“Qual o nome de seu filho?” (Pv 30:4)

Provérbios 30:4 é um daqueles textos que os trinitarianos tentam transformar em um poderoso argumento a favor  da Trindade, mas para seu próprio embaraço. Este versículo não apenas falha em confirmar que Deus é uma Trindade como também falha em provar  a existência de um Filho eterno.

Provérbios 30 é um apêndice dos provérbios de Salomão. Agur, um homem sábio, ensinou a Itiel e Ucal.

Provérbios 30:1 “Palavras de Agur, filho de Jaqué de Massá. Diz o homem a Itiel, e a Ucal”.

Após nos informar que não possui toda a sabedoria e compreensão que deveria possuir, Agur, o filho de Jaqué de Massá, faz uma série de perguntas retóricas, cujas respostas nenhum homem pode dar: “Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas num manto? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome? E qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?” (Provérbios 30: 4).

Observe também os versículos 2-3; Agur disse: “Certamente sou mais estúpido do que qualquer homem e não tenho a compreensão de um homem. Não aprendi a sabedoria nem tenho conhecimento do Santo”.

O autor está enfatizando sua ignorância à luz do Santo (Deus), afirmando que ele é mais tolo do que qualquer homem, e então continua dizendo que ele nem mesmo tem a compreensão de um ser humano. É neste ponto que o autor declarou o versículo em questão. Veja novamente as  perguntas:

a) Quem subiu ou desceu ao céu?

b) Quem reuniu o vento em seus punhos?

c) Quem envolveu as águas em seu manto?

d) Quem estabeleceu os confins da terra?

Vendo que essas perguntas retóricas foram feitas imediatamente após destacar a ignorância do homem em lugar da sabedoria de Deus, a resposta esperada é negativa: nenhum homem!

Que homem subiu ou desceu do céu? Homem nenhum!

Quem juntou o vento em seus punhos? Novamente: não há nenhum homem!

O mesmo pode ser dito de envolver as águas em seu manto e estabelecer os confins da terra: homem nenhum!

As sete perguntas retóricas neste provérbio provam que nenhum homem pode encontrar Deus ou sabedoria pelo esforço humano. A resposta a cada pergunta é uma negativa óbvia. Nenhum homem foi para o céu ou voltou, ou conquistou os elementos para aprender os caminhos e a sabedoria de Deus. Agur forçou Itiel e Ucal a admitir pela força da razão que este homem não existia. Eles não poderiam citar o nome de nenhum homem que tivesse feito tal coisa, e muito menos citar o nome de seu filho. E tenha em mente: o autor não está perguntando qual ser divino fez essas coisas. Essencialmente, ele estava perguntando: “Se você conhece um homem que fez essas coisas, diga-me o nome dele e o nome de seu filho”.

A ideia de dar o nome do indivíduo e o nome de seu filho serve para identificar o homem que fez as coisas mencionadas no texto. Deve ser lembrado que nos tempos bíblicos as pessoas não tinham sobrenomes para se distinguirem de outras com o mesmo nome. Nomear o filho era mais uma marca de identificação, esclarecendo qual nome do indivíduo está sendo exigido. Obviamente, nenhum homem fez tais coisas, portanto, nem ele e nem seu filho poderiam ser identificados.

As  perguntas são um dispositivo que ensina a incapacidade do homem de descobrir a verdade e a sabedoria reais do universo, pois a fonte de todo o conhecimento e compreensão estão com Deus. Agur, tendo confessado sua própria ignorância (Pv 30: 2-3 ), usou essas perguntas para condenar todos os homens como ignorantes (Pv 30: 4). A sabedoria está além do alcance dos homens mortais. Assim, o questionamento é bastante retórico sobre o homem. Nenhum homem foi ao céu para obter sabedoria, nem  homem algum veio do céu com ela. Agur ensinou a Itiel e Ucal a grande dependência que o homem tem de Deus para obter sabedoria.

Deus provou a sabedoria e o poder inferior de Jó levando em consideração o vento (Jó 37:14-24 ) e a água nas nuvens (Jó 36: 24-33; 37: 11-24 ; 38: 33-37 ). Davi e Jeremias usaram a mesma impossibilidade (Sl 135: 5-7; Jr 10:13; 51:16). E Salomão raciocinou sobre o grande valor da sabedoria por meio do uso que Deus faz dela para criar o mundo e estabelecer as montanhas (Pv 8: 25-26 ).

Agur não ensinou a Itiel e Ucal que Deus havia criado o vento, as nuvens e a terra. Eles já sabiam disso. Ele os desafiou a citar o nome do homem que teria feito essas coisas. E o desafio se agravou ao lhes perguntar sobre o nome de seu filho.

Alguns comentaristas do texto bíblico  realizaram um trabalho brilhante dando luz contexto:

“… qual é o seu nome, e qual é o nome de seu filho, se você pode dizer? Se tiveres a certeza de que um mero homem faz todas estas coisas, que diga o seu nome; ou, se já estiver morto, diga qual é o nome de seu filho ou de alguém de sua família” (Gill, John. Comentário sobre Provérbios 30: 4. “A nova exposição de John Gill de toda a Bíblia”. Postado originalmente no site studylight).

“… o interrogador não parece pensar em Deus, mas em contraste com ele mesmo, para quem o divino é transcendente… , ele pergunta, um homem que pode compreender e penetrar por seu poder e seu conhecimento os céus e a terra, o ar e a água, ou seja, a natureza e a condição interna do mundo visível e invisível, a quantidade e extensão dos elementos e assim por diante? Dê-me o nome deste homem, se é que o conhece pelo seu nome, e designe-o para mim exatamente por sua família – eu recorreria a ele para aprender com ele o que até agora tentei em vão encontrar. Mas não existe tal. Assim: como me sinto limitado em meu conhecimento, não há nenhum homem que possa reivindicar a habilidade e conhecimento ilimitados

…  se você pensa que existe algum homem que pode fazer essas coisas, diga o seu nome; ou se ele estiver morto, o nome de alguém de sua posteridade” (Wesley, John. Comentário sobre Provérbios 30: 4. “Notas explicativas de John Wesley sobre a Bíblia inteira” – studylight).

“… Se você pensa que existe tal homem que pode fazer essas coisas, eu te desafio a revelar seu nome; ou se ele está morto há muito tempo, e saiu do mundo, o nome de qualquer um de sua posteridade que pode nos assegurar que seu progenitor foi tal pessoa; o que, porque tu não podes fazer, devo concluir que ninguém pode entender completamente este assunto” (Poole, Mateus. Comentário sobre Provérbios 30: 4. “Anotações em inglês de Matthew Poole sobre a Bíblia Sagrada” – studylight).

“… se tu pensas que existe algum homem que pode fazer estas coisas, diga o seu nome; ou, se ele estiver morto, o nome de alguém de sua posteridade” (Benson, Joseph. Comentário sobre Provérbios 30: 4  – studylight).

É interessante notar que algumas traduções também trazem o texto de forma cristalina. E com um detalhe curioso: ao invés de dizer “o nome de seu filho”, trazem “o nome de seus filhos”, como na Septuaginta:

Sabes de alguém que subiu ao céu e desceu? Alguém que agarrou o vento?  Alguém que envolveu o mar ou delimitou os limites da terra?  Se você souber de alguém que tenha feito essas coisas, diga-me seus nomes e os nomes de seus filhos” ( Contemporary English Version)

Alguém já dominou o conhecimento celestial?  Alguém já pegou o vento nas mãos?  Ou embrulhado água em um pedaço de pano?  Ou fixou os limites da terra?  Quem são eles, se você sabe?  Quem são seus filhos?” (Good News Translation).

A versão em língua portuguesa, O Livro, foi magnífica: “Quem é que jamais tendo subido ao céu pode descer de novo de lá? Quem é que alguma vez conseguiu reter os ventos na sua mão ou guardar as chuvas sob as suas vestes? Quem estabeleceu os limites da Terra? Qual é o seu nome, ou o do seu filho? Sabê-lo-ás?”

Isso parece tão simples; nos surpreende ver que os trinitarianos continuam a usar esse versículo para apoiar sua teologia – é apenas outro exemplo deles lutando contra qualquer coisa a fim de encontrar apoio bíblico para a Trindade.

Apesar de todas as evidências apresentadas, alguns trinitarianos tentam usar a versão da NVI para se defenderem:

Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Mas amarrou as águas no seu manto? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome, e qual é o nome de seu filho? Certamente o sabes!” (Provérbios 30:4).

Note que o versículo termina com uma afirmação: “Certamente o sabes!”

No modelo trinitariano fica nesse formato: “Certamente vocês sabem [que é Deus].

Se tivéssemos apenas essa versão, mesmo assim existe uma alternativa para refutar os trinitarianos.

Devemos notar que a primeira parte do versículo, em todas versões, é o mesmo: “Quem subiu ao céu e desceu?”

Aqui é uma referência enfatizando o homem, o ser humano – qualquer contemporâneo de Agur, ou mesmo qualquer um que tenha existido até aquele momento.

Outro absurdo proposta pelos trinitarianos, que também deve ser eliminado do texto é a afirmação de que Agur teve  uma revelação antecipada da obra do Messias preexistente.

Uma alternativa para o “nome de seu Filho”, se a resposta fosse Deus, o que não creio, seria posicionar Israel para dentro do texto. Dessa forma a solução estaria em Êxodo 4:22: “Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu primogênito”;  em  Deuteronômio 14:1: “Vós sois filhos do Senhor vosso Deus”; em  Oséias 2:1: “Será dito a eles: Vós sois os filhos do Deus vivo”.

Como visto,  Israel poderia ser o “nome de Seu filho”. Veja também Oséias 11:1:  “Como a manhã passa, assim o rei de Israel passou. Porque Israel era uma criança, e eu o amava; e chamei meu filho do Egito”.

Deus e seu filho é um tema no Antigo Testamento, mas  sobre Israel, O Primogênito de Deus, não Jesus.

Outros detalhes que podem ser reclamados pelos trinitarianos são encontrados em  certas passagens do AT onde “Deus” fala a, ou do Filho (Salmo 2:7; 45: 6;110:1). Compare o Salmo 110:1 com Atos 2:34; Atos 7:55,56; Romanos 8:34; Efésios 1:20; Hebreus 1:3.

O Salmo 110:1 (“Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés”) não reproduz uma conversa entre o Pai e o Filho, mas é uma profecia escrita por Davi. Há algo semelhante no Salmo 69:21, que fala do Messias bebendo vinagre: “Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre”. São profecias!

É difícil imaginar como um alegado “Deus Filho” poderia ter dito no Salmo 22:1: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” 

Nunca é dito no VT que o Pai falou com o Filho. Os textos nem mesmo sugerem uma relação Pai e Filho antes do nascimento do Cristo. Essas passagens do AT são de natureza profética, falando do Messias que havia de vir. Assim, Jesus não era um fato presente no tempo de Agur, mas um evento futuro.

Aqueles que veem uma alusão ao Jesus preexistente em Provérbios 30:4 encontram apenas uma ilusão. Seus esforços desesperados para apoiar a alucinação dos trinitarianos são considerados insuficientes. Deus ainda não tinha um filho. Davi e Isaías sabiam que o Filho de Deus era para o futuro (Sl 89:19-37; Is 7:14).

Os trinitarianos precisam entender que Jesus não existia no Velho Testamento, nem no céu, e nem mesmo na Terra (Salmo 73:25; 2 Crônicas 6:14; Salmo 89:6 . Compare com Mateus 1:2 e Hebreus 1:1,2).

Nas suas visões celestiais, Ezequiel não viu Jesus, mas apenas o Deus de Israel e alguns querubins (Ezequiel 1:4-6; 1:25,26). Em 10:20 ele diz o que viu: “Estes são os seres viventes que vi debaixo do Deus de Israel, junto ao rio Quebar, e conheci que eram querubins”. Compare com Isaías 37:16 e Salmos 99:1.

E Isaías (6:1-3), em outra visão celestial, viu Deus e os serafins: “No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as orlas do seu manto enchiam o templo.

 Ao seu redor havia serafins; cada um tinha seis asas; com duas cobria o rosto, e com duas cobria os pés e com duas voava.

 E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; a terra toda está cheia da sua glória”.

Apenas um ser (Deus) e os querubins. E antes que voce diga que aqui Isaías viu Jesus, consulte meu artigo “Isaías viu sua Gloria e falou DELE”. Note também que Isaías diz ter visto o ‘Senhor dos exércitos’, uma designação dada somente ao Pai.

Durante os tempos do Antigo Testamento, Jesus estava ausente porque ele não existia. Quando ele aparece, ele é um evento ‘futuro’, ou uma profecia’:

Quanto aos outros animais, foi-lhes tirado o domínio; todavia foi-lhes concedida prolongação de vida por um prazo e mais um tempo.

 Eu estava olhando nas minhas visões noturnas, e eis que vinha com as nuvens do céu um como filho de homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e foi apresentado diante dele.

 E foi-lhe dado domínio, e glória, e um reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído” (Daniel 7: 12-14).

Jesus era conhecido por Deus como parte de seu plano e propósito eterno, mas não como um ser preexistente.  Jesus preexistia antes de seu tempo, mas somente de forma profética:

Lucas 1:69,70 “… e para nós fez surgir uma salvação poderosa na casa de Davi, seu servo; como ele falou pela boca dos seus santos profetas desde o princípio do mundo”.

Lucas 24:25-27 “E disse-lhes [Jesus]: ó homens insensatos e tardios de coração para crer em tudo o que os profetas falaram.

 Não cabia ao Cristo que padecesse essas coisas e entrasse na sua glória?

 E começando por Moisés e por todos os profetas, ele interpretou para eles em todas as Escrituras as coisas a respeito de si mesmo”.

Lucas 24:44 “E disse-lhes [Jesus]: estas são as minhas palavras que vos disse, enquanto ainda estava convosco, que é necessário que se cumpram todas as coisas que estão escritas na lei de Moisés e nos profetas, e nos salmos, concernentes a mim”.

Se Deus é uma Trindade eterna de pessoas divinas,  esperaríamos encontrar o Pai e o Filho se comunicando antes da suposta encarnação. Mas não encontramos nenhuma referência ao Filho no Antigo Testamento além das passagens proféticas e, portanto, não temos razão para concluir que o Filho era uma pessoa divina eternamente preexistente.

Deus seja louvado