“No Princípio” – João 1:1 – que princípio?

Essa é a versão do primeiro versículo do Quarto Evangelho tão difundida pela Tradição:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1:1).

Para milhões de cristãos é impossível fazer a leitura do prólogo de João sem pensar em Jesus como Deus e criador do Universo junto ao Pai. A fim de sustentar essa leitura, eles filtram bastante o que está no texto, rejeitando a todo custo qualquer interpretação que ameace a quebra do vínculo com o romantismo místico trinitariano dominante. Fazem isso inocentemente, impulsionados pela crença que popularizou a doutrina do homem Deus; nem imaginam que o engano da Tradição está ocultando a realidade, impedindo que a verdade seja exposta, o que é fato: o envolvimento da passagem bíblica com um Jesus preexistente e criador é uma ilusão. E embora o público receba uma ampla gama de representações de João 1:1-3, do puramente literal ao livremente parafraseado, essas traduções não representam a intenção do significado original do texto, mas apenas serviram como uma arma nas mãos da ortodoxia cristã para impor as decisões dos credos e concílios pós-bíblicos — isso fez com que o texto se tornasse amplamente mal compreendido.

A abordagem hermenêutica descuidada da interpretação é o culpado comum, pois desviou o verdadeiro significado do prólogo de João, convencendo a maioria que, infelizmente e ignorantemente, passou a comparar este texto à criação de Gênesis. O plano foi arquitetado com o objetivo de colocar Jesus como criador do mundo em companhia do Pai – um engano fatal; Jesus não esteve presente na Criação do Universo. O Deus de Abraão criou todas as coisas sem a ajuda de ninguém: “Assim diz o Senhor, teu Redentor, e que te formou desde o ventre: Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus, e que espalhei a terra por mim mesmo” (Isaías 44:24).

Vou tratar do assunto no meu próximo artigo, com o título, “Jesus não criou o Universo”.

Um espírito Preexistente

Os docetistas ensinavam que a humanidade de Cristo era apenas uma aparência; havia um “fantasma” dentro dele por meio do qual Deus tratou com o homem. Pessoas que seguiram o gnosticismo, como Cerinto, um cristão gnóstico, sustentaram que um ser espiritual desceu sobre ‘Jesus’ em seu batismo no Jordão e permaneceu com ele até pouco antes da paixão. Assim, ele dividiu Jesus e o Cristo (o ungido) e negou que o Cristo tivesse sofrido ou derramado sangue. Irineu expôs sua doutrina da seguinte maneira: “Aqueles que separaram Jesus de Cristo, alegaram que Cristo permaneceu impassível, que foi Jesus quem sofreu” (Contra Heresias 3: 11: 7) “… que o Filho do Criador era, em verdade, um, mas o Cristo de cima era outro, que também continuou impassível, descendo sobre Jesus … e voou de volta em Seu Pleroma” (ibid. 3: 11: 1).

A proposta trinitariana transformou em farsa o sacrifício do filho de Deus que morreu por todos os homens — eles insinuam que ele apenas ‘meio que morreu’; que parecia humano; que ele poderia ter mudado seu corpo; que um espírito preexistente assumiu um corpo. Isso é especulação pura. Eles estão dizendo que Deus amou o mundo de tal maneira que criou um corpo para viver, e que posteriormente morreu, enquanto o verdadeiro ‘Espírito’ olhava à distância.

O fato é que nem os trinitarianos sabem o que ocorreu durante essa suposta encarnação. Poderiam responder se o Logos simplesmente substituiu o ser humano, se contendo em silêncio deixando o ser humano viver como humano? Como foi possível ao Logos manter sua identidade, ou natureza distinta da natureza humana de Jesus? Se assim for, então Jesus tinha duas mentes e duas vontades, como, aliás, foi determinado pelos grandes concílios do passado. A mesma coisa disseram muitos proeminentes Pais da Igreja, os quais também acreditaram piamente que o Logos, um ser preexistente, assumiu a encarnação. E aqui está o erro mortal do trinitarianismo; isso sugere que esse Logos impactou Jesus na terra, sendo o responsável direto por ele ter vivido uma vida justa e santa, o que anula o sacrifício do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, pois insinua que Jesus nunca morreu – um desastre para a influência do Espírito Santo na vida dele.

A verdade é que podemos detectar, a partir dos evangelhos, que não existe nenhuma consciência dessas questões por Jesus. Por exemplo, Jesus era consciente de ter preexistido? Eu acredito que não, pois se assim fosse ele teria memória cósmica. Isso significaria que ele apenas participou de um teatro em conjunto com seu Pai, o que o destitui da responsabilidade de ter obedecido até a morte.

Ou o Filho de Deus morreu e nós temos a redenção, ou “o Deus Filho” não morreu (apenas sua natureza humana?) e ainda estamos em nossos pecados. O fato, porém, é que a Bíblia diz que “fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho” (Rm 5, 10). Ele morreu mesmo!

Ter um Deus Filho como o Cordeiro, sendo tentado, mas imortal e incapaz de pecar, não funcionaria e nem seria justo. Ou Jesus é feito como nós ou não é. Deus não falsifica ou mexe com a verdade. O fato é que Ele precisava que a luta fosse justa. Jesus teve que vencer apenas pela fé e pelo poder do Espírito de Deus nele, não por alguns truques divinos. O fato de Jesus ‘deixar de lado sua divindade’ zomba do que foi realizado no Calvário e da vida vivida até aquele evento culminante. Ele era totalmente dependente de Deus — só Deus podia — e salvou Jesus da morte.

O erro dos cristãos pós século II parece que não foi cometido pelos cristãos dos tempos de Jesus; não foi cometido pelos judeus da sua cidade e muito menos por seus inimigos; eles não viam divindade em Cristo e nem acreditavam ter sido ele preexistente. Ouça o que disseram sobre a procedência dele em João 7:41,42: “Outros diziam: Este é o Cristo; mas diziam outros: vem, pois, o Cristo da Galiléia? Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Davi, e de Belém, da aldeia de onde era Davi?”

Em Marcos 3:22 as autoridades dos judeus falam sobre Jesus: “E os escribas, que tinham descido de Jerusalém, diziam: este tem Belzebu, e pelo príncipe dos demônios expulsa os demônios”. Além disso, também alegaram que ele era “um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores” (Mateus 11:19). Eles não fariam esse tipo de referência tão humilhante se o vissem como o segundo, divino e preexistente, Deus do judaísmo monoteísta.

A reação da família de Jesus com relação a ele em Marcos 3:21; 31-35 é outra evidência. Eles saíram em busca de Jesus “para o conter, pois achavam que ele estava fora de si”. Se seus familiares tivessem conhecimento da natureza divina de Cristo, de que ele era Deus, por que o teriam considerado como “fora de Si”? Responda por você mesmo.

A Constituição Trinitariana

Ei-la: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (João 1:1-3).

A interpretação de João 1:1-5, herdada da Tradição, enganou a cristandade do mundo inteiro. Essa visão convenceu os leitores de que a palavra era uma pessoa antes do nascimento de Jesus. E que Jesus participou da criação do Céu e da Terra narrada em Gênesis Capítulo 1.

Mas, o que aconteceria se chegarmos ao entendimento de que “palavra” não foi uma pessoa existente ao lado de Deus desde a eternidade? O resultado fatal causaria um estrago imenso: uma das principais plataformas do sistema tradicional sobre os membros da divindade, seria removida.

Observe não haver menção direta do Filho de Deus até chegarmos ao verso catorze, onde “A palavra se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”.

O fato de a palavra tornar-se o homem Jesus, o Filho de Deus, não necessariamente ou automaticamente implica que ele foi, literalmente, equivalente à palavra antes do seu nascimento. O que o texto quer dizer é que a palavra, a autoexpressão de Deus, se manifestou no homem Jesus, seu Filho: aquilo que era anunciado pelas terras de Israel “no princípio” do ministério de Jesus se fez real. Isso explica com muito bom senso o texto de João 1:14, o que também evita as terríveis complexidades nunca resolvidas da doutrina trinitariana. Na verdade, João está falando de um preexistente propósito divino, não uma segunda pessoa da divindade.

A declaração de palavra de Deus encontrou sua substância e realidade na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Antes de sua chegada, foi uma simples palavra ou promessa, mas quando ele se tornou manifesta, tornou-se uma pessoa. A pessoa não existia antes do nascimento do menino Jesus, mas a promessa e sabedoria de Deus sempre existiu. Isso significa dizer que Jesus também existia nos propósitos de Deus, mas não como uma pessoa.

João 1:1-5 é um resumo de todo o Evangelho, como veremos adiante; e, ao mesmo tempo, faz referência ao princípio do ministério de Cristo, ou seja, o tempo em que teve início a pregação da palavra de Deus pelas terras de Israel. É o princípio da Nova Criação. Além disso, observe os tempos de João Batista (vv 6-8) se desenrolando diante da nação de Israel — ele foi o profeta pelo qual o Senhor falou ao seu povo novamente depois de 400 anos de silêncio.

A tipologia de Gênesis sobre o “princípio”, inserida no verso 1 de João, requer outro princípio para a palavra correspondente de Deus. Esse princípio é o ministério de Jesus. Segue-se que a palavra se tornou carne, ou seja, Cristo veio para ficar no lugar da palavra criadora de Deus. O batismo de Cristo foi acompanhado por uma exibição teofânica com os céus abertos e o Espírito descendo como uma pomba e uma voz declarando Jesus como filho de Deus. O ‘sobre ele’ do Espírito (Mateus 3:16; Lucas 3:22) capta o motivo comum de o Espírito estar ‘sobre’ um indivíduo que , por sua vez, está associado à palavra de Deus. Observe que João só conheceu a verdadeira identidade de Jesus após ter visto a descida da pomba (v. 34), então, ele foi capaz de declarar que Jesus era o preferido antes dele. E note também quando ele diz que não o conhecia, apesar de serem parentes.

Deus profetizou que colocaria suas próprias palavras no Messias, e que ele falaria tudo o que Deus mandasse. As Escrituras apoiam a palavra de Deus vindo às pessoas e habitando nelas. Logo, não faz sentido dizer que um Jesus preexistente se tornou carne. Eu não acredito que a palavra de Deus se tornou carne de ninguém!

Como prova, eu cito Deuteronômio 18:18, cumprido em João 1:14: “Do meio de seus irmãos lhes suscitarei um profeta semelhante a ti; e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Deut 18:18). E de fato, Jesus falou as palavras de seu Pai, não suas próprias palavras.

Veja os textos:

João 7:15-18 “E os judeus maravilhavam-se, dizendo: Como sabe este letras, não as tendo aprendido? Jesus lhes respondeu, e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo. Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória; mas o que busca a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro, e não há nele injustiça

João 8:28 “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou”.

João 12: 49,50 “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito”.

João 14:10,24 “Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras… Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou”.

Você pode resumir estes textos — associando João 1:1-5, usando as palavras do escritor aos Hebreus: “De muitas e várias maneiras Deus falou aos nossos pais pelos profetas; mas nestes últimos dias ele falou conosco por Seu filho” (Heb 1:1-2).

O que vemos em João 1: 1 – 5 é um relato poético sobre as boas novas; fala da palavra que passou a ser anunciada no princípio do ministério de Jesus pelas terras de Israel. É o “princípio” de uma nova criação, um novo começo, o início da tão esperada restauração da Era Vindoura (cf. Mateus 19:28, Marcos 10:30, Lucas 22: 28-30 e Efésios 1:21).

É claro que uma sugestão como essa vai de encontro aos estilingues da nossa tradição indignada que brada: “então qual é a verdade destes textos, e como ele pode mostrar o caminho?”

É o que nós vamos ver …

Antes de dar início ao estudo, devo dizer que não creio que João, filho de Zebedeu, foi o escritor do evangelho que leva seu nome; muito provavelmente foi outro João. Mas esta é uma tarefa para ser tratada em artigo posterior.

Se desejar mais informações sobre o assunto, visite o site agrandecidade.com no artigo “O Discípulo Amado não é João”.

O Logos e o Mediador

No princípio era o logos/verbo” João 1:1

Logos tem uma ampla gama de significados. Porém, tudo pode ser resumido no significado central que é a mensagem falada, a Palavra. Logos é traduzido nas Escrituras como, aparência, livro, comando, conversação, eloqüência, lisonja, queixa, ouvido, instrução, matéria, mensagem, ministério, notícias, proposta, pergunta, razão, relatório, regra, rumor, disse, dizendo, frase, orador, discurso, histórias, falar, ensino e testemunho.

Qualquer bom léxico grego também mostrará essa ampla gama de significados – as palavras em itálico são traduções de logos:

  • Uma pergunta (Mt 21:24, “Eu também vos perguntarei”).
  • Uma declaração (Lucas 20:20, “para o apanharem nalguma palavra/declaração”).
  • A palavra (Rm 15:18, “para fazer obedientes os gentios pela palavra”).
  • Pregação (1 Timóteo 5:17, “aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino).
  • Mandamento/Palavra (Gl 5:14, “Toda a Lei se resume num só mandamento”).
  • Ditado (João 4:37, “nisto é verdadeiro o ditado, um semeia outro colhe”).
  • Mensagem (Lucas 4:32, “porque a sua mensagem era com autoridade”).
  • Discurso (João 6:60, “duro é este discurso, quem o pode ouvir?).
  • Assunto (Atos 15: 6, “Os apóstolos…se reuniram para examinar esse assunto”).
  • A revelação de Deus falada (Heb. 13: 7, “líderes que falaram a Palavra de Deus”).
  • Uma razão (Atos 10:29, “Pergunto, pois, por que razão mandastes chamar-me?”).

Com todas as definições e formas pelas quais logos pode ser traduzido, como podemos decidir que significado escolher para qualquer verso? Como se pode determinar o significado de logos em João 1: 1?

Qualquer ocorrência de logos deve ser cuidadosamente estudada em seu contexto para obter o significado apropriado. Portanto, podemos afirmar com certeza que logos em João 1: 1 não pode ser Jesus. Por favor, note que “Jesus Cristo” não é uma definição lexical de logos. Além disso, este versículo não diz: “No princípio era Jesus”.

“A Palavra” não é sinônimo de Jesus, ou mesmo “o Messias”. A palavra logos em João 1: 1 refere-se à autoexpressão criativa de Deus — Sua razão, propósitos e planos, especialmente quando são trazidos à ação, ou comunicação de Si mesmo. Isso aconteceu através de Sua criação (Rm 1.19 e 20), e especialmente dos céus (Salmos 19). Veio através da palavra falada dos profetas e através da Escritura, a Palavra escrita. Mais notavelmente e, finalmente, surgiu através do Seu Filho (Hb 1: 1 e 2).

A palavra logos, então, denotando “razão” e “fala”, era um termo filosófico adotado pelo judaísmo alexandrino antes de São Paulo escrever, para expressar a manifestação do Deus Invisível na criação e governo do mundo. Incluía todos os modos pelos quais Deus se dá a conhecer ao homem. Como Sua razão, denotou Seu propósito ou ‘design’; como seu discurso, implicou sua revelação, que culminou na promessa do Messias. Por esse motivo é que essa Palavra anunciada, ou promessa, tornou-se o homem Jesus Cristo.

O logos é a expressão de Deus e é Sua comunicação de Si mesmo, assim como uma “palavra” é uma expressão externa dos pensamentos de uma pessoa. Essa expressão externa de Deus ocorreu agora através de Seu Filho e, portanto, é perfeitamente compreensível por que Jesus é chamado de “Palavra”. Jesus é uma expressão exterior da razão, sabedoria, propósito e plano de Deus. Pela mesma razão, chamamos a revelação de “uma palavra de Deus” e a Bíblia “a Palavra de Deus”. Basta entendermos que logos é a expressão de Deus – Seu plano, propósitos, razão e sabedoria.

A maioria dos leitores judeus do Evangelho de João estaria familiarizado com o conceito de a “palavra” de Deus estar com Deus enquanto Ele trabalhava para trazer Sua criação à existência. E tenha em mente: os judeus eram ferozmente monoteístas e não acreditavam de forma alguma em um “Deus Trino”. Eles estavam familiarizados com os idiomas de sua própria língua e entendiam que a sabedoria e o poder de Deus estavam sendo personificados como “palavra”.

O logos, isto é, o plano, propósito e sabedoria de Deus, “se fez carne” (entrou em processo ou existência física) em Jesus Cristo. Jesus é a “imagem do Deus invisível” (Cl 1:15) e o seu principal emissário, representante e agente. Porque Jesus obedeceu perfeitamente ao Pai, ele representa tudo o que Deus pôde comunicar sobre si mesmo em uma pessoa humana. Como tal, Jesus poderia dizer: “Quem vê a mim, vê o Pai” (João 14: 9).

O fato de o logos tornar-se carne mostra que ele não existia antes. Não há preexistência para Jesus neste verso que não seja sua “existência” figurada como o plano, propósito ou sabedoria de Deus para a salvação do homem. O mesmo acontece com a “palavra” por escrito. Não tinha preexistência literal como um “livro-espírito” em algum lugar na eternidade passada, mas surgiu com Deus, que deu a revelação às pessoas e elas escreveram (Comentário em João 1:1).

No entanto, não se pode enfatizar demasiadamente que Cristo em pessoa era “a palavra”; ele era/é o plano de salvação de Deus por meio do qual a palavra foi anunciada. ‘Logos’ (“Palavra”) é frequentemente usado com relação ao evangelho sobre Cristo — por exemplo, “a palavra de Cristo” (Col 3:16; Mt 13:19; João 5:24; At 19:10; 1 Tes 1: 8).

Veja os textos:

Mateus 13: 19 “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho”.

João 5: 24 “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida”.

João 12:48 “Quem me rejeita, e não recebe as minhas palavras, já tem quem o julgue: a palavra que eu falei, essa o julgará no último dia”.

Atos 19:10 “E durou isto por espaço de dois anos; de tal maneira que todos os que habitavam na Ásia ouviram a palavra do Senhor Jesus, assim judeus como gregos”.

Colossenses 3:16 “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração”.

1 Tessalonicenses 1:8 “Porque por vós soou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou, de tal maneira que já dela não temos necessidade de falar coisa alguma”.

Observe que o ‘logos’ é sobre Cristo, ao invés dele pessoalmente. Quando Cristo iniciou seu ministério, esta “palavra” se transformou em carne e sangue — “a palavra se fez carne” (João 1:14). Ou seja, o que era anunciado apareceu. Ele, pessoalmente, se tornou “a palavra” porque passou, pela palavra, a construir um novo mundo, a nova criação.

O plano, ou mensagem sobre Cristo estava com Deus no início, mas foi abertamente revelado na pessoa de Seu filho e a pregação do evangelho sobre ele no primeiro século. Assim, Deus falou Sua palavra para nós através de Cristo (Heb 1: 1,2). Repetidamente, é enfatizado que Cristo falou as palavras de Deus e fez milagres na palavra de comando de Deus para nos revelar Deus (João 2:22; 3:34; 7:16; 10: 32,38; 14:10, 24).

A vida eterna só foi possível para o homem por meio da obra de Cristo (João 3:16; 6:53); contudo, no início, Deus tinha esse plano de oferecer vida eterna ao homem através do sacrifício que Jesus faria. A revelação plena dessa oferta só veio depois do nascimento e morte de Jesus: “Vida eterna, que Deus … prometeu antes que o mundo existisse; mas, no devido tempo, manifestou a Sua palavra por meio da pregação” (Tito 1: 2,3).

Na Bíblia Hebraica, a palavra de Deus é aquela que ele falou. A palavra de Deus cai em duas categorias principais: comandos, decretos, instruções, etc, como nestas passagens: Gn 1: 3; Num 3:51; 1 Sam 15:23; 1 Reis 12:24; 13: 9; 2 Crôn 34:21; Sal 33: 6; e declarações de seus propósitos pretendidos na forma de oráculos proféticos e promessas, como nestes versos: Gn 15: 4; 1 Reis 2:27; 16: 1-4; Jer 9: 20-22; Lam 2:17; Dan 9: 2. Outras categorias incluem palavras de repreensão e palavras de encorajamento. Note também que a palavra de Deus às vezes é personificada como um servo (Salmo 107: 19-20; 147: 15-18), mas nunca é apresentada como um ser pessoal literal.

Portanto, desde o princípio havia o logos (a razão, o plano, o poder), que estava com Deus. Não havia outro “deus” existindo com Deus. Além disso, o plano de Deus era parte do próprio Deus. O plano de Deus começou a tomar forma no ventre de Maria.

O Mediador

No prólogo de João, o propósito de Deus era trazer um homem por meio do qual Ele redimiria a humanidade. Ou seja, é Ele mesmo falando para a humanidade na pessoa do filho. Esse é o sentido de a ‘palavra’ estava com Deus’ (a frase grega é pros ton theon – significando mediação) e pode denotar que a palavra estava, como um servo, em uma postura para com Deus, pronta para cumprir suas ordens. A intenção de João é colocar Jesus como a palavra em uma posição paralela ao que Deus diz. Em outras palavras, para o trabalho da nova criação, Cristo mantém a posição da ‘palavra de Deus’ porque Deus fala através dele. Portanto, a nova criação está sendo criada por Deus Pai pela palavra falada por Cristo. Dessa forma é que uma pessoa pode estar no lugar da palavra falada de Deus e ser ‘a palavra’. Nesse sentido é que Cristo é a palavra de Deus citada em Apocalipse 19:13.

Em Gênesis, as palavras são ditas e produzem um efeito. Em João, é dito que a Palavra está com/em relação a Deus e também é Deus. As ideias de estar ‘com Deus’ e ‘era Deus’ são detalhes adicionais não encontrados em Gênesis. É importante ver que esses detalhes são um complemento, porque o texto fundiu o ensino de Gênesis com João. O tom subjacente ao grego de ‘com Deus’ é intercessão e sacerdócio, e é por isso que é preferível traduzir a frase como ‘o Verbo estava voltado para Deus’. Porque a palavra passou a ser uma pessoa em “a palavra se fez carne”. Falarei sobre isso mais adiante.

A menção da Palavra que “estava com Deus”, e também “como Deus – era Deus”, tem sido motivo de controvérsia. Alguns veem neste texto uma menção a uma pluralidade na divindade; outros veem uma afirmação da divindade essencial de Cristo. Contudo, esse duplo aspecto de Cristo, como ‘em direção a Deus – e ser Deus’, é baseado em Moisés, que era um homem ‘em direção a Deus e agia no lugar de Deus’. Veja Êxodo 4:16: “Tu, pois, lhe falarás, e porás as palavras na sua boca; e eu serei com a tua boca e com a dele, e vos ensinarei o que haveis de fazer. E ele falará por ti ao povo; assim ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus” (compare com Zacarias 12: 8; por uma razão semelhante o título ‘Deus’ foi aplicado à casa de Davi).

A tipologia em João dá a mesma ideia encontrada em Êxodo. Ou seja, “a Palavra era Deus (depois que se tornou carne) por que Deus falava através de Jesus. Jesus foi o porta-voz de Deus ao povo, como Moisés. O tipo é forjado pela posição de Moisés como Deus: “… você deve ser para ele como Deus…”. A palavra grega πρόςpros (em Inglês with: com em português) do primeiro versículo de João é a mesma palavra usada em Êxodo 4:16 envolvendo Moisés como mediador entre Arão e Faraó. A versão inglesa NETS traduz a última parte de Êxodo 4:16 da seguinte forma: “Mas sereis para ele (para Arão) nas coisas que pertencem a Deus”.

O texto diz que Moisés seria usado no lugar de Deus para Arão. A tradução transmitiu o significado da preposição pro de forma perfeita. Assim como João 1: 1, temos o verbo estático “estar” com o significando de “no lugar de”. Portanto, dizer que “O Verbo estava com Deus” não significa que ele estava com Deus no princípio de Gênesis, mas sim que ele “estava com Deus como intermediário” entre Deus e os homens lhes transmitindo a mensagem de Deus. É uma sensação de ‘estar ao lado’ ou ‘estar na companhia de alguém’ como em ‘estava com Deus’.

Isso não deve nos surpreender, pois é uma característica da Escritura de que os textos costumam levar alusões a muitos lugares. Um mediador pode criar, cumprir os mandamentos de Deus e trazer ordem ao caos, como fez Moisés. Assim, concluímos que João não está afirmando que Jesus é Deus, mas que ele fala no lugar de Deus em relação a nova criação. Por isso, posteriormente, são usadas frases do tipo, “quem vê o filho, vê o Pai”, “eu e o Pai somos um”, “Deus conosco” e similares.

Deus estava realizando sua nova criação através da palavra de Jesus. E, de fato, veremos que Jesus está envolvido, porque é uma criação de novos homens e mulheres nele (2 Cor 5:17; Gal 6:15; Ef 2:10; 4:24; Col 3:10; Tg 1:18; 1 Ped 1:23), sendo aqueles que nasceram, não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1: 12,13). É verdade, pois Tiago aponta O Pai como Criador nesta criação: “Segundo a sua (de Deus) própria vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para sermos como que primícias das suas (novas) criaturas” (Tiago 1:18).

O Verbo se fez Carne

E a palavra (verbo/logos) se fez carne e habitou entre nós, e vimos a Sua glória na pessoa do filho, cheio de graça e de verdade” (João 1:14).

Estas palavras anunciam a chegada do Messias. A palavra “anunciada” aqui traduz o substantivo grego logos, que também vem do verbo legein, que significa “dizer” ou “falar”. E no princípio do ministério de Jesus era apenas a palavra, o anúncio, a mensagem; tudo pode ser traduzido como Logos.

A palavra sobre a vinda do Messias começou a ser anunciada de forma mais crescente em toda Judeia. Em seguida, o que aconteceu pode ser resumido da seguinte forma: “a mensagem se fez carne”. Ou seja, o que era anunciado ficou visível: Jesus, o Salvador. Isso é João 1:1-14 sem complicações.

A afirmação no versículo 14, portanto, de que “o verbo se fez carne e habitou entre nós”, deve significar que “a palavra/promessa foi cumprida na pessoa de Cristo”, e pertence a história de João Batista e da recepção do Messias, embora as notícias estivessem sendo anunciadas desde o nascimento do Salvador. João Batista explica sua própria missão nas palavras de Isaías 40: 3: “Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías” (Jo 1: 23).

É claro, se alguém deu o primeiro passo falso ao assumir que a “palavra” no princípio (da criação original) era “o filho”, então a frase “a palavra era Deus” só pode confirmar a impressão de que há dois membros da divindade e que ambos são Deus. Por mais problemática e ilógica que seja essa afirmação de uma dualidade em Deus, milhões de leitores da Bíblia foram condicionados a dar esse salto arriscado, apesar de Jesus e Paulo demonstrarem em outros lugares serem crentes no monoteísmo, a grande herança judaica.

Dirigindo-se ao Pai, Jesus diz: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17: 3). Ele se refere novamente ao Pai como o único Deus: “Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, e não buscando a honra que vem do único Deus?” (João 5:44).

Estes são ecos do monoteísmo puro da Bíblia hebraica. Deus permanece no Novo Testamento como “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Pd 1:3) e não Deus do Deus Jesus Cristo. Deus não pode ser pai de Deus. Além disso, nós só temos um Pai no céu, não dois. Malaquias atesta: “Não temos todos um só pai? Não nos criou um só Deus?” (Malaquias 2:10). Quão maravilhosamente isso se harmoniza com a grande declaração do credo de Paulo: “… não há outro Deus, senão um só” (1 Cor 8:4). Em Romanos 16:27 ele separa Jesus do único Deus: “ao único Deus, sábio, seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém”.

As coisas que aconteceram na história do evangelho, que o escritor está prestes a relatar, como consequência da obediência diligente do Filho, devem, portanto, ser entendidas como constituindo um novo período de atividade de criação divina, o começo de um novo mundo. A intenção criativa de Deus assumiu carne na pessoa de Jesus, a fim de trazer uma nova criação que significaria a vida da era vindoura para aqueles que acreditavam.

Princípio das boas novas – não da criação de Gênesis

Os escritores do Novo Testamento retratam claramente o ministério de Jesus começando com o batismo de João, como o início da Boa Nova e o iminente estabelecimento do Reino de Deus. Marcos abre seu evangelho com as palavras “o princípio do Evangelho de Jesus Cristo”. Lucas abre seu evangelho referindo-se ao princípio do ministério da Palavra e sua declaração de abertura no Livro de Atos se refere ao seu evangelho como “tudo o que Jesus começou a fazer e ensinar”. E em sua primeira epístola, João se refere à palavra como o que eles ouviram desde o princípio.

João usa as palavras princípio, palavra, luz e veio a ser, não porque ele descreve a criação original do universo, mas porque ele descreve o mesmo Deus de Gênesis criando um novo princípio através das suas promessas.

Observe como nossas versões apresentam João 1:1,2: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus”. Outra versão substitui verbo por palavra: “No princípio era a palavra, e a palavra estava com Deus, e a palavra era Deus. Ela estava no princípio com Deus”.

A interpretação comumente aceita da passagem fornece um suporte vital para a doutrina tradicional trinitariana da divindade, compartilhada igualmente por Pai e Filho desde a eternidade. A Versão Inglesa Contemporânea vai muito além do grego, e nos dá: “A Palavra era Aquele que estava com Deus”. Sem dúvida, de acordo com essa versão, essa palavra significa um filho eterno, embora seja um erro fatal. O texto lê “no princípio era a palavra” não “no princípio era o filho”.

O verso três diz: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”. Isso não deve significar que Jesus estava com Deus na criação em Gênesis (Veja meu artigo “TUDO foi criado por Ele”. É um comentário extenso sobre Colossenses 1:16,17).

O fluxo da narrativa não para no verso três. Leia novamente os cinco versículos da introdução do Livro de João:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

Ele estava no princípio com Deus.

Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens;

A luz resplandeceu nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (João 1:1-5).

O Prólogo do evangelho de João é quase inteiramente narrado no pretérito. Os verbos apontam para eventos ocorridos no passado, no princípio, mas não o de Gênesis. Note os itálicos: “era o verbo”, “estava com Deus”, “coisas foram feitas por ele”, “O verbo era Deus”, “e sem ele nada do que foi feito se fez”. No entanto, os dois versos imediatamente posteriores são apresentados no mesmo formato: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz resplandeceu nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. Como poderíamos localizar estes eventos na criação original? Os versículos 4 e 5 completam a narrativa anterior, a mesma narrativa que os trinitarianos entendem ser uma alusão ao princípio em Gênesis. Nestes dois versos os verbos também estão no passado: “nele estava a vida”, “a vida era a luz dos homens”, “a luz resplandeceu nas trevas”, “as trevas não a compreenderam”.

A sequência no uso dos verbos para indicar um só evento não foi interrompida no verso três, mas se completa com os versículos quatro e cinco. Veja novamente o verso quatro: “nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens”.

Está claro que o escritor narra fatos ocorridos aqui na terra. O contexto deve ser lido e entendido com a finalidade de apresentar eventos para uma época apenas: “coisas que foram realizadas entre nós”, no princípio do ministério de Jesus e não o princípio da criação narrada em Gênesis.

Na verdade, a palavra princípio, em “no princípio era a palavra”, faz alusão ao tempo que Deus veio novamente, depois de um longo silêncio, falar ao seu povo. Deus trouxe Sua palavra no princípio, o princípio da nova criação, que teve início com o ministério de Jesus.

O Princípio em Marcos

Princípio do Evangelho (Boas Novas) de Jesus Cristo, Filho de Deus. Como está escrito nos profetas: eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti. Voz do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas. Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados” (Marcos 1:1-4).

O impasse é muito fácil de solucionar; note que Marcos simplifica João – eles falam a mesma coisa; João: “no princípio era a palavra”. Marcos: “princípio das Boas Novas”.

O motivo dessa interpretação é visto logo após o contexto antecedente (“no princípio era a palavra”) quando menciona a aparição de João Batista: “Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João” (João 1: 6). Portanto, no princípio havia notícias se espalhando sobre a vinda do Messias – note que a “Palavra de Deus” veio a João Batista (Lucas 3: 2). Compare isso com “Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti… Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento“.

Os paralelos entre o evangelho de Marcos e João 1: 6 são claramente óbvios. O evangelho de Marcos apoia ainda mais essa tradução do logos como significando “a palavra falada em toda parte no princípio” — sendo ecos de “no princípio era a Palavra”, pois em Marcos 1: 5 diz: “E toda a província da Judeia e os de Jerusalém iam ter com João Batista”. Obviamente podemos dizer que isso significa a palavra/notícia espalhada por todos os lugares.

O aparecimento de João Batista no evangelho de João e no evangelho de Marcos é uma evidência clara que João descreve o mesmo princípio que em Marcos. Ora, por que João Batista recebe tanto destaque nas duas introduções quando seu lugar nos quatro evangelhos como um todo não tem destaque semelhante? É porque ele não é outro senão o arauto da vinda do Senhor! Isto foi predito por Isaías: “Eis a voz do que clama: preparai no deserto o caminho do Senhor; endireitai no ermo uma estrada para o nosso Deus. Todo vale será levantado, e será abatido todo monte e todo outeiro; e o terreno acidentado será nivelado, e o que é escabroso, aplanado. A glória do Senhor se revelará; e toda a carne juntamente a verá; pois a boca do Senhor o disse” (Isaías 40:3-5). João Batista confirma que o profeta falava dele: “Respondeu ele: Eu sou a voz do que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías” (João 1:23).

Todos os quatro evangelhos citam Isaías (Mat 3: 3; Mc 1: 3; Luc 3: 4; João 1: 23) e estão unidos ao declarar que a profecia de Isaías foi cumprida pela vinda do Senhor ao mundo em Cristo.

A introdução do evangelho de João está em formato poético. É valioso observar que nos cinco versículos ele abrange toda a caminhada de Jesus, desde o princípio até o fim.

Leia outra vez com isso em mente: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz resplandeceu nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (João 1:1-5). Isso é um resumo da chegada do Messias até sua assunção ao céu. Infelizmente ele subiu rejeitado pela nação de Israel. Em seguida, o fluxo da poesia é interrompida para dar início aos eventos. Ou seja, o escritor volta ao princípio da história através de João Batista, o condutor da palavra. O que quero dizer é que o momento em que acontece João 1:1 (“no princípio era a Palavra”), pode estar falando da pregação de João Batista, “a voz que clama no deserto, anunciando o caminho do Senhor”.

Repare nas semelhanças entre Marcos e João. Marcos introduz João Batista logo após dizer: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. Veja: “Eis que envio ante a tua face a meu mensageiro, que há de preparar o caminho do Senhor”.

João introduz João Batista logo após seu prefácio: “Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João”. Os dois fazem referência ao mesmo princípio, o princípio do ministério do Messias. Além disso, a New American Standard, numa nota de rodapé, traduziu lógou, literalmente do grego em João, como “evangelho” e não como “palavra”. Isso deveria estabelecer e acabar com qualquer disputa sobre o significado de João 1: 1.

As evidências do contexto apontam para o princípio do evangelho de Jesus Cristo, aqui começando com a mensagem de arrependimento pregada pela primeira vez por João Batista, um precursor do Messias.

O Princípio em Lucas

Lucas também faz alusão ao princípio: “Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio” (Lucas 1:1-3).

Lucas usa a expressão “no princípio” para recuar até o nascimento de João Batista, o que é muito revelador e significativo, pois está dando ênfase ao ministério daquele que veio preparar o caminho do Senhor. Neste caso, obviamente devemos entender o “desde o princípio” em Lucas como referência à fatos ocorridos entre os judeus, também incluindo o ministério de Jesus.

“… desde o princípio, deve significar, desde o tempo em que Cristo começou a proclamar as boas novas do reino; e αυτοπται , testemunhas oculares, devem necessariamente significar aqueles que estiveram com ele desde o início e, consequentemente, tiveram as melhores oportunidades de saber a verdade de cada fato” (Adam Clark comentary – Luke 1:2)

O Princípio na Primeira Epístola de João

A primeira epístola de João, que parece mais uma réplica do início do Quarto Evangelho, diz: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (1 João 1:1).

A expressão ‘desde o princípio’ ocorre dez vezes nas pequenas cartas de João. Foi usado aqui em 1:1 em conexão com a “Palavra da vida”, que foi ouvido e visto: “que vimos com os nossos olhos … as nossas mãos tocaram … no princípio”.

Todos eles estão tratando do mesmo princípio:

“No princípio era a palavra …” João 1: 1.

“O princípio das Boas Novas …” Marcos 1: 1.

“Desde o princípio … ministros da palavra …” Lucas 1: 1.

“No princípio… a Palavra da vida…” 1 João 1: 1.

Observamos que Lucas é o escritor do evangelho que estava preocupado em enfatizar que ele tinha inquirido aqueles que “desde o princípio eram testemunhas oculares e ministros da palavra“ (Lucas 1: 2). Marcos também inicia seu evangelho com a palavra “princípio”. Até Mateus não deixa de ter seu conceito de “começo” quando ele abre seu evangelho com uma ‘genealogia’ ou ‘o princípio’ (genesi) de Jesus Cristo. Todos os três sinóticos abrem seus evangelhos com Jesus — registrando eventos da sua vida entre nós. João seria uma exceção e teria aberto com Gênesis?

Os apóstolos tinham claramente a convicção de que a pregação da palavra começou em um determinado momento: “A palavra que ele enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo (este é o Senhor de todos); esta palavra, vós bem sabeis, veio por toda a Judeia, começando pela Galileia, depois do batismo que João pregou” (Atos 10:36,37).

Olhando através do NT, obviamente existe uma consciência predominante de um novo princípio no propósito de Deus em João 1:1-5. É um prólogo em si, um resumo da história da salvação, como vimos.

Todo o contexto do capítulo 1 de João envolve Jesus e João Batista. Isso requer que a Palavra e João Batista sejam contemporâneos e proporcionais. Não faz sentido comparar uma hipóstase divina em um ponto de existência no início de Gênesis com um homem por volta de 30 dC. Para que? Qual seria a finalidade?

Todo o contexto é sobre o Messias sendo anunciado pelas terras de Israel no princípio; o princípio de seu ministério alcançando todo evangelho: as boas novas da nova criação. Essa é a intenção de João 1:1-5. Absolutamente nada no texto nos faria pensar que Deus estava em companhia de Jesus na criação do Céu e da Terra.

Quando João escreve as palavras gregas, “En archeé eén ho logos” é melhor traduzido: “No princípio as notícias eram ditas {em toda parte}. Isto é “a palavra que no princípio pairava sobre face das terras de Israel”.

Muitos estudiosos do texto bíblico entendem “a palavra”, no prólogo de João, como uma referência ao propósito declarado de Deus de redimir a humanidade da morte. Este propósito de Deus teria sido declarado por Deus ‘desde o princípio’, isto é, o princípio da história redentora. Deus revelava seu plano de redimir a humanidade no Messias. Citam Paulo: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2 Cor 5:19). E também Gênesis 3:15: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Pedro e Apocalipse são duas fontes interessantes. Veja 1 Pedro 1:20: “(Jesus) O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós”. Agora Apocalipse 13:8: “ … o livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”. Nesse caso, João 1:1 poderia ser lido assim “No princípio da fundação do mundo era a palavra/promessa”. Essa é uma das muitas interpretações alternativas que removem Jesus da criação em Gênesis!

Portanto, é suficiente pensar em “palavra” como o enunciado de Deus, não Seu Filho antes da geração do Filho de Maria. Neste modelo, o Filho é, na verdade, o que a palavra tornou-se. O Filho não preexistia como Filho. O Filho é a expressão humana visível do propósito preordenado de Deus. Não houve Filho de Deus até que o Messias foi concebido na história. Antes Deus teve Seu Projeto e Plano “com Ele”, como a base de toda a Sua intenção para a criação e para a humanidade. Por esse entendimento, o Messias é realmente um ser humano, um estatuto que não pode ser invocado para ele se ele existia desde antes de Gênesis!

O significado de “archeé” em João 1

Para determinar o período de tempo mencionado em João 1:1 é preciso entender o significado da palavra grega traduzida como início (ou seja, “no princípio …”). A palavra grega para princípio é archeé. Esta palavra é semelhante a mesma palavra cognata de onde vem a palavra “arcanjo”. Um arcanjo é, por definição, um mensageiro chefe. Esta palavra grega tem uma ampla gama de definições e aplicações e somente o contexto determina o uso correto. Essa palavra pode se referir ao começo de qualquer coisa e é lamentável que os tradutores da Bíblia se sentissem limitados em seu uso e aplicação. Isso acontece quando a teologia interfere na capacidade de tradução de uma pessoa.

Para ilustrar como archeé é usado em outras partes do evangelho de João como referência ao ministério de Jesus, vamos ao texto de João 6:64 que contém uma chave importante: “Pois Jesus sabia desde o princípio (archeé) quem dentre eles não acreditavam e quem era que o trairia”. Neste texto, “desde o princípio”, descreve apropriadamente o “princípio” de seu ministério como o Cristo.

No evangelho de Marcos, como vimos, encontramos uma aplicação idêntica de archeé com associação direta ao início do evangelho de Cristo (anunciador das boas novas): Marcos 1: 1-5: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”.

O escritor do Quarto Evangelho continua seu uso de archeé apenas alguns versos depois, nos quais ele escreve sobre o início do primeiro milagre de Cristo em Caná da Galileia: “Jesus principiou assim os seus sinais em Caná da Galileia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele”, João 2:11.

Devo ressaltar que não estou dizendo que archeé nunca tenha implicações para o começo mencionado em Gênesis. A palavra pode ser usada para o princípio de Gênesis, mas não a de João 1:1.

Observe que Jesus acrescenta um forte argumento como prova de que archeé em João 1: 1 é o começo de seu ministério quando ele menciona sobre a promessa de retornar como o Parakletos em João 15:27 e 16: 3-4. Ele fala em João 15:27: “E vós também testificareis, pois estivestes comigo desde o princípio”. Em João 16: 3-4 ele torna a dizer: “E isto vos farão, porque não conheceram ao Pai nem a mim. Mas tenho-vos dito isto, a fim de que, quando chegar àquela hora, vos lembreis de que já vo-lo tinha dito. E eu não vos disse isto desde o princípio, porque estava convosco”.

Outros autores do NT também usam archeé para indicar o princípio de algo que ocorreu entre eles, como quando Pedro descreve o “princípio” como o dia de Pentecostes, quando os discípulos receberam o Espírito Santo (Atos 11:15). Paulo usa archeé para descrever seu modo de vida como judeu praticante em Atos 26: 4; essa interpretação é um forte apoio para a mesma tradução de archeé em João 1: 1. Atos 26: 4 diz, “Quanto à minha vida, desde a mocidade, como decorreu desde o princípio entre os da minha nação, em Jerusalém, todos os judeus a conhecem, sabendo de mim desde o princípio (se o quiserem testificar), que, conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu”.

Portanto, “no princípio era a palavra…” é uma referência ao princípio das boas novas, o princípio da nova criação, quando os rumores do tão esperado Messias se espalharam pelas aldeias rurais, vilas e cidades. João não diz que Jesus é preexistente e criador do mundo, embora essa conclusão ainda possa ser alcançada por um longo desvio. Não há antecedentes para a eternidade na palavra princípio. A palavra princípio deve ser entendida considerando o contexto, pois a matéria de João está tratando do evangelho ou as coisas transacionais sob o evangelho.

O notável comentarista bíblico F.F Bruce defende esta interpretação: “Não é por acaso que o Evangelho começa com a mesma frase do Livro de Gênesis. Em Gênesis 1:1, “no princípio”, introduz a história da velha criação; aqui, ele apresenta a história da nova criação. Em ambas as obras da criação, o agente é a Palavra de Deus” (F.F Bruce, The gospel of John, pp. 28,29).

Em um dos livros de N.T. Wright sobre teologia paulina, ele argumenta que, “para Paulo, a morte e ressurreição de Cristo não apenas marcou a derrota decisiva do pecado e da morte, mas também realizou nada menos do que o lançamento da tão esperada renovação da criação por Deus” (N.T. Wright, “Paul: In Fresh Perspective” (Paulo: Em nova perspectiva). Minneapolis, MN: Fortress Press, 2009, p 38). E ainda: “A nova criação foi inaugurada, mas ainda não foi consumada” (p 137).

Outro atesta: “Os sinais do Evangelho devem ser entendidos … como um prenúncio desta glória e uma participação antecipada na nova vida que há de vir” (“The Gospel of John and Christian Theology” (O Evangelho de João e a Teologia Cristã). Richard Bauckham and Carl Mosser, 295-310. Grand Rapids, p 303).

A obra de Jesus é a obra da nova criação. E aqui, no evangelho de João a noção de criação deve ser amplamente concebida. A criação inclui a consumação de tudo e abrange, portanto, o que pode ser chamado de redenção total. Não apenas para a vida ficar infinitamente confinada neste mundo – não é a mera existência nessa vida. É, sim, “vida eterna”, vida em sua plenitude – aquela forma de vida que é a consumação da obra criativa de Deus.

Aguarde! Ele vai voltar para buscar os seus: “… Cristo, oferecendo-se uma só vez para levar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação” (Hebreus 9:28).

Entendendo Hebreus 1:1,2

O escritor aos Hebreus desmistifica àquilo que foi equivocadamente o entendimento de milhões de cristãos, derrubando a teoria dos contextos que foram interpretados como sendo registros da criação do Gênesis. Ele fala da nova criação: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo” (Heb 1:1,2).

Uma olhada rápida na concordância de Strong ou em uma Bíblia ‘on-line’ descobrimos que a palavra grega para “por quem” seria melhor traduzida por “para quem”, que está de acordo com a posição de herdeiro. Mas o foco principal é por quem Deus falou, que foi Seu Filho, aquele que os trinitarianos dizem que também criou o Universo. No entanto, o escritor não trata da criação em Gênesis, mas da era por vir. É o que ele confirma no capítulo seguinte: “Pois não foi a anjos que sujeitou o mundo que há de vir, sobre o qual estamos falando” (Heb 2:5). E de fato, pois aion, [“mundo”, verso 1] significa ‘as eras’ ou ‘uma era’. Em quase todos os casos em que a palavra aion ocorre no Novo Testamento não significa “o planeta físico, a terra”, mas sim a “era por vir”. Em Efésios 2: 7 lemos sobre “as eras vindouras” — é a palavra aion usada novamente.

Apenas alguns versos após Hebreus 1: 2, lemos que o filho reinará “para os aions e os aions”, ou, “para todo o sempre” (Hebreus 1: 8). Certamente a mensagem combinada é que as eras/aions existem apenas por causa de Cristo, e Ele governará sobre todos os futuros aions, o “aion para vir” [“o mundo vindouro”, Heb 6: 5]. O aion por vir é a eternidade do Reino de Deus. Será, em linguagem um tanto hiperbólica, uma eternidade de eternidades. Mais tarde, em Hebreus, lemos que Jesus fez o sacrifício pelo pecado “na consumação dos séculos/aiōnōn” (Hb 9:26). Essa é uma prova clara de que a palavra não se refere ao planeta físico. Portanto, em Hebreus 1:1,2 não há nenhuma alegação de que o Filho estava na criação do Universo com o Pai, ou que ele era uma “pessoa eterna” dentro da divindade.

O escritor está fazendo referência ao mundo por vir. Jesus é o criador deste novo mundo por vir. Os redimidos são descritos como uma nova criação e Cristo nosso criador. O que nos espera é “novos céus e uma nova terra”, onde habitará a justiça.

Da mesma forma, quando o escritor do Quarto Evangelho alega que “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”, (João 1:3) ele está falando da nova criação. Paulo concorda quando diz que “Deus tudo criou por meio de Jesus Cristo” (Efésios 3:9). E continua: “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele” (Colossenses 1:16).

A especificação do escritor do evangelho de João é a mesma que a de Paulo — todas as coisas foram feitas por Deus através de Jesus. Esta abordagem é confirmada pela frase “sem ele nada do que foi feito se fez” (João 1: 3).

Como visto, o Prólogo do Evangelho de João não trata da Criação em Gênesis, não mostra Jesus como criador e nem afirma que ele é preexistente — é um erro de interpretação que tem enganado toda a cristandade.

A Deus toda Glória

5 comentários em ““No Princípio” – João 1:1 – que princípio?”

  1. Encontrar a verdade causa um dos sentimentos mais confusos que alguém possa ter. Um misto de alegria e tristeza! Alegria pela sensação dos olhos serem limpos e abertos e tristeza por saber o quão fácil um erro se enraíza e engana todos os dias milhares e milhares de cristãos!

    Parabéns pelo artigo e glória a Deus!

  2. Perdoe-me, mas não ficou claro, em seu texto, que não foi, de facto, em Jesus (o Verbo que se fez carne, a Palavra de Yahweh) que Yahweh criou todas as coisas que há no céu e na terra, visíveis e invisíveis, como assegura o texto de Colossenses 1:16 (“por Ele e para Ele”).
    O verso 17, desse mesmo capítulo, mostra que Yahweh parece estar falando de “todas as coisas” mesmo e não de uma “nova criação” após o nascimento de Jesus, visto que céu e terra já existiam antes do Seu nascimento.
    Ou seja, tais coisas (que existem no céu e na terra, visíveis e invisíveis) já haviam sido criadas antes da Palavra vir ao mundo em forma de homem, a qual recebeu, posteriormente, o nome de Jesus Cristo: “E demonstrar a todos qual seja a comunhão do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo” (Efésio 3:9).
    Outrossim, gerar novos filhos é bem diferente de “criar todas as coisas”. Uma nova criação, de facto, ocorrerá, salvo erro, na consumação de “todas as coisas”, como nos assegura o livro de Apocalipse: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5).

    1. Sr Marcelo, o contexto trata sim da nova criação. Nessa nova criação o cristão é feito segundo a imagem de Cristo:

      “Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho , a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29)

      Começou tudo outra vez! Fomos feitos a imagem de Cristo!

      O Cristo de Maria morreu, mas quando ressurgiu era o novo homem; o “novo homem, que segundo Deus foi criado em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4:24).

      Nós pertencemos ao que ressuscitou:
      “Assim também vós, meus irmãos, fostes mortos quanto à lei mediante o corpo de Cristo, para pertencerdes a outro, àquele que ressurgiu dentre os mortos a fim de que demos fruto para Deus” (Romanos 7:4).

      Aquele que está nele é nova criatura: “Por isso daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne; e, ainda que tenhamos conhecido Cristo (o judeu filho de Maria) segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos desse modo. Pelo que, se alguém está em Cristo (ressuscitado), nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:16-17).

      O cristão é nova criatura; sendo nova criatura ele vai participar de uma nova criação, que será definitivamente vivida no mundo por vir.

      Jesus é o primogênito dessa nova criação:
      “Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus” (Apocalipse 3:14). Aqui não é a criação de Gênesis, mas a nova criação (Veja meu artigo “TUDO foi criado por Ele).

      Observe os ecos do prólogo de João nas palavras de Paulo no assunto nova criação, que é uma declaração geral sobre Deus e a criação de todas as coisas em Cristo: “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra…” (Col 1:16).

      Paulo usa a expressão “todas as coisas” e seu ponto é sobre a nova criação, não a criação de Gênesis, porque ele fala de coisas, incluindo pessoas vivas nos seus dias – os “nós” nele: “Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele”, 1 Cor 8:6.

      Na era vindoura vamos experimentar plenamente o que é esta reconciliação de todas as coisas por Cristo: “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra”, Ef 1:10.

      Acabou! Está consumado! Esse é o significado das palavras de Jesus no Calvário. É como se voltássemos para o Éden, ou algo muito maior. Por esse motivo os cristãos são chamados de novas criaturas: eles vivem numa nova criação, aquilo que vamos vivenciar de forma plena no mundo vindouro.

      Claramente é uma evidência de algo muito maior do que a criação em Gênesis. No entanto, Jesus não é apresentado como o Criador sui generis (isto é, unicamente como o criador), mas como alguém com quem a nova criação estava ocorrendo (Rm 8:32). Deus criou em Cristo. Esta parceria é um reflexo da cooperação entre o Pai e os anjos na criação original: “… façamos o homem à nossa imagem …” (Gen 1:26) . E assim de Cristo está escrito, “… para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo assim a paz” (Ef 2:15) .

      Aqui lemos que Cristo é a nossa paz, tendo abolido em sua carne a inimizade a fim de fazer em si mesmo um novo homem, reconciliando tanto judeus como gentios para com Deus. No entanto, em Cl 1: 19-20, lemos que Deus faz a paz através do sangue de sua cruz, e por Cristo, reconciliando todas as coisas para si mesmo, no corpo de sua carne. Então, ambos, Deus Pai e Seu Filho estão envolvidos com este trabalho.

      Cristo é o primogênito da Nova Criação. A ressurreição de Cristo deu início a nova criação. Por isso ele é o primogênito entre os mortos; o primogênito da nova criação de novas criaturas imortais. Imortais porque estão aguardando a ressurreição de seus corpos; Cristo foi o primeiro (1 Cor 15:20,23).

      Veja o que diz João em Apocalipse: “e da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dos mortos e o Príncipe dos reis da terra. Àquele que nos ama, e pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados” (Apocalipse 1:5).

      Fica na paz

  3. O princípio foi a chegada do reino de Deus, iniciando pelo ministério de Cristo. Os evangelhos foram escritos depois, por isso acho que se usa o termo “princípio”, como referência ao início.
    Uma questão:
    “Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu.
    Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
    Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome;
    Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”
    João 1:10-13
    Este “mundo” seria Israel, e Deus separou e conduziu o povo hebreu durante séculos por causa de Cristo, para no momento determinado enviar o Messias, seria esta a intrepretação de “mundo foi feito por ele”? É por aí? Estou tentando entender melhor estes versículos.

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