimento do plano de Deus preordenado para redenção da humanidade. Jesus olhou para a frente, e orou pedindo ao Pai para dar a Ele, para que Ele pudesse compartilhar com todos os crentes, “A glória que Tu me deste, eu lhes dei” (João 17:22).

Os seguidores de Cristo possuem esta glória agora? Não! Eles estão apenas “na esperança” dessa glória, “pelo qual também obtemos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus”, Rom 5:2.

Como Cristo pode, então, afirmar ter dado a eles essa glória? Apenas no sentido de que ele prometeu, conhecendo de antemão que a quem é dada em promessa cumprirá as condições para recebê-lo, finalmente, na realidade. Assim, um seguidor que aceita a vinda de Cristo poderia falar como o Senhor, quando ele mesmo orou ao Pai:

Glorifica-me com a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse“.

Deus conhece o propósito concluído, e sabendo que Ele quer trazê-lo para a consumação, é capaz de “chamar as coisas que não são como se elas fossem” (Rm 4:17). Observe também, que a Escritura fala de outros preexistentes, bem como Cristo. Considere o seguinte:

Dos crentes, Paulo escreveu: “Os que dantes conheceu“, (Rom. 8:29).

Ele já dantes preparou os {observe o verbo no passado} para a glória“, (Rm 9:23 cf. 2 Tm. 1:9).

Ele também nos elegeu nele antes da fundação do mundo“, (Ef 1:4).

De Jeremias, o Senhor disse: “Antes que eu te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei, e te dei por profeta para as nações“, (Jeremias 1:5).

Mas quem iria disputar a preexistência de Jeremias e de outros crentes? Assim, a linguagem de João 17:5 deve ser entendida de uma maneira consistente com todo o contexto sobre ter sido Jesus a semente da mulher e não um ser preexistente. Certamente o contexto de João não deve ser usado para ensinar a preexistência de Jesus, pois se assim for, haverá sérios conflitos com muitas outras referências que falam dele como o filho de Davi que nasceu há mais de 20 séculos.

Por outro lado, Paulo, em Gálatas 1:15 afirma que quando Cristo voltar, aos seus seguidores será concedida uma glória “semelhante” a que foi concedida ao Filho. Eles vão ser “conformes à imagem do Filho de Deus, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29).

Sua responsabilidade

É muito difícil livrar nossas mentes de preconceitos, mas é necessário se quisermos encontrar a verdade. No entanto, para milhões de cristãos não há problema algum em crer que um anjo, ou um ser preexistente, deve tornar-se um bebê, e ser obrigado a aprender de novo todas aquelas coisas que uma vez ele sabia.

Não, a verdade é simples e clara. O Espírito de Deus causou o nascimento de seu filho, e o fortaleceu em sua peregrinação diária para a vitória sobre o pecado. Ao fazê-lo, foi revelado o meio de vitória para cada um de nós: ajuda e força (Filipenses 4:13) divina. Um exame cuidadoso da Escritura vai mostrar que a doutrina da preexistência é tanto ilógica como falsa.

“Antes que Abraão existisse, Eu sou”

Abraao

A chamada Ortodoxia Cristã defende ter sido Jesus divino e Deus quando esteve neste mundo; afirmam que o grego ego eimi, “eu sou”, é uma técnica de linguagem intencional implementado por Jesus para invocar o nome divino e identificar-se como (um) Deus. Quando Jesus disse: “Eu sou”, neste contexto [João 8:58], deve ser entendido para ser uma citação de referência a Deus para Si mesmo como EU SOU em Êxodo 3:14.

Nesse versículo, segundo os trinitarianos e segundo a maioria de nossas versões modernas, quando Moisés perguntou o nome de Deus, Deus teria respondido: “EU SOU O QUE EU SOU” e, em seguida, disse, É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês“.

A Septuaginta foi uma tradução do Velho Testamento em hebraico para o idioma grego. Como ela verteu a passagem de Êxodo 3:14? A expressão hebraica “Ehye asher ehye” de Êxodo 3:14 foi traduzida em grego na septuaginta por: ἐγώ εἰμί ὁ ὤν (Ego Eimi Ho On). Em português essa expressão seria algo próximo de “Eu sou (ego eimi) aquele que é (Ho On)”.

O texto todo de Êxodo 3:14, de acordo com a Septuaginta, fica dessa forma: “E disse Deus a Moisés: Egō eimi ho ōn (Eu sou aquele que é). Assim dirás aos filhos de Israel: Ho ōn apestalken me pros hymas (Aquele que é me enviou a vós)”. O que Deus disse para Moisés, que Ele era o “Eu Sou” (ego eimi) ou Ele disse que era “Aquele que é” (Ho on)?

Deus não estava dizendo “Eu sou Eu sou.” A frase “Eu sou o que sou”, literalmente, significa “Eu sou aquele que é“. Deus estava dizendo a Moisés que o nome que ele deveria dar aos filhos de Israel é “Aquele que é“, e não “eu sou o que sou“. A frase, “eu sou”, simplesmente é inserida no texto para identificação de quem é nomeado. Ou seja, é como se um enviado perguntasse a autoridade que o envia, o seu nome para identificação posterior. Seria uma construção textual semelhante a essa: “como eu poderia identificá-lo ao me encontrar com as pessoas que devem receber vossa mensagem?” O indagado simplesmente responde: “Eu sou Carlos, diga-lhes que Carlos o enviou“. O mensageiro jamais poderia chegar aos endereçados e dizer que “EU SOU Carlos me enviou a vós“, mas apenas dizer que Carlos o enviou. O verso tem a expressão “Eu sou”, mas ela não identifica o nome de Deus. A expressão só é usada para Deus complementar dizendo que era HO ON. Deus diz que é “Ho on”, não que ele é “Ego eimi”.

Deus não disse ser um certo “Ego Eimi” (eu sou), ele disse ser “Aquele que é” (ho On). A ideia foi dizer “Eu sou AQUELE QUE É”, tanto é que quando Moisés perguntou o que diria quando fosse indagado sobre quem o enviou, Deus manda Moisés responder “HO ON (AQUELE QUE É) me enviou a vós”, Ele não disse “Ego Eimi” me enviou a vós”.

Jesus não reivindicou este título. Observem o texto: “Disse lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão fosse eu sou”. Se Jesus quisesse fazer alusão ao “ὁ ὤν” (ho On) de Êxodo 3.14, teria usado a idêntica construção, e não precisaria tomar por base a existência de Abraão.

Sobre esse ponto, o Apologista Valdomiro Filho comenta com muita propriedade:

“O problema é que há traduções que verteram HO ON como “AQUELE QUE É” na primeira ocorrência e o mesmo HO ON como “Eu Sou” na ocorrência seguinte. A expressão HO ON não está em Jo. 8.58. Todos os livros e comentários que você já leu, digo com simplicidade e sem medo de errar, estão equivocados quando tentam comparar João 8.58 com Ex. 3.14 dizendo que Jesus é o EU SOU do Antigo Testamento, porque simplesmente as construções são diferentes. Se considerarmos o hebraico, que é a língua em que originalmente foi escrito o livro de Êxodo ai é que se descarta mesmo, porque a construção verbal do hebraico, daquela passagem, é causativa e em João é, seguramente, grego no presente do indicativo ativo. Se for os dois em grego, um é particípio e o outro presente do indicativo ativo.

Vamos, para ficar didaticamente mais visível, dividir o verso de Êxodo em duas partes: A + B. A) “καὶ (e) εἶπεν (disse) ὁ θεὸς (Deus) πρὸς (a) μωυσῆν (Moisés) ἐγώ (eu) εἰμι (sou) ὁ ὤν (AQUELE QUE É).

Pergunto o seguinte: Deus em “A” disse ser “ego eimi” ou Deus disse ser “HO ON”? B) καὶ (e/também) εἶπεν (disse:) οὕτως (assim) ἐρεῖς (dirás) τοῖς (aos) υἱοῖς (filhos [de]) ισραηλ (Israel) ὁ ὢν (AQUELE QUE É [aqui, desuniformemente as Bíblias vertem para EU SOU, donde decorre a associação com Jo.8.58]) ἀπέσταλκέν με (enviou-me) πρὸς (a) ὑμᾶς (vós).

A pergunta que faço agora é a seguinte: Moisés identificou Deus, em “B”, como “ego eimi” ou como “HO ON”? Onde está a expressão “ego eimi” na parte “B” para os tradutores verterem “EU SOU” ao invés de “AQUELE QUE É”?

Percebamos que não existe um “ego eimi” nessa parte; não se sabe porque os tradutores inseriram “Eu sou me enviou a vós”. E a Bíblia de Jerusalém fez mais do que isso e colocou em maiúsculo “EU SOU me enviou a vós”, quando o procedimento uniforme seria “AQUELE QUE É me enviou a vós”. Ora, se “ego eimi” significa “eu sou” e “HO ON” significa “eu sou” exatamente com a mesma semântica, então, a parte “A” deveria ser traduzida por, “Disse Deus a Moisés: Eu sou Eu sou” (ego eimi ho on), e ai teríamos, ao menos, uniformemente “Eu sou me enviou a vós”. Mas se HO ON é traduzida por “AQUELE QUE É” na parte “A” não há razão para não ser, também, na parte “B” pela mesma expressão, a não ser que haja a intenção de criar a associação que os trinitários hoje defendem” (1).

Portanto, esse teoria trinitariana de que Jesus disse “Eu Sou” para identificar-se como Deus não tem fundamento nem mesmo nas Escrituras. Provavelmente Jesus não falava o grego, e muito menos estava falando em grego para os fariseus.

A afirmação de Jesus, “eu sou”, foi construída em grego. A declaração do Senhor em Êxodo 3:14 foi em hebraico. As duas línguas não são apenas muito diferentes umas das outras, mas as duas declarações também não são as mesmas. “Eu sou” não é o mesmo que o terrivelmente mal traduzido “eu sou o que eu sou”.

Vamos analisar os versículos anteriores a este: “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu o, e alegrou se“, v. 56. Os judeus estavam distorcendo as palavras de Jesus: “Disseram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão?” Jesus não disse isso. Foi o contrário: Abraão viu Jesus e não Jesus viu Abraão. Então, vem o verso chave: “Disse lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão fosse eu sou”, João 8:58. Se traduzimos a última parte do versículo como “Eu sou antes de Abraão” podemos ter um significado completamente oposto ao da nossa envelhecida ortodoxia cristã. Nesse caso, o texto não diz que Jesus era preexistente, e muito menos diz que ele usou uma técnica de linguagem intencional para se igualar ao Deus de Israel.

Jesus estaria simplesmente dizendo que foi conhecido antes da criação do universo como o cordeiro que foi morto nos propósitos de Deus (Ap 13:8). Nas palavras de Pedro “Ele foi conhecido antes da fundação do mundo, mas manifestado nesses últimos tempos por amor de vós” (1 Pedro 1:20).

Ele foi o Messias anunciado e predestinado a vir desde sempre, portanto, antes de Abraão.

Ele também é antes de Abraão nas palavras de Moisés: “Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a sua descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:15).

Há outra opção de Interpretação que vai ser exposta mais adiante.

Um título ou um verbo?

Os trinitarianos dizem que os Judeus entenderam perfeitamente que Jesus estava afirmando ser Deus quando ele usou as palavras “ego eimí”, porque eles imediatamente pegaram pedras para matá-lo. Mas os trinitarianos não consideram que os Judeus já haviam decidido matar o Senhor Jesus antes desse impasse em João 8:58. Leia João 7:1, 25. Além disso, a expressão em grego “ego eimí” em João 8:58 utiliza o pronome pessoal acompanhado de um verbo, que é o verbo “ser”. “Eu sou” NÃO É UM TÍTULO. De forma semelhante, o “eu sou” (“ego eimí”) em Êxodo 3:14 não constitui um título. O título usado por Deus nesse texto é “Ho On” (“Aquele que é”). O “sou” de “eu sou” é apenas um verbo e não um nome divino.

Alguém escreveu sobre isso com muita sabedoria:

“Se em João 8:58 Jesus tivesse dito: “Eu sou o EU SOU”, ou “Eu sou o Ser”, ou ainda “Eu Sou Aquele que é ”, seria diferente. Mas ele fez um uso simples e comum na língua grega, do verbo ser. É muito arriscado divinizar uma expressão grega, mesmo quando sai da boca do Mestre. Por que transformar uma expressão de uso corriqueiro num carregado título teológico? Todo esse conjunto de teorias recaem, como sempre, na esfera da incerteza, porque não seguem a regra bíblica de ‘não ir além do que está escrito’. E tais teorias gozam de grande credibilidade entre muitos cristãos, e estimulam declarações pouco analisadas e ponderadas, transformando algo que é duvidoso em algo “inquestionável”. Para muitas pessoas que formam os rebanhos das igrejas, é muito comum o pensamento: “Se os doutores, teólogos e filósofos acreditam assim, quem sou eu para discordar?” No entanto, uma simples leitura atenta é suficiente para desmontar uma teoria humana, ou, pelo menos, para mostrar que a coisa não é tão sólida quanto alguns pensam” (2).

O professor de Estudos Religiosos, Jason David BeDuhn, da Universidade do Norte do Arizona, em seu livro “Precisão e parcialidade na tradução do Novo Testamento em inglês” (Accuracy and Bias in English New Testament Translation) compara algumas traduções inglesas principais e as relaciona da seguinte forma no capítulo dez, onde ele lida exclusivamente com João 8:58:

KJV “before Abraham was, I am” “antes que Abraão existisse, eu sou”

NASB “before Abraham was born, I am” “antes de Abraão nascer, eu sou”

NAB “before Abraham came to be, I am” “antes de Abraão vir a ser, eu sou”

NW “before Abraham came into existence, I have been” “antes que Abraão existisse, eu tenho sido”

O Dr Duhn conclui:

“O que está acontecendo aqui? Você pode pensar que há uma cláusula grega particularmente difícil ou complicada por trás dessa bagunça em inglês. Mas esse não é o caso. O grego lê “prin Abraham genesthai ego eimi”. Ele pode ser traduzido diretamente para o inglês, fazendo o que os tradutores sempre fazem com o grego, ou seja, reorganizando as palavras na ordem normal do inglês, e ajustando as coisas com o tempo verbal complementar para a expressão apropriada… a KJV tem influenciado os seus tradutores colocando o verbo impropriamente no final da sentença”. Assim, o “eu sou” de João 8:58 deveria estar no início da sentença, deixando o versículo como segue: “Eu sou antes de Abraão”.

Jesus diz EU SOU várias vezes

Se “ἐγώ εἰμι” era o título sagrado de Deus o Todo Poderoso, porque somente no versículo 58 os judeus tentam apedrejar Jesus? Porque não tentaram apedrejá-lo depois dele dizer no versículo 24 do mesmo capítulo: “se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados”? Não seria uma ótima oportunidade para os Judeus acusarem Jesus de blasfêmia por aplicar a si mesmo o título de Deus? Isso mostra que ἐγώ εἰμι não foi o fator determinante para provocar essas reações ambíguas. O problema foi com Abraão.

Veja com mais detalhes dentro do mesmo contexto: “Vocês são daqui de baixo; eu sou lá de cima. Vocês são deste mundo; eu não sou deste mundo. Eu disse que vocês morrerão em seus pecados. Se vocês não crerem que EU SOU, de fato morrerão em seus pecados. Diziam-lhe então, quem és tú”, João 8:23,24.

Os judeus não acharam que Jesus estava dizendo que era o Deus de Israel. Ao contrário de Êxodo 3:14, a expressão eu sou não está sendo usada com função de nome identificador, tanto é que não causou reação nos judeus. É tão evidente que esse não era o caso, que quando Jesus disse eu sou, os seus opositores perguntaram em seguida, quem és tu? Se falar eu sou significasse uma auto identificação não haveria necessidade dessa pergunta, e os judeus já teriam corrido para pegar pedras e atirar em Jesus. E não podemos ignorar também o verso 28, que enfatiza de forma clara a reclamação trinitariana de Jesus como EU SOU. Veja o texto: “Então Jesus disse: Quando vocês levantarem o Filho do homem saberão que EU SOU, e que nada faço de mim mesmo, mas falo exatamente o que o Pai me ensinou”. A construção textual é incrivelmente provocadora, mas os trinitarianos a abandonaram. Por qual motivo? Talvez porque não houve ameaça de apedrejamento. Não se vê nenhuma reação dos judeus. Na sensível mente deles, não houve rejeição ao que Jesus falou. Pelo contrário, o versículo seguinte relata que muitos JUDEUS creram nele: “Tendo dito essas coisas, muitos creram nele”. Depois disso o relato prossegue de forma contínua. Mas, em determinado momento algo muda em João 8:57,58: “Disseram-lhe, então, os judeus: Não tens ainda cinquenta anos e viste Abraão? Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade, vos digo: antes que Abraão existisse, EU SOU. Então apanharam pedras para atirar nele”.

Os Judeus constantemente corrompiam as palavras de Jesus. Isto é, eles as entendiam de forma equivocada (João 3:3,4). E se comportaram da mesma maneira no contexto de João 8:58. Possívelmente eles entenderam que ele estava alegando superioridade a Abraão. Se considerarmos que Jesus usou as palavras “Eu sou antes de Abraão”, ou “Eu tenho sido antes de Abraão”, ele pode ter causado um rebuliço total na mente dos judeus levando-os a acreditar que ele declarou ser maior do que Abraão.

Lembre-se que Jesus se declarou mais importante – maior – que o templo em Mateus 12:6, “aqui está quem é maior que o templo”. E também maior do que Salomão: “A rainha do Sul se levantará, no Juízo, com esta geração e a condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão”.

Jesus estava sendo ameaçado de apedrejamento pelo que ele teria dito sobre Abraão. Dizer que “Sou antes” (entendido pelos judeus como “mais importante”, “superior”, “maior” – acréscimos meus) de Abraão seria considerado injúria, visto que os Judeus encaravam tal ancestral como o “Pai” da nação (Ver João 8:39). Além disso, o significado de blasfêmia na bíblia vai muito além do que apenas dizer algo contra Deus. Era considerado blasfêmia algo que ofendesse algum maioral da nação (Ver Êxodo 22:28)” (3).

No contexto de uma perseguição anterior a Jesus, ficou claro “para os judeus” que Ele era um blasfemo e se faz igual a Deus, isto é, fazendo-se igual a Deus porque se declarava Filho de Deus (João 5:18), o que, obviamente, não o fazia igual a Deus apenas por chamar Deus de seu Pai. Seria, portanto, razoável concluir que para a maioria dos ouvintes, as palavras de Jesus em “Eu sou antes de Abraão” não eram algo totalmente inesperado, mas confirmavam sua suspeita e até a convicção de que Jesus era mesmo um blasfemo. Para eles era uma teologia sacrílega; e é claro que Jesus conhecia suas expectativas e medos sinistros quando pronunciou intencionalmente aquelas palavras absolutamente provocativas. Isto é, foi uma “blasfêmia” intencional de sua parte, a fim de revelar sua identidade, não sua divindade. Observe que quando Jesus disse “antes que Abraão existisse, eu sou” ele estava respondendo aos judeus duas perguntas que foram feitas em dois versos anteriores. A primeira está no versículo 53: “Porventura és tu maior do que nosso pai Abraão…?” A outra está no verso 57: “Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?”

Podemos, como já disse, ter dois significados nas palavras de Jesus em João 8:58 quando ele alega, “Eu sou antes de Abraão“. O primeiro é que ele era o Messias que havia de vir e estava nos planos de Deus antes mesmo de existir de fato: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste ANTES da fundação do mundo“, João 17:24.

Observem, mais uma vez, que o “Cordeiro de Deus” tinha sido “crucificado antes da fundação do mundo” (Ap 13:8 NVI), sendo que, evidentemente, o que ocorreu de forma não literal, pois Jesus foi crucificado em 33 dC sob o governo de Pôncio Pilatos, mas no plano de Deus desde antes da fundação do mundo. Desta forma também Jesus “era” antes de Abraão. Assim Abraão podia olhar para frente, para a vinda do Messias e seu Reino. O Messias e seu reino, portanto, “preexistiam” no sentido de que eles foram “vistos” por Abraão através dos olhos da fé. Antes que Abraão nascesse Jesus tinha sido “conhecido” (cf. 1 Ped. 1:20). Jesus aqui faz a afirmação estupenda do seu significado absoluto no propósito [plano] de Deus. E o segundo significado é que ele pode ter dito também que é superior a Abraão. Portanto, não foi o EU SOU de Êxodo 3:14 que provocou a ira dos judeus. Jesus não está alegando que existiu – literalmente – antes de Abraão e nem que é Deus, em João 8:58.

Será que Jesus confundiu tudo depois, dizendo por um lado que somente o Pai é o “único Deus verdadeiro” (17:3, 5:44) e que ele mesmo não era Deus, mas o Filho de Deus (João 10: 36), e por outro lado, que ele, Jesus, é também um ser incriado? Será que ele quis definir seu status dentro das categorias reconhecíveis do Antigo Testamento (João 10:36, Sl 82:6; 2:7), apenas para representar um enigma insolúvel dizendo que ele estava vivo antes do nascimento de Abraão? Se Jesus realmente quisesse falar de sua preexistência e divindade usando a mesma construção textual ele poderia fazê-lo em outros contextos e ter declarado “EU SOU antes de Adão”, ou, “Eu sou antes da humanidade”, não ANTES de Abraão. Não seria mais sensato ler João 8:58 à luz da declaração de Jesus em João 10: 32,33 e 36 e no resto das Escrituras?

É um fato bem conhecido que as conversas entre Jesus e os judeus foram muitas vezes de forma contraditória. Em João 8:57 Jesus não tinha, de fato, dito como os judeus pareciam pensar, que ele tinha visto Abraão, mas que Abraão exultou por ver o dia do Messias (v. 56). O patriarca estava esperando surgir na ressurreição no último dia (João 11:24; Mat 8:11) e tomar parte no reino messiânico. Jesus também estava afirmando superioridade a Abraão, mas não no sentido que os judeus entenderam.

Uma leitura honesta de “eu sou” em João 8:58 simplifica o entendimento, revelando positivamente que o significado não é “eu sou Deus.” E, também não é, como tantas vezes alegado, o nome divino de Êxodo 3:14, onde o Senhor declarou, “Eu sou o ser” ou “Eu sou o aquele que é” (EGO EIMI HO ON, que é traduzido para o Inglês como “Eu sou o Ser”). Jesus aqui em João não defendeu nenhum título.

Além disso, na ocasião da sarça no monte Sinai é registrado que um anjo falava com Moisés do arbusto que ardia em chamas, não o próprio Senhor.

Êxodo 3: 2, afirma: “E apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo do meio duma sarça; e olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia”. Estêvão, nos registros do NT, em Atos 7:30, declara: “E, completados quarenta anos, apareceu-lhe o anjo do Senhor no deserto do monte Sinai, numa chama de fogo no meio de uma sarça”. Ele confirma a mesma coisa quando diz aos judeus em Atos 7:53, “vocês, que receberam a Lei por intermédio de anjos, mas não lhe obedeceram”.

Isso torna evidente que era um anjo do Senhor que falava com Moisés como representante de Deus, falando e agindo em nome de Deus na ocasião do Sinai, e não o próprio Deus. Deus estava falando e revelando Sua glória a Moisés, mas o fez através de um anjo.

Apesar de todos os argumentos apresentados aqui contra a alegação trinitariana, ainda assim, para eles, esse teria sido um dos momentos mais importantes do Novo Testamento, pois em João 8:58, Jesus teria decidido revelar sua verdadeira divindade alegando ser o “EU SOU” de Êxodo 3:14, a Segunda Pessoa da Trindade, o Deus Filho eterno do Velho Testamento, O ser preexistente. Mas, que, inexplicavelmente, depois de fazer essa estupenda revelação para o povo de Deus, os judeus guardiões da Palavra, ele teve que fugir porque estes queriam matá-lo!

É fato caro leitor, que isso tudo aconteceu logo depois que Jesus supostamente deu sua última declaração sobre sua verdadeira divindade! Mas, espere! Os judeus não creram? No Velho Testamento não fala do Jesus preexistente, Deus conosco, Pai eterno e títulos semelhantes? Os Judeus não creram, e até hoje ainda não creem na trindade por qual motivo? É evidente que Jesus nunca deu tal declaração (o EU SOU de Êxodo 3:14).

O que dizer de João 1:1-3?

Nesse momento da leitura é muito comum aos teólogos da nossa ortodoxia convencional se agarrarem no prólogo do Quarto Evangelho para invalidar os argumentos desse pequeno artigo. No entanto caro amigo leitor, o prólogo de João está fazendo referência a algo tão simples, tão contrário a interpretação popular, que vai surpreender até os céticos e ateístas: João não está falando do princípio de Gênesis em “no princípio era o verbo…”.

Talvez a maioria argumente que o contexto realmente fala sobre Jesus no princípio da criação do mundo, pois os dois versículos imediatamente posteriores dizem que “Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez“, João:1:2,3.

A referência é a Nova Criação, não a velha. Veja meu artigo “TUDO foi criado por Ele“. E não se engane com Hebreus 1:1,2 quando diz que Jesus fez o mundo. Não é uma referência a Gênesis 1:

Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo“, Hebreus 1:2. Isto é, o mundo vindouro, a era por vir, como confirmado pelo mesmo escritor apenas alguns versículos depois: “Porque não foi aos anjos que Deus sujeitou o mundo vindouro, sobre o qual estamos falando“, Hebreus:2:5.

Portanto, quando a Escritura revela que Jesus é o princípio de toda a criação significa que ele é o primeiro da nova criação de Deus: “Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus“, Apocalipse 3:14.

De fato, temos aqui mais uma referência apontando para a nova criação inaugurada pela ressurreição de Cristo. Por esse motivo as Escrituras fazem referência aos cristãos como novas criaturas. Assim, Jesus é o primogênito e as primícias de uma nova criação – chamado de um “novo e vivo caminho” em Hebreus 10:20. Tudo foi feito por ele e por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez (João 1:3).

Eu vou apresentar aqui um resumo do meu artigo sobre João 1:1-3 que já está disponível nesse site com o título, “No Princípio” – João 1:1 – que princípio?

É necessário observar que a narrativa do Evangelho supostamente cita uma referência da criação de Gênesis em sua abertura e no mesmo fôlego salta para o ministério de João Batista. Além disso, dizer que o verbo se fez carne (Jo 1:14) num tempo de João Batista já adulto nos convida a sérios questionamentos. Não seria mais coerente dizer que o verbo se fez carne em Belém quando Jesus nasceu?

O registro diz que o verbo se fez carne três versículos após dizer que os seus o rejeitaram: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam“, João:1:11. Agora veja o verso 14: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glories do unigênito do Pai“. Se é uma sequência, então temos um problema enorme aqui.

Portanto, é preciso prestar atenção no verbo usado, “era”, em “no princípio era a palavra”, que pode estar fazendo referência a fatos ocorridos no início de algo, e ocorridos em terra, não no espaço, no princípio da criação narrado em Gênesis 1.

Eu explico; o significado de “no princípio” em João 1:1 está falando do princípio do Evangelho de Jesus (o novo princípio), o princípio do seu ministério, na Palavra que começou a ser anunciada pelas terras de Israel quando do aparecimento do Messias. Por isso o escritor começa a sua narrativa em tom poético: “No princípio era a Palavra“, a palavra da pregação; a promessa que estava para ser revelada; o anúncio; a chegada dele sendo proclamada – são expressões que podem traduzir o termo grego logos, usado aqui para “palavra”.

João 1: 1-3 não é uma declaração sobre a criação original do mundo. O escritor pode ter adotado a linguagem do primeiro “começo” para falar de um novo “começo” nas coisas que aconteceram na vida de Jesus – o princípio da nova criação. Desse modo, o resultado da atividade da Palavra não era que o mundo material existisse, mas que as pessoas recebessem a vida; e esta vida foi a luz que as trevas vistas na história do Evangelho não conseguiram superar. A leitura de João 1: 1-5 é uma sinopse preliminar da história do Evangelho.

E preste atenção também em João Batista envolvido no texto. Ele é “a voz do que clama no deserto“. Ele veio preparar o caminho do Senhor anunciando a palavra “no princípio” quando Deus voltou a falar ao seu povo depois de quatro séculos de silêncio.

O Evangelho de Marcos também usa – confirmando João – o mesmo termo no mesmo tempo em “o princípio”, que é uma referência ao princípio das boas novas. Veja: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus“, Marcos 1:1, e ele passa imediatamente para João Batista, como no prólogo de João.

Observe que João sai do relato sobre o verbo e dá um salto tremendo para o ministério de João Batista. Em Marcos 1:1-5 o salto aparece de forma bem explícita. Porém, o mais interessante é que Marcos esclareceu João. João diz, “no princípio era Palavra“. Marcos diz: “princípio das boas novas“, ou “princípio do Evangelho“. Isso deveria estabelecer e acabar com qualquer disputa sobre o significado de João 1: 1. Claramente, o texto significa o início da mensagem do Evangelho de Jesus Cristo, começando com a mensagem de arrependimento pregada pela primeira vez por João Batista, um precursor do Messias.

Lucas usa “no princípio” como referência para a mensagem do Evangelho, mas também incluí relatos do nascimento e infância do Senhor Jesus.

Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelentíssimo Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio“, Lucas 1:1-3.

É o mesmo princípio citado por João!

O escritor de 1 João 1:1 usa “o princípio” de forma semelhante: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida“.

Mas, se o verbo citado em João 1:1 era Jesus, então, indiscutivelmente, você poderia argumentar que ele seria mesmo Deus, pois a parte final do versículo 1 de João 1, diz que “o verbo era Deus”. As coisas não são tão simples assim. Observe a sequência e perceba como e fácil interpretar o texto sem necessidade de colocar Jesus na eternidade passada.

No princípio era a palavra (a palavra sobre a chegada do Messias sendo anunciada por todas as partes), e a Palavra estava com Deus (Jesus como Mediador – O termo grego permite essa interpretação), e a Palavra era Deus“. De fato, a Palavra era Deus, pois quem vê o filho, vê o Pai, ou como disse Jesus: “Eu e Pai somos um”. Nada mais justo do que dizer aqui – ainda mais nessa tonalidade incrivelmente poética – que o “verbo era Deus”.

Se conectamos o sentido na confissão de Tomé, “meu Senhor e meu Deus”, e em outras passagens que confessam que “quem vê o filho, vê o Pai” e “Eu e o Pai somos um“ podemos achar o significado pretendido por João. Estes são sentidos similares de “o verbo era Deus”.

Vamos fazer uma pequena análise no episódio de Tomé. Ao dizer “meu Senhor e meu Deus” (João 20:28) , o INCRÉDULO Tomé passou a crer que Deus estava em Jesus. Ou seja, que ele era realmente o Messias enviado; que Jesus era o Filho de Deus; que ver Jesus era o mesmo que ver o Pai e não que Jesus era (um) Deus.

Veja o que Jesus respondeu ao próprio Tomé alguns capítulos antes: “Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais e como podemos saber o caminho? Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.

Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis e o tendes visto.

Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta. Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” João 14:5-9.

A confissão de Tomé reforça a última parte do verso 1 em João 1 esclarecendo porque o “verbo era Deus”. Jesus respondeu de forma perfeita: “Quem vê a mim, vê o Pai”.

Jesus nãoestava com Deus

É necessário esclarecer que Jesus não estava presente no ato da criação. Fosse assim, Deus não teria dito que criou tudo SOZINHO: “Assim diz o SENHOR, que te redime, o mesmo que te formou desde o ventre materno: Eu sou o SENHOR, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra”, Isaias 44:24.

A tradução da Almeida Corrigida e Fiel enfatiza mais ainda: “Assim diz o SENHOR, teu redentor, e que te formou desde o ventre: Eu sou o SENHOR que faço tudo, que sozinho estendo os céus, e espraio a terra por mim mesmo”.

É importante lembrar aqui que foi o próprio Cristo quem descreveu a criação original como sendo trabalho de Deus, não dele: “Porque naqueles dias haverá uma aflição tal, qual nunca houve desde o princípio da criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá”, Marcos 13:19. Compare com Hebreus 4:4, onde Deus, não Jesus, descansou da obra da criação, “Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia”.

Jesus não existia antes de nascer em Belém. Observe que a genealogia dele vista por Mateus parte de Abraão e chega até Maria: “Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mateus 1:1). Depois de passar por toda a descendência do Senhor o escritor alcança a mãe deste: “E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo” (Mateus 1:16). Aqui Jesus passa a existir. No Evangelho de Lucas ele traça a genealogia de Jesus de volta a Adão. “E o mesmo Jesus começava a ser de quase trinta anos, sendo (como se cuidava) filho de José, e José de Heli” (Lucas 3:23). Depois de tratar de todos os descendentes deste, alcança o próprio Deus. E note que na ascendência de Adão ele é listado como “filho de Deus”, e entre ele e Deus ninguém é citado.

Veja pela tradução da King James Atualizada quando apresenta o relato da genealogia aproximando-se do Criador: “… filho de Enos, filho de Sete, filho de Adão, filho de Deus“, Lucas 3:38. Jesus está ausente do texto próximo a Deus e depois de Deus porque ele não existia. O único citado como filho direto de Deus – bem próximo da criação – é Adão. Jesus não viveu antes – ele passou a existir somente depois que nasceu de uma mulher (Gálatas 4:4). Ou seja, quem possui árvore genealógica não pode ter existido antes dos seus ancestrais. E de fato, Jesus foi prometido como a semente da mulher: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”, Gên 3:15. Isso mostrou que o Messias seria um descendente da mulher e, por definição, deve ser aquele que vem a existir após a existência do seu ancestral. Além disso, a inimizade não existia entre o Messias e a semente da serpente, mas era para ser uma hostilidade futura.

Isaías atesta claramente que a origem do Messias teve início no ventre de sua mãe: “E agora diz o Senhor, que me formou desde o ventre para ser seu servo…”, (Isaías 49:5).

DESDE O VENTRE !!!

Foi uma boa oportunidade para o escritor revelar que Jesus teria sido formado DESDE A ETERNIDADE. Não o fez por que?

Todos tem conhecimento de que o Salmo 22 é uma profecia sobre o Messias como provado por suas citações nos Evangelhos. O versículo dez mostra enfaticamente que o Senhor Jesus tinha Deus como Pai somente após seu nascimento. Neste caso, ele jamais poderia ter sido Filho Unigênito antes do tempo: “Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe”. Quando ocorreu o nascimento do Senhor Jesus? Aconteceu em 4 dC sob o governo do Rei Herodes, Mat 2:1 “E, TENDO nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém“.

O Filho de Deus veio à existência quando foi gerado no útero de sua mãe. Observe novamente a ênfase no relato do milagre da concepção em Lucas 1:35 “E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus”.

A filiação divina – ou seja, filiação com o Pai – de Jesus é explicitamente estabelecida por seu nascimento milagroso. Por isso o nascimento virginal de Cristo está em contradição irreconciliável com a cristologia da encarnação do Filho preexistente de Deus.

Na verdade, o anjo anunciou no nascimento que Jesus “é o Filho de Deus”, não por causa de uma preexistência ontológica, mas por causa da sua concepção sobrenatural. Este milagre apenas sinalizou que ele iria ter uma relação especial com Deus. Assim, com efeito, a concepção de Jesus sendo realizado pelo Espírito de Deus é a base para identificá-lo como Filho de Deus, O Filho do Altíssimo, por causa da salvação que ele realizaria na história, não por causa de sua natureza intrínseca. Logicamente, o nascimento virginal não indica que Jesus é Deus simplesmente por causa de sua natureza milagrosa. O Milagre só aponta para uma origem sobrenatural. Deus fez um milagre causando a concepção virginal, mas isso não indica que o milagre em si é Deus.

Fica evidente então, que o momento da concepção de Jesus foi a causa dele tornar-se Filho de Deus. Portanto, Jesus não era o Filho de Deus em qualquer momento antes de seu nascimento simplesmente porque Jesus veio à existência como o Filho somente após ter sido concebido no ventre de Maria. Assim, ele não poderia ter existência como o Filho de Deus antes disso, como Gabriel afirma: “Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo” (Lucas 1:32).

Não havia nenhuma pessoa distinta chamada “Filho” – “Filho” só surge no NT. A terminologia “Filho” e “Pai” surgiu apenas depois da manifestação de Jesus para descrever a relação entre a existência de Deus além da humanidade, e como um ser humano foi concebido pelo poder do Espírito Santo – parece que não havia nenhuma pessoa distinta do Pai no Antigo Testamento (Hb 6:3).

Quero lhe dizer que não sou ignorante sobre as tantas passagens que parecem reivindicar uma pré-existência de Jesus no céu antes de sua chegada a terra. Mas te garanto, nenhuma delas dá suporte à teoria se forem devidamente interpretadas. E para aqueles que acreditam que estou sozinho nessa empreitada, sugiro que prestem atenção nas palavras do famoso expositor Metodista Adam Clark: “A doutrina da filiação eterna de Cristo, é em minha opinião, ante-escritural e altamente perigosa. Eu não tenho sido capaz de encontrar qualquer declaração expressa disto nas Escrituras”. (Comentário de Lucas 1: 35).

A cristologia ortodoxa baseia sua visão nas decisões dos concílios do que propriamente na palavra de Deus. A Igreja Evangélica, que se diz “contrária” ao posicionamento da igreja Católica Romana, também tem baseado seus ensinamentos sobre a divindade e humanidade de Jesus segundo o que declara estes concílios.

A velha tradição determinou a qualquer custo a igualdade de Jesus com Deus em essência, isso pelo fato dessa tradição ortodoxa extrema não permitir a Jesus uma personalidade humana PLENA, o que patenteou aquilo que mais ouvimos nos últimos 15 séculos: Jesus foi “homem” sem ser de fato “um homem” – Divino e Humano ao mesmo tempo. Essa doutrina foi desenvolvida justamente para preservar o conceito de que ele tinha preexistido como Segundo Membro da Trindade.

Outro problema enorme, e que muitos não consideram, é que essa conclusão de que Jesus era um ser pré-existente afeta de maneira drástica toda a teologia que gira em torno do sacrifício substitutivo causando também um conflito direto com outras reivindicações bíblicas que Jesus era um HOMEM REAL. Se iniciarmos uma leitura honesta de todos os textos, vamos descobrir formas bastantes diferentes comparados à interpretação convencional, o que pode causar espanto em muitos daqueles que começam a partir de uma posição de “preconcebida preexistência”. O importante em considerar aqui é que, se Jesus é um homem de verdade, então Ele começou sua vida em Seu nascimento, assim como todo o resto de nós. Observe a contribuição valiosa de Moisés para nosso contexto em discussão. Moisés, legislador e líder de Israel, que tipificava a vinda de outro Legislador (Jesus Cristo) disse à nação judaica: “O Senhor teu Deus suscitará a ti um profeta do meio de ti, de TEUS IRMÃOS, semelhante a mim, a ele ouvireis” (Deuteronômio 18:5).

No Novo Testamento Pedro citou essas mesmas palavras e aplicou-as a Jesus Cristo (Atos 3:22, 7:37), e Paulo ensinou: “Por isso convinha que ele fosse feito semelhante a seus irmãos…” (Hebreus 2:17).

Podem as palavras de Moisés acima se aplicarem a um anjo ou a um ser preexistente? Poderia tal pessoa ser verdadeiramente descrita como “levantou do meio de ti”, “de teus irmãos, como Moisés?”

Não há nessas referências uma pitada sequer de algo que nos dirija o pensamento para a crença de que Jesus foi formado de um estoque angelical, ou mesmo que era um ser preexistente. Mas, em vez disso aprendemos que ele foi alguém que teve origem entre os humanos. Deus disse a Moisés claramente, “… suscitarei um profeta do meio de seus irmãos!”

O Filho de Deus não existia antes desse tempo. Hebreus 1:1 afirma: “HAVENDO Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho”.

João declara que Jesus veio em carne (I Jo 4:2; II Jo 7). Ou seja, sua origem é deste mundo. O significado é estarrecedor se optarmos pela tradução da BLH em João 4:2, que diz: “É assim que vocês poderão saber se, de fato, o espírito é de Deus: quem afirma que Jesus Cristo veio como um ser humano tem o Espírito que vem de Deus”.

Jesus veio a esse mundo com a natureza dos nascidos em Adão porque ele é nascido de mulher! É o que Atos 17:26 esclarece quando afirma que Deus “… de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra…”.

Jesus foi um homem e não uma criatura de outro mundo, um ser imortal ou uma divindade cósmica, como atesta Pedro em Atos 2:22, : “Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus“.

Jesus era o filho de Davi, e a Davi foi dito: “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho…”. (2 Sam. 7:12-14). Observe que o texto afirma categoricamente que Jesus veio da descendência de Davi, negando enfaticamente ter sido ele um ser preexistente. Veja na expressão “o qual sairá das tuas entranhas” que a real origem do Messias é deste mundo. A profecia relaciona-se com Cristo, como o comentário do Novo Testamento sobre ele deixa claro (ver Lucas 1:32-33, Hebreus 1:5). Note bem o tempo futuro usado em relação a ele. Deus diz: “Eu serei seu pai,” ele “SERÁ meu filho”. Se Jesus já existia, não deveria Deus ter dito: “Eu sou seu pai”, “ele é meu filho?” Lembre-se que o Anjo disse a Maria: “Ele deve ser (não é!) Grande, e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi, e reinará eternamente sobre a casa de Jacó para sempre, e seu reino não terá fim” (Lucas 1:32-33). Estas palavras do anjo Gabriel afirmam que Jesus “será chamado Filho do Altíssimo”, e ele reinará no trono de “Davi, seu pai.” Podem estas expressões se aplicar a alguém preexistente?

Considere também a pregação dos Apóstolos. Será que eles proclamaram a crença em um ser preexistente que havia assumido a forma humana? Eles não fizeram; ouça a pregação de Pedro: “Davi… sendo um profeta, e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento a ele, que do fruto de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Cristo, para se sentar no seu trono” (Atos 2:30). A quem Davi acredita que sentaria no seu trono, um anjo ou um ser que já existia? Não, ele acreditava que aquele que reinaria seria “fruto de seus lombos”, isto é, um descendente. O menino que nasceu de Maria era descendente de Davi, não um ser preexistente assumindo a forma humana.

Como visto, a alegação trinitariana de João 1:1-3 não se sustenta se a interpretarmos lançando mão de todo o contexto das Sagradas Escrituras.

Deus seja louvado

(1) FILHO, Valdomiro – Comentário sobre João 8:58

(2) Mentes Bereanas – Resposta ao Leitor – Eu Sou

(3) Autor anônimo – A EXPRESSÃO “EU SOU” PROVA A DIVINDADE DE JESUS?